Capítulo 26

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Durante o trabalho no hospital, Vincent foi chamado por Randall para uma reunião urgente, onde explicou para o biomédico que foi liberado para eles o retorno à Chade, para realizarem novas pesquisas.

Vincent já sabia que essa possibilidade existia, mas não esperava que acontecesse tão cedo. Randall explicou que o trabalho desenvolvido em Chade trouxe ao Hospital Bom Samaritano de Los Angeles excelentes resultados, consequentemente, para todos os seus pacientes, assim, nada melhor que continuarem investindo em pesquisas na África, onde poderiam estudar e combater muitas doenças, o que aumentava a boa reputação da instituição.

Vince negou o convite, visto que não era obrigado a ir. Explicou que não podia deixar a esposa sozinha, estando ela quase no sétimo mês de sua gestação, principalmente porque a nova expedição para Chade teria uma duração mais longa que a primeira, pois seria de doze meses, tempo razoavelmente longo para quem tinha uma família.

Randall entendeu as razões de Vince, então o orientou a confirmar com a sua equipe quem dentre eles teriam disponibilidade de se ausentar do país por um ano, resposta que o biomédico deveria dar no mesmo dia.

Como Vincent não podia ir, Randall fez o convite para Ruby, que aceitou imediatamente, ficando ela responsável pela equipe dele em Chade, já que todos que foram da primeira vez, confirmaram a disponibilidade de retorno com permanência de um ano.

Todos que fariam a nova viagem, receberam com surpresa a notícia de que embarcariam em aproximadamente quatro meses, muito rápido, quando a primeira levou anos para finalmente acontecer. Ainda assim, todos começaram os preparativos para o grande dia.

Vincent realmente lamentou perder essa nova oportunidade, pois sabia dos avanços que a equipe provavelmente faria no outro continente e o quanto aquilo marcaria de forma positiva as suas carreiras. Mas não podia deixar Donna, precisava ficar ao lado dela, principalmente agora, que o momento tão esperado estava perto de chegar.

Fora isso, ainda tinha muito trabalho para fazer junto dos grupos de voluntários, pois ainda tinham três igrejas para pintar e não queria deixá-los na mão.

Enquanto Donna curtia os sete meses de espera, a garota por quem Vince voltou a atenção, chegava ao quarto mês de gestação. Ela era uma voluntária com aproximadamente vinte e dois anos, que mesmo grávida, insistia em ajudar, era ela quem preparava o café pela manhã para os trabalhadores e quem levava as suas marmitas, comida que fazia com a ajuda de outros membros da instituição.

Vincent nunca a tinha visto antes, mas logo os amigos acabaram por contar sobre a vida dela, ao que parecia, se tratava de uma sobrevivente de um passado marcado por tragédias. Ele soube que o pai da jovem estava preso, que sua mãe e irmão foram assassinados, tudo quando ainda era uma adolescente, que ao perder sua família passou a viver com os tios, aparentemente, muito bons para ela.

No entanto, em algum momento a jovem perdeu o rumo, experimentou drogas e se rebelou, ficou os últimos dois anos totalmente perdida na vida, mas recentemente, depois da descoberta da gestação e de muita persistência dos tios, conseguiram recuperá-la e a levaram para a igreja.

A gravidez ascendeu nela o desejo de mudar, de ser uma pessoa melhor, deixando de lado todo o passado que viveu. Queria refazer a sua vida, teria a ajuda dos tios, enquanto o pai do bebê provavelmente não iria querer saber deles, mas para ela não tinha problema, estava disposta a enfrentar os obstáculos que viriam. O desejo de se redimir por seus equívocos, a fez se envolver de forma plena com os projetos da igreja.

Vincent se esforçava para focar apenas em Donna, mantendo os seus olhares voltados para a sua gestação.

Já era noite, quando Donna entrou no quarto e encontrou o marido sentado na cama pensativo, abaixou e lhe deu um beijo, avisando que tomaria um banho para vir se deitar. Ele não respondeu, permaneceu quieto, enquanto apoiava um de seus pés na mochila usada para os seus trabalhos extras.

Vincent viu a esposa entrar no banheiro, ouviu quando ela ligou o chuveiro e esperou sem pressa ela terminar de se lavar, afinal, ele tinha bastante tempo, não precisava fazer tudo às pressas.

Donna saiu de roupão do banheiro, os cabelos estavam soltos e molhados. Viu o marido de costas para ela, terminou de se secar e ficou nua, se aproximando dele. Tentou abraça-lo, mas a barriga saliente não a deixou colar seu corpo no dele, então apenas tocou os seus ombros de leve, acariciando.

— Está tudo bem, amor? — perguntou.

— Sim — respondeu ele friamente.

— Você está estranho, o que houve? — perguntou preocupada.

— Não posso mais continuar, Donna — ele declarou.

— Do que está falando?

Vincent vira para ela, com o olhar sombrio e uma expressão fria. Donna se assusta ao ver que ele usa luvas nas mãos, luvas cirúrgicas azuis. Se não bastasse, segurava firme um bisturi. Instintivamente, ela dá alguns passos para trás.

— Vince, o que é isso? — perguntou sem entender.

Ele se move em direção dela, mas sem querer, arrasta com o pé a alça da sua mochila jogada no chão, fazendo com que rolasse para fora um frasco de vidro, cujo conteúdo atraiu imediatamente a atenção da sua esposa.

Donna se abaixa e pega o pequeno frasco, percebe em meio ao líquido dois pequenos fetos.

— O que é isso? — perguntou encarando-o.

— Eram de Adelle.

Donna se cala, tentando compreender.

— Você a matou?

— Adelle não seria uma boa mãe! — falou em tom chateado.

— E eu, Vince? Vai me matar também? — indagou aparentando não acreditar no que estava acontecendo.

— Mesmo que eu te explicasse, você não entenderia, Donna! — respondeu se aproximando ainda mais dela.

Donna não reage, apenas deixa que ele se aproxime. Como uma das suas mãos segurava o frasco de vidro, ela usou a outra para tocar o rosto dele.

— Sou sua esposa Vince, sua vida, seu amor! Você não pode me machucar!

— Você é minha, Donna! Você me pertence! — falou convicto, acariciando a barriga dela. — E eu posso fazer o que eu quiser, Donna! — disse, fazendo o bisturi penetrar a barriga da esposa.

O frasco com os fetos de Adelle caem no chão, ao mesmo tempo em que Donna grita de dor. Seu grito soou tão alto que ele despertou.

Vincent suava frio, mas ao olhar para o lado, respirou aliviado ao ver a esposa dormindo tranquila. Saiu da cama e foi tomar banho, precisava lavar o corpo e esquecer a peça que seu inconsciente havia lhe pregado.

Donna estava bem, sua filha também, era tudo que importava, ainda assim, depois do banho iria ao porão, precisava pôr os pensamentos em ordem.

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