They Are Lies, Darling (ÚLTIMO CAPÍTULO)

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A primeira vez que ouvi falar sobre Mariam, ela acabara de completar 14 anos. Seu irmão me ligou, desesperado, porque parecia que ela tinha acabado de dar uma surra em uma das garotas da sexta série. Mariam nunca fora uma garota normal, mas seu irmão nunca havia dito ou testemunhado para mim algo que se relacionasse com visões.

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Mariam, 1 ano e seis meses depois

É madrugada. Talvez três horas, quando minha porta destranca. Espio o corredor de celas e um silêncio absoluto invade o lugar. Caminho por ali. Nada faz sentido algum. Meus passos são os únicos ruídos, em coro com os grilos de fora, quando passo pela imensa grade. Busco pela sala de Lucas, depois de minutos andando por aqui. Abro. Vejo a imensa mesa, há um envelope sobre ela; e a poltrona de couro, virada para trás. Não sei se alguém está ali, mas minhas dúvidas somem quando um vento sopra pela janela aberta, e a cadeira roda, vazia. Há uma corda pendurada em um dos ganchos do vidro. Me distraio, em direção a um armário de documentos. Será que eles ainda têm algo de Rafael? Procuro entre as dezenas de papéis. Não acho nada. Busco pelo meu nome. Retiro o documento dali, e o leio.

Mariam Desmount, 17 anos

Alucinações com um alguém que chama de Rafael Lange (detento 666, morto pela cadeira elétrica em 25 de setembro de 1991)
Alega ter visto Alan (detento 665, morto por fuzilamento em 24 de setembro de 1992)
Comportamento estável. Fala sozinha, conversa sozinha

Deficiência nervosa: Alucinações pesadas, de convivência com pessoas que já faleceram; esquizofrenia crônica

Solução psicóloga: Tentar dar a notícia de que seus supostos "amigos" faleceram.

Documentada Por Judy A. A.

Amasso a folha por entre meus dedos. Eu vou matar todos eles.
Vou até a mesa de Lucas e pego um envelope que está sobre ela. É uma carta de suicídio.

A todos que estão lendo isso, quero dizer que está tarde demais. Está tarde demais para reconhecerem qualquer coisa. Ele vêm me perseguindo à meses. E eu sempre soube, que se qualquer coisa acontecesse a mim, vocês iriam me internar aqui, junto com todos eles. Eu a libertei, eu abri sua cela. Eles me forçaram a fazer isso. Todos vocês, todos estão errados. Os doentes são vocês. Demônios existem. Rafael existe. Mariam pode ser esquizofrênica, mas, por todos vocês! Ela está certa. Eles me forçaram. Eu estou morto. Eu sempre estive morto, por dentro. A diferença agora é que meu coração parou de bater. Ou foi forçado a parar.

Vou até a janela, sigo meu olhar pela corda e o vejo, pendurado. Está pálido, a corda enrolada em seu pescoço, a pele que cerca a corda está arroxeada. Desato o nó da janela e vejo o corpo dele cair andares abaixo. Cai de bruços, uma poça de sangue inunda o chão onde sua cabeça, muito provavelmente rachou. Encarei o corpo de Lucas estirado no chão por alguns minutos, pensando em sua carta. Quando retorno à porta, vejo Rafael, Alan, Maethe e Lucas. Estão diante de mim. E eu estou congelada. Rafael olha em uma única direção. Sigo seu olhar, que para em um galão vermelho, de gasolina. Ele se aproxima de mim e passa seus dedos pela minha bochecha. Eu entendo o recado.

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Estou jogando aquele líquido por todo o escritório de Lucas, e começo a espalhar por um corredor até achar a sala de Judy. Eles estão vagando pelos corredores também, me ajudando. Jogo o restante do líquido inflamável na porta de sua sala. Acendo o isqueiro. Ela arregala seus olhos, suas rugas aparecem. Stockler está virado para mim.

"Não a deixe derrubar isso!" Ela grita. Mas é tarde demais. O isqueiro já está no chão, sendo derretido pelas chamas. Eu estou queimando. E tudo está borrado.

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Abro meus olhos e uma escuridão densa me cerca. Rafael está do meu lado. Eu consigo tocá-lo. Eu o beijo. E nada mais existe.


The End, 25/08/2016





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