01 - tomorrow

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Jimin

Segunda-feira. Normalmente as pessoas dizem que odeiam a Segunda-feira, mas se o primeiro dia da semana fosse Sexta então odiariam Sexta. Eu sou obrigado a odiar todos, pois em nenhum me acontece algo de bom.

Encaminhei-me, a passos lentos e preguiçosos, até ao bloco onde iria ter a primeira aula da semana. Nada estava mudado.

A mesma garota de cabelos pretos e caderno amarelo ao peito permanecia encostada à porta do bloco a falar, todos os dias, com um rapaz diferente.

Os quadros de cortiça estavam cheios de trabalhos feitos pelos alunos mais novos, que aproveitavam a oportunidade para subir as notas no final do período.

A funcionária adormecida e com a cabeça caída na secretária.

Todos os alunos que, nos 3 andares daquele bloco, faziam uma barulheira que fazia os meus ouvidos doerem.

E Min Yoongi, que todas as manhãs, ás 7:58 da manhã, entrava pela porta daquele bloco e fazia todo o meu ar desaparecer. Ele não facilitava a minha tarefa de rapaz apaixonado, porque só me dava 2 únicos minutos para o apreciar de manhã.

07:59 era quando Min Yoongi se encostava à parede do primeiro andar e enfiava as mãos nas suas calças. Hoje, elas eram de ganga claras e rasgadas nos joelhos. Trazia umas botas pretas, uma camisa cinzenta à cintura, uma T-shirt branca e um casaco de cabedal. Cada vez mais pessoas se aproximavam, mas sempre a tentar que não parecesse de propósito.

08:00. Esta era a hora em que as miúdas aproveitavam o facto de Yoongi se virar de costas para enfiarem cartas de amor na sua mochila. Com certeza ele nota, mas nunca o vi a ficar chateado ou perturbado com isso.

Quando percebi que toda a minha turma já tinha entrado na sala, encaminhei-me até ao meu lugar, bem no fundo da sala e perto da janela. Ignorei olhares rudes ou comentários desagradáveis, e apoiei a cabeça na palma da mão, fingindo estar a prestar atenção à aula que, depois de 2 longas horas, terminou.

Esperei a sala esvaziar e então saí, com o olhar focado no chão e a agarrar em ambas as alças da minha mochila. Encaminhei-me lentamente até ao meu cacifo, com o intuito de deixar lá os livros de que já não iria precisar, mas parei de andar assim que se ouviu em todo o bloco o som das colunas serem ligadas e a voz do diretor da rádio a falar:

-Hoje, na rádio escolar, temos um trecho de uma música escrita por um admirador secreto de Park Jimin do 2°B! Assinou como Suga.

Todos os olhares se focaram em mim, e eu olhei para o chão, com a testa enrugada e um nó de confusão a formar-se na minha cabeça.



"No mesmo dia, a mesma lua, 24/7 se repete a cada momento.

A minha vida está no meio.

Vinte e poucos anos desempregados têm medo do amanhã.

É engraçado, achamos que qualquer coisa é possível quando somos crianças,

Mas agora vemos como é difícil passar um dia.

Manter o sentimento como "controlar" o ritmo, ou manter o download.

Cada dia é uma repetição de ctrl + c, ctrl + v."



Um silêncio se instalou naquele bloco, ou pelo menos na minha mente, que se focava apenas em todas as palavras lidas pelo homem. Depois calou-se e desligou o microfone, deixando todas as pessoas a lançarem-me olhares estranhos por todo o corredor.

-Alguém se lembrou que ele existe. - foi um dos comentário que ouvi no meio das gargalhadas escondidas. Fechei o meu punho. Quem era o idiota que estava a gozar comigo em plena rádio da escola?

Apressei o passo até à casa de banho, enfiando-me numa das cabines e sentando-me no tampo da sanita. Deixei a mochila espalhada pela chão e encostei os joelhos ao peito, olhando para o teto e tentando perceber porque faziam tanta questão de me fazer passar vergonhas. Era escusado. Falta-me algo que os outros têm, é porque não tenho boas notas, ou porque me acham demasiado feio?

Alguém bateu à porta da cabine onde eu me encontrava, e eu apressei-me a passar os dedos pelos meus olhos, de maneira a limpar as lágrimas que poderiam ali estar. Eu era ridículo, podia admitir. Eu não me sentia idiota pelos olhares, comentários ou risos dos outros. Sentia-me idiota porque todas essas coisas já eram a minha rotina. E eu odeio rotinas.

-Meu, sai daí, preciso mesmo de me aliviar. - reconheci como a voz de Hoseok, um dos mais conhecidos de toda a escola, porém, pelo lado mau. Respirei fundo e abri a porta, encontrando um sorriso idiota no rosto do rapaz. Senti um forte empurrão nos ombros, que me fez ir contra a parede, e logo soou de novo a sua voz. - Deixa de chorar, menina.

Não lhe respondi e endireitei-me, começando a andar em direção à porta. Só queria sair e ignora-lo. Prestes a sair, encontrei Yoongi especado e a olhar para mim. Deu um passo em frente, impedindo-me de sair, e depois olhou, com um ar reprovador, para o moreno atrás de mim.

-Deixa-te de merdas, Hoseok. - murmurou num tom tão indiferente que não consegui perceber o porquê de ele o ter dito. Senti-me um pequeno filhote a ser protegido pela sua mãe. A diferença é que eu queria mais amor, mas ele entrou na casa de banho, nem olhando para mim.

Para além de ridículo, eu sabia que era burro. Como é que Min Yoongi poderia alguma vez ser gay? Na sociedade em geral, ser gay é uma coisa horrível, e no caso dele, todos pareciam querer aproximar-se, e não afastar-se. Talvez pelo seu cheiro a mar, ou pelo sorriso simpático com que fala com as pessoas.

Dei por mim em frente ao meu cacifo de novo, que à minutos atrás não consegui alcançar porque uma passagem ridícula na rádio me atrapalhou.

Finalmente abri-o, encontrando uma pequena nota ali dentro. Farto de jogos, eu agarrei no papel, amassei-o, e enfiei-o no bolso do meu casaco de ganga, entrando para a aula que estaria agora a começar.

-Mais um dia. - Jin suspirou profundamente ao meu lado, assim que se ajeitou na cadeira de madeira, mas eu apenas assenti com a cabeça, não lhe dando nenhuma resposta concreta.

Jin não era tão invisível quanto eu, mas era um dos meus. A diferença é que ele tinha excelentes notas, então quando tínhamos de fazer trabalhos ele tinha sempre parceiro. Já eu, ou os fazia sozinho, ou fazia com alguém que o professor escolhesse à sorte, porém, e essa pessoa não falava comigo até o prazo de entrega terminar. Só porque sou gay? Oh, por favor.

Assim que o professor entrou na sala, Jin começou os seus apontamentos, deixando-me perdido em pensamentos.

O meu telemóvel vibrou, mostrando que acabara de receber uma mensagem da minha mãe, a abri-a discretamente.




× Nova mensagem ×

Mãe:

Estou farta desta merda, Park Jimin! Que merda de carta foi esta que recebi em casa? Que caralho de notas são estas? Ou és um homem ou não és!




Susti a respiração, voltando a guardar o telemóvel no bolso. Sempre que a minha mãe me mandava mensagens, a única diferença entre "estou bêbada" e "estou chateada" eram os erros ortográficos, porque os malditos insultos permaneciam.

Frustrado, enfiei a mão no bolso, procurando o bilhete que havia encontrado no meu cacifo. Fiquei a olhar para ele: uma pequena folha de papel dobrada em 4. Suspirei profundamente, juntando coragem suficiente para ler um texto enorme sobre o facto de eu ser uma merda e que nem devia existir, mas assim que abri o bilhete fui surpreendido por poucas e bonitas palavras.

"Park Jimin, o meu coração é todo teu. Só te vejo a ti, só te conheço a ti, só penso em ti. -Suga."

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