Escrito nas Estrelas

373 24 6

Episódio Zero da Trilogia das Cartas

Alguma vez você já sentiu um aperto muito forte no peito, como se algo muito ruim fosse acontecer? Ou adivinhou que no final do dia, mesmo quando um lindo tom de azul está pintando o céu lá fora, iria acontecer uma tempestade e deixou o guarda-chuva na bolsa só por precaução? Já escolheu um número correto em um sorteio, tendo a certeza de que aquele seria o premiado?

É... não tente fugir... você pode ser um de nós.

Não... não ouse teimar comigo. Não existem coincidências.

Mas não pense que eu também não duvidei um dia. Quando tudo começou, não acreditei a princípio. Também reneguei meu próprio dom, e poderia ter causado algumas pequenas tragédias por causa disso.

Poderia também não ter ouvido meu coração... e...

Bem... acho que isso é assunto para uma história muito maior.

Ah! Você quer conhecer?

Não seja por isso... eu tenho tempo. Na verdade, o que uma senhora de mais de oitenta anos, já morta, teria para fazer além de contar uma boa história? Talvez escrever algumas cartas... mas isso eu já fiz. E também não tem correio aqui, no lugar onde estou.

Para começar, teremos que voltar no ano de 1943. Se minha memória não falha, é claro.

A guerra estava acontecendo, dilacerando famílias, capturando as almas de nossos homens e rapazes, derramando sangue inocente para todos os lados. Havia muito ódio enraizado em cada coração; parecia não ter sobrado nenhum espaço para o amor. As pessoas não tinham mais fé, e os sentimentos nobres desapareciam com cada brisa que anunciava uma nova perda.

Eu mesma, no auge dos meus dezoito anos, já tinha perdido muitas coisas. Um irmão, amigos, colegas... E foi exatamente por isso que meu espírito inquieto não permitiu que eu permanecesse apenas como uma expectadora indiferente. Precisava participar... mesmo não sendo um homem, mesmo não podendo lutar no campo de batalhas. Minha alternativa? Trabalhar nos hospitais, como enfermeira.

A verdade é que, apesar de ter a melhor das intenções, eu não fui exatamente uma boa menina.

Achava injusto ― e também uma espécie de intervenção divina ― que minha irmã Charlotte fosse uma enfermeira formada e devidamente alistada, pronta para partir no dia seguinte para um hospital da cruz vermelha americana.

Desde que ela se alistou e chegou em casa com a notícia, uma ideia muito capisciosa começou a se formar em minha cabeça. Eu, a mais nova de três irmãos ― e, confesso, a ovelha negra da família em matéria de comportamento ―, senti que era um sinal do destino.

Ela teria que partir muito cedo, às quatro da manhã, e eu, como sua colega de quarto, sabia que madrugar não era sua especialidade. O que me dava uma enorme vantagem.

Hoje, pensando com minha mente mais madura e usando a razão ao invés do coração, sei que o que fiz poderia ter me causado inúmeros problemas e... Ah, pelo amor de Deus, quem estou querendo enganar? Eu faria tudo de novo.

Naquela noite, antes de todos irem dormir, desliguei os despertadores da casa e aguardei. Apesar de saber que aquela seria minha última noite de sono decente em muito tempo, fiquei acordada, transbordando de ansiedade, observando cada movimento do relógio.

Às três e quinze da manhã, pulei da cama e corri para me arrumar. Pus o uniforme de Charlotte, peguei seus documentos, uma pequena malinha, que eu já tinha deixado preparada, e fui para a frente da casa, cinco minutos antes das quatro. Aliás, esses foram os cinco minutos mais longos da minha vida. Ao mesmo tempo em que eu não cabia em mim de tanta felicidade, por estar prestes a seguir um sonho que vinha alimentando há um bom tempo, temia que alguém da minha família chegasse e me visse ali, me fazendo passar por minha irmã ― o que era um crime ―, pronta para enfrentar os horrores da guerra com apenas dezoito anos recém completados.

Escrito nas Estrelas  (CONTO - EPISÓDIO ZERO DA TRILOGIA DAS CARTAS)Leia esta história GRATUITAMENTE!