10 - Derrota

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Assim que Amber voltou na noite anterior, colocou minha capa no devido lugar e sentou-se em minha cama. Ela me contou tudo pela primeira vez num ritmo alvoroçado, devido ao perigo que se expôs. Sorri sozinha ouvindo tudo, imaginando com clareza cada detalhe que Am descreveu do encontrou indesejado, pude até ver suas expressões.

- Ele não disse mais nada mesmo? – pergunto pela milésima vez e recebo somente um olhar impaciente em resposta – Só quero ter certeza!

Dou de ombros e me acomodo sentada.

- Já lhe disse tudo que ele falou Sam. E ainda acho que seja armação desse servidor.

Finjo não ter ouvido o último comentário.

- Acho melhor eu ir hoje até a clareira para evitar qualquer suspeita, agora que você está melhor – ela se levanta e começa a arrumar suas proteções.

- E como estou bem melhor, vou sair dessa cama e procurar algumas respostas.

Retiro as cobertas e coloco os pés para fora da cama. A pontada ainda está lá, mas consideravelmente mais fraca. Desaparecendo aos poucos.

- Samira você prometeu que iria se curar totalmente – coloca o elmo em sua cabeça.

- Só quero dar uma caminhada. Praticamente nem sinto mais as pernas.

- Andar pelo reino? Você ainda não está muito bem, senão teria ido ontem.

- Está tudo muito estranho, quero apenas ver como andam as coisas. Tem algo diferente no ar.

- Nunca consegui fazer com que você me ouvisse. Acho que já sabe o que está fazendo.

Ela pôs a espada na cintura e saiu de casa. Não parecia estar brava, somente conformada.

Me servi do chá amargo antes de sair também. Ao contrário de minha irmã preferi deixar as proteções de lado, juntamente com a espada. Não queria que ninguém me visse saindo, então usei a janela de meu quarto. Contornando as arvores perto de outras casas, o suficiente para vê-los e não poder ser vista. Todos os guardiões estavam submersos em suas rotinas e afazeres diários, como sempre, com todos os movimentos gravados na memória. Eu caminho devagar um pouco mais perto de arbustos baixos e acompanho guardiões cultivando plantas e sementes. Avisto Isaac ao longe compenetrado, ele parece não notar ninguém a sua volta. Me dou conta de que não conheço mais nenhum daqueles seres, não sei se são uma família ou se são várias, não entendo nada sobre o que estão fazendo nem o que é tudo aquilo. Uma guardiã mais velha, que usava um lenço para prender o cabelo, se aproxima de Isaac. Os dois trocam algumas palavras e ela grita por alguém.

- Krista! Venha, Isaac tem que acompanhá-la – ela acena para que a outra guardiã se aproxime.

Então essa era a guardiã escolhida para Isaac! Krista se aproximou tímida, os cabelos pretos completamente enrolados estavam meio presos, segurava uma cesta sob o braço e se pôs ao lado de Isaac mal podendo esconder sua satisfação num sorriso largo. Ele pega a cesta das mãos dela, tomando o peso para si, e eles começam a caminhar lado a lado. A guardiã admirava cada passo dado de seu escolhido e poderia ter tido muita sorte nesta união, se ele a notasse da mesma forma.

Os observo até sumirem de vista, para então continuar minha caminhada vagarosa. Poderia me perder por aqueles caminhos, já que como guardiã de batalha nunca íamos verificar o trabalho dos guardiões "inferiores", segundo os outros nós tínhamos coisas mais importantes para nos preocupar. Pela primeira vez estou vendo de verdade os guardiões da vida a minha volta. Com raridade presenciei um sorriso como o de Krista, mas nem mesmo as crianças sorriam. Levo algumas horas para concluir a caminhada e apenas alguns segundos para constatar que não havia vida ali. Como se cada um de nós fossemos casulos vazios.

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