Capítulo 20.1

Começar do início

De fato, ele saiu razoavelmente tarde, ou melhor, tarde da noite, mas tinha um compromisso inadiável antes de seguir para sua casa.

Ao entrar no carro, confirmou que sua mochila estava no banco de trás. Dirigiu até um restaurante familiar, onde jantou, pois estava faminto, mesmo a ansiedade pelo momento aguardado não anulava sua fome.

Quando voltou para o carro, já passava das vinte e uma horas, mais quarenta minutos e Janice estaria em casa. Resolveu que chegaria antes dela, esperar do lado de dentro da residência lhe pareceu a melhor opção, pois ficar dentro de um carro parado ou circulando à toa em área urbana, podia chamar a atenção. Procurou por um estacionamento para deixar o veículo e fez o percurso a pé.

O friozinho da noite colaborava para o uso da blusa de frio grossa e do gorro. De mochilas nas costas, de braços cruzados e com passos largos, chegou logo ao destino. Se encaminhou para o fundo da residência quando viu que nenhum vizinho ou passante lhe dispensavam qualquer atenção. Retirou a chave mestra do bolso e a colocou na fechadura da porta, que em segundos, abriu silenciosa.

Vincent entrou pela área de serviço, passou pela cozinha, depois pela sala e subiu as escadas procurando pelo quarto de Janice. Haviam apenas dois, um mobiliado de forma mais simples, obviamente foi montado para receber hóspedes, enquanto o outro, provavelmente o dela, era uma suíte mais aconchegante e convidativa. Seu closet era bem grande, a quantidade de roupas penduradas lhe proporcionava um excelente esconderijo, decidiu aguardá-la exatamente ali.

Janice chegou bem depois do que Vince imaginava e para sua surpresa, chegou acompanhada. Ele não sabia por quem, pois apenas ela tagarelava no corredor, enquanto passos mais firmes caminhavam ao lado dela.

Apenas quando Janice abriu a porta do quarto e entrou, Vincent viu, pelas frestas da porta de madeira do closet, Giovani entrando atrás dela, que ainda falava sobre o quanto se sentia traída ao vê-lo com a "galinha da advogada".

— Jane, chega por favor e vamos logo com isso, ok? — disse Giovani impaciente.

— Ah, sério, vai ficar bravinho por causa daquela puta? Ela não se importa com você, apenas quer um pai para assumir o filho dela... enquanto eu faço tudo por você! Eu te amo, Gi, não posso viver sem você! — falou Janice suplicante, abraçando o advogado que se mostrava indiferente.

— Não vim aqui para conversarmos, lembra? Vamos fazer logo o que combinamos e você me deixa em paz! — falou começando a se despir.

— Não quero assim, Gi, quero que me ame, quero que faça melhor do que faz com aquela nojenta! — disse passando as mãos no peitoral musculoso dele.

— Janice, se for para ficar falando dela, vamos parar por aqui, ok? — falou segurando as suas mãos.

— Tá bom, Gi, tá bom — disse pondo as mãos no rosto do advogado, beijando-o em seguida.

Giovani correspondeu ao beijo com raiva e ao mesmo tempo com vontade. Embora não gostasse de Janice, não era imune aos desejos sexuais que ela ou outra mulher bonita inspiravam nele. Suas mãos desciam rápidas pelo corpo dela, tirou sua blusa e o sutiã, enquanto ela afrouxava a própria calça, deixando que caísse aos seus pés.

Vincent viu Giovani jogar Janice na cama, enquanto a amava com pressa e ao mesmo tempo com desespero.

Janice, por sua vez, gritava pedindo por mais.

Mesmo quando o amante começou a lhe dirigir palavrões, como resultado da raiva e do tesão que ela lhe despertava, Janice ficou ainda mais excitada, se oferecendo mais e mais ao amante.

Vincent esperava pacientemente.

Giovani se vestiu rápido, aparentando estar de mau humor, enquanto Janice se remexia e se esticava nua na cama, com um sorriso satisfeito.

— Foi a última vez Jane, agora vê se some da minha vida! — falou de forma grosseira.

— Não entendo, como você não vê que nascemos um para o outro? — indagou se sentando na cama.

— Você é louca, só pode! Estou saindo, desça para trancar a porta — disse saindo do quarto.

Janice se deitou na cama, apesar da grosseria do amante, ainda se sentia feliz.

Vincent viu seu corpo pelas frestas, ela deitada se notava que não havia ainda uma saliência advinda de uma gestação, o que significava que Janice estava com aproximadamente três ou quatro meses, mas que sendo ela mais encorpada, era normal que ainda não aparecesse sua gravidez. Ele aguardou alguns minutos, até ter certeza que Giovani se foi e das futuras ações dela, embora estivesse decidido a não permitir que ela descesse para fechar a porta principal.

Somente quando Janice se levantou e apanhou um roupão quente para se proteger do frio que sentia, se pondo de costas para o closet, que Vincent abriu a sua porta lentamente e saiu devagar, ficando atrás dela, mas não foi tão silencioso a ponto de sua presença passar despercebida pela mulher, que virou rapidamente em sua direção, ainda nua.

Antes que Janice pudesse gritar, Vincent se jogou por cima dela, colocando uma das mãos em sua boca e a outra, na qual segurava firme o bisturi, próximo da sua garganta.

Ficaram ali por segundos, tempo insuficiente para que Janice entendesse o que estava acontecendo, embora fosse forte, aquele homem era mais, e o peso dele sobre ela, assim como aquela lâmina quase colada em seu pescoço, a impediam de tentar qualquer movimento, mesmo falar era impossível, pois a mão grande e pesada daquele homem fazia muita pressão na sua boca e nariz, fazendo que lhe faltasse ar, ao mesmo tempo que seus olhos esbugalhavam de terror frente àquelas mãos que trajavam luvas cirúrgicas azuis.

— Oi, Janice, prazer em te conhecer! Confesso que fiquei surpreso por encontrar seu amiguinho aqui, achava mesmo que ele não queria saber de você porque é louca! — Sorriu irônico. — Sabe, Janice, Nietzsche já dizia que há sempre alguma loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura... o que vi aqui essa noite me convenceu disso, vocês realmente nasceram um para o outro — disse ele forçando o bisturi em seu ventre com força.

Os olhos de Janice se desesperaram ainda mais perante a dor aguda que sentia, mas antes que ela pudesse perder os sentidos, Vincent sentiu o órgão oco que havia penetrado, o útero de Janice parecia vazio, forçou ainda mais a lâmina, o que apenas confirmou as suas suspeitas. Não havia no útero dela um saco amniótico, muito menos um feto. Janice não estava grávida, talvez nunca tivesse estado, ficou claro que ela havia inventado aquela gestação para tentar manter o ex-namorado próximo a ela.

Vincent entendeu isso rápido. Suas dúvidas se transformaram em fúria. Todo o trabalho que teve para chegar ali, movido por uma mentira desvairada de uma mulher que desenvolveu um amor doentio por um idiota.

Vincent se sentiu enganado, traído, enfurecido e ao ver Janice recobrar os sentidos, sem perder mais tempo e com os olhos que irradiavam puro ódio por aquela mulher, usou o bisturi para lhe desferir golpes seguidos em várias partes da sua barriga, ele agia como um animal que estraçalhava sua presa.

Os golpes foram tantos e de tamanha profundidade que Janice expelia sangue pela boca e nariz. Levou alguns minutos para que Vincent voltasse a sua razão e agisse de maneira a não deixar vestígios.

O Ceifador de Anjos: A Coleção de FetosLeia esta história GRATUITAMENTE!