23- Ameaça

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LUNA

Não sei quantos dias fazem que não saio de casa nem pra ir à padaria da esquina. Olho pra fora da janela e vejo pelo menos duas viaturas paradas ali. Minha mãe me liga de cinco em cinco minutos, perguntando se estou bem ou se aconteceu alguma coisa. Meus irmãos tentam não demonstrar muito, mas sei que estão morrendo de preocupação também. Além do óbvio, acho que eles têm medo que uma crise respiratória me atinja e que seja tão ruim quanto da última vez, que fui parar no hospital.

Noah trabalha apenas três dias da semana e o resto fica comigo. Mesmo querendo a presença dele ao meu lado, não me sinto bem com isso. Ele tem suas obrigações lá e não pode parar sua vida por mim. Até entendo eu não poder sair, mas ele não precisa ficar trancafiado aqui comigo. Hoje era o seu dia de ficar em casa, mas o obriguei a vestir um terno, entrar naquele carro e ir para a empresa.

Me sinto como uma criança, que não sabe se cuidar ainda e necessita dos cuidados de uma babá. Normalmente gosto de atenção, mas toda essa situação tem me irritado ao extremo. Para os outros eu faço a linha "conformada e paciente", mas por dentro quero gritar e sair correndo. Como não tenho absolutamente nada para fazer, tomo um banho e assisto a um filme qualquer que passa na TV.

O interfone toca e atendo.

-Senhorita Luna, as correspondências do senhor Noah já chegaram -informa a porteiro.
-Ah, obrigada Francisco. Já vou descer.

Estou num estado tão crítico, que ir até a recepção e pegar a correspondência se tornou meu único passeio. Desço pelas escadas, para exercitar um pouco o corpo e aproveitar para me mexer. Assim que desço, Francisco vem até mim e entrega os envelopes em minhas mãos.

-Aqui está, senhorita.
-Já disse para me chamar só de Luna -repreendo.
-Perdão, é o hábito -sorri sem graça.

-Tudo bem -balanço a cabeça e sorrio. -Até mais, Seu Francisco.
-Até, minha jovem -ele acena.

Subo novamente pelas escadas e já abro algumas das correspondências no caminho mesmo. Contas normais, fatura do cartão, blá blá blá. Chego ao apartamento e jogo tudo na mesinha de centro. É quando noto que pulei um dos envelopes.

Diferente dos outros, aquele é endereçado a mim. Estranho. Não alterei o endereço de entrega de minhas coisas. Quem pega as correspondências que chegam na minha casa é minha mãe e só então ela me traz.

O envelope pardo está bem lacrado e preciso da ajuda de uma tesoura. Instantaneamente meus olhos ardem quando vejo fotos minhas ali.

Fotos minhas frequentando antigos eventos. Fotos minhas sorrindo, completamente feliz. Porém as imagens estão riscadas. Há um "X" no meu rosto em cada uma delas.

Atrás das fotos há uma mensagem clara: "fique longe dele".

Até uma criança entenderia o que o "X" e a ameaça significam.

Nervosa, pego a tesoura que usei para abrir o envelope e recorto todas as fotos rapidamente, totalmente descontrolada. Escuto o barulho das lâminas do objeto, enquanto as lágrimas caem desenfreadamente.

-Droga! -jogo aquilo no chão e me encolho no sofá, chorando como uma criança pequena.

(...)

Depois de duas horas de completo desespero e agonia, finalmente me acalmo um pouco. Incrível o que uma xícara de chá e um calmante podem fazer. Lavo o rosto, tentando diminuir a vermelhidão e inchaço que o choro causou. Melhora um pouco, mas ainda parece que estou gripada.

Pensando com mais clareza agora, volto à sala e recolho as fotos picotadas do chão. Noah pode chegar a qualquer momento e ele não pode ver isso de jeito nenhum.

A Paixão Acontece - Trilogia SchneiderLeia esta história GRATUITAMENTE!