Capítulo 15: Outros Universos

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"Entrarei em contato em breve, maninho, até mais!"

Érico passou quase um minuto olhando para o ID apagado após escutar a últimas palavras da voz que se dizia ser seu irmão, sem nada dizer, nada pensar, nada respirar.

Em poucos goles, Camilo bebeu a água com açúcar servida por Jeane, tentando acalmar-se; Érico sentiu que precisava mais daquela água do que o veterano após os tremores e rugidos de Sândalo e a ligação misteriosa que recebeu.

Pelo pouco que Érico conseguiu entender da relação entre Camilo e Jeane, o tal Torn havia sido o mestre deles nas técnicas de construção de Holonaves. Ele só não sabia se os dois eram amigos, amantes, irmãos por criação como Exel e Miro eram seus, ou apenas pupilos do mesmo mestre? De qualquer forma, aquilo não era tão importante para Érico, que preferia pensar em formas de conseguir de uma vez uma Bússola Universal e de voltar a falar com Levi Alamar. Ao pensar no nome do rapaz, ele chegou à conclusão de que havia acabado de descobrir seu próprio sobrenome: Érico Alamar!

Jeane conduziu Camilo para dentro, a fim de acomodá-lo em sua residência.

— Aí, humano pensativo, entre aqui de uma vez, o almoço está pronto – convidou ela.

Érico entrou e viu fotografias holográficas flutuando em molduras da parede, conectadas diretamente à Siret, com o número de opiniões e comentários abaixo delas. Vídeos de momentos da vida de Jeane também rodavam em silêncio, num looping infinito, lembrando-o das fotos tiradas com seus irmãos Exel e Miro. Algumas fotos mostravam Jeane e Camilo juntos, como uma família.

— Vocês dois viveram bastante tempo juntos? Por um acaso, já foram casados? – perguntou Érico, incapaz de conter sua curiosidade.

— Não, não, nada disso. Fomos apenas namoradinhos – riu Jeane, preparando o almoço que havia sido interrompido pela chegada deles.

O cheiro da comida era o mesmo que permeava o ar da vila de Planalto Castelar. Por anos ele havia sido alimentado por aquele tipo de comida típica dos Nobas, e não pensou que sentiria aquele cheiro tão rápido. Eles sentaram-se à mesa, e Jeane serviu os pratos às visitas, mas fez uma careta ao ver Alopex avançando sobre as carnes sem usar talheres.

— E então, me conte tudo do que está rolando entre vocês. Como tu conseguiu tirar o Camilo daquele buraco em que ele se enfiou?

— Jeane, por favor... – Camilo ainda estava cabisbaixo, com os olhos caídos e a postura esgotada, os cotovelos debruçados à mesa.

— Tu ficou anos e anos em Téssera, isolado de tudo. Eu tentei tirar você de lá muitas e muitas vezes, mas nada – Jeane virou-se para Érico. — Os traumas da guerra transformaram este meu amigo em um poço de infelicidade. Eu não o conheci antes, mas ele me contou histórias da infância, cheias de alegria, até que veio a guerra. Aí, foram só desgraças.

— Sempre inconveniente – o veterano meneou a cabeça.

— Tudo bem, Camilo – revidou Érico, com um sorriso. — Eu usei uma técnica de persuasão das mais antigas para tirar ele de lá: o emocional humano. Você não entenderia.

— Por que eu não entenderia? O que tu quer dizer, humano?

— Eu não quis ofender... é que sentimentos Nobianos são diferentes dos de humanos – remendou Érico. — Mas voltando, o Camilo é essencial na nossa jornada. Afinal, vamos nos tornar Caçadores de Relíquias – disse o jovem, em tom vitorioso.

— Igual estas tralhas que passam aqui por Sândalo, é? O que tu tem pra querer se tornar um deles, Camilo? – Jeane socou a mesa com o braço de exoesqueleto mecânico.

Absolutos I - A Sinfonia da DestruiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora