Congelado

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Nasci em uma epocha maravilhosa! Um mundo regido por vapor e engrenagens, onde tudo funcionava na mais perfeita ordem. O vapor, praticamente ethereo, era o espírito que movia a nossa civilização. As engrenagens, encaixando-se e girando em harmonia, representavam o certo, o estabelecido, e nos davam a tranquilidade de que tudo continuaria funcionando incessantemente até fim dos tempos.

Essa tecnologia nos permitia cobrir enormes distâncias em pouquíssimo tempo. Levava-se menos de três horas para sair de Therezópolis até o centro do Rio de Janeiro, a bordo de uma sensacional locomotiva Baldwin.

Utilizávamos os engenho-contadores para realizar operações complexas, quase que instantaneamente. Já vi um desses estimar o faturamento, descontar os impostos, abater as despesas e calcular o lucro de grandes indústrias, e depois perfurar o resultado em apenas quinze minutos.

Podíamos voar como os pássaros, pilotando asas a vapor ou balões dirigíveis. Certa vez um alemão maluco, talvez inspirado pelo livro de Júlio Verne, resolveu dar a volta ao mundo guiando um dirigível. A viagem durou vinte dias. Tempo recorde!

Sem contar as centenas de outros equipamentos que nos ajudavam em todos os campos de produção. Da colheita do algodão na agricultura até a tecelagem, da mineração à siderurgia, da fabricação de papel à imprensa, et cetera.

Por falar em imprensa, eu trabalhava em um jornal. Era photógrapho. Apaixonei-me pela photographia desde que vi a primeira câmera, recém-lançada, em uma feira internacional. Eu tinha quatorze anos de idade. Ganhei uma de meu avô quando fiz dezesseis. Eram caríssimas na epocha. Depois fiquei sabendo que ele havia vendido seu vapor-móvel para conseguir comprá-la.

Sempre fui fascinado pelo modo como a câmera congelava o tempo. Minhas primeiras photographias eram curiosas. Eu jogava toda sorte de objectos para o alto e tentava paralisar a scena, como se as coisas flutuassem. Minha irmã era minha cobaia preferida, mas divertia-se muito, enquanto pulava na cama e eu tentava capturar o momento certo, para que parecesse voar. Ou quando jogávamos suas bonecas na piscina e tentávamos fazer como que andassem sobre a água.

Essas imagens foram admiradas por milhares de pessoas, 45 anos depois, em uma exposição no Museu da Photographia Germano Schüür. E graças a este reconhecimento, fui convidado a realizar um freelance, coisa que não fazia há anos, mas que abri uma exceção. Mais pelo desafio do que pelo pagamento. Aparentemente o Exército Brazileiro tinha interesse nas minhas técnicas de "congelar o tempo".

Levaram-me de asa a vapor para alguma Base Aérea do interior de Minas Geraes. Descobri isto somente após notar o característico sotaque na conversa dos soldados que me receberam na pista de pouso. Caminhamos por alguns corredores, descemos vários níveis de escada e viramos um labirinto de esquinas, de maneira que eu jamais saberia sair dali sozinho.

Vestiram-me com uma roupa pesada, luvas e botas emborrachadas, e um visor de vidro. Me levaram até uma sala bem iluminada por seis lampiões pendurados no teto, e com uma mesa de metal polido ocupando o centro. Então saíram.

Havia um enorme relógio em uma das paredes. A sala estava tão silenciosa que me permitia ouvir até os tiques do ponteiro pulando os segundos, mesmo debaixo de todo aquele equipamento e minha respiração ofegante. Apesar do ambiente climatizado por gelo-resfriadores, o suor escorria pela minha espinha como pequenos insetos rastejando sobre a pele.

As luvas eram tão grossas que dificultavam a mobilidade dos dedos. Operar a câmera naquela situação seria o menor dos problemas. Estava mais preocupado em conseguir secar o suor da testa, que já acumulava nas sobrancelhas e pingava no vidro do capacete quando eu olhava para baixo.

Encarar cada uma das paredes me deixava apreensivo. Não adiantava olhar para o relógio avançando os minutos, se eu não fazia ideia a que horas sairia dali. À minha esquerda um painel exhibia diversos instrumentos cirúrgicos, como bisturis, tesouras, pinças, serrotes e afastadores de costela. À direita, a minha figura sinistra era refletida em um espelho gigante que, pela minha experiência em acompanhar interrogatórios nas delegacias, podia imaginar dezenas de militares a me observar.

E finalmente, a última parede sustentava uma porta dupla, daquelas que se abrem em ambas as direções. Eu poderia jurar que a qualquer momento entraria algum cirurgião psicopata com uma vapor-serra na mão e esquartejar-me-ia ali mesmo.

Algum tempo depois trouxeram uma criatura em uma maca e a colocaram na mesa. Parecia um pequeno símio pelado, com o corpo avermelhado, olhos grandes e umas protuberâncias no craneo. Imediatamente um dos médicos, que acompanhava a criatura, fez sinal para que eu começasse a registrar tudo com a câmera. Foram duas horas de horror. Eu já estava acostumado com os casos policiais, matérias de assassinatos e acidentes, mas aquilo deixou-me perturbado quando eu comprehendi que estava diante de um ser de outro planeta.

Claro que percebi, desde o momento em que o corpo entrou pela porta, de que aquilo não era deste mundo. O que me aterrorizou foi a carga existencial que desabou sobre mim. Assimilar que não estávamos sozinhos no Universo, que os Deoses pudessem mesmo ser astronautas e que talvez nós nem estivéssemos mais no topo da cadeia alimentar.

Após dissecarem o ser e colocarem a maioria de seus órgãos em potes de vidro, levaram-me para registrar algo que mudaria a história. Eram os destroços do veículo que a criatura utilizava quando se acidentou. Registrei a avaria na fuselagem, o assento do piloto e um quadro que se iluminava sem nenhuma fonte de fogo aparente, vela ou fagulha. A tela tinha a superfície lisa e emitia um cintilar muito rápido exhibindo imagens desordenadas, como quem folheia um baralho.

Passei as últimas cinco horas registrando momentos aleatórios do quadro, quando finalmente me conduziram até uma sala escura adaptada, onde pude revelar as photographias. Eu fui um dos primeiros a ver aquelas maravilhas. Eram planos de engenharia escritos em um estranho alphabeto, para a construção de aparelhos muito avançados que gerariam e usariam outro tipo de força que não o nosso poderoso vapor. Os scientistas que estavam comigo chamaram aquilo de Electricidade, e deram muitos outros nomes para as descobertas que fomos revelando. Catalogaram tudo em uma engenho-anotadora.

Eu não entendi muito bem para quê serviria aquilo, mas voltei para casa lembrando da phrase que ouvi de um deles: "Despeça-se deste mundo de vapor e engrenagens"...

Não estávamos preparados para as mudanças. Tudo aconteceu tão rápido e de forma completamente inesperada, que praticamente ninguém conseguiu adaptar-se. Agricultores já não colhiam, tecelões já não tramavam, mineradores não escavavam, siderúrgicos não fundiam, maquinistas não pilotavam... Todos foram pegos de surpresa.

Não havia mais os doutos ou especialistas. Qualquer um imprimia, qualquer um calculava, qualquer um construía, e qualquer um photographava ou, como escreve essa geração atual, "fotografava".

Hoje sou eu que estou congelado no tempo. Em meio a todo o progresso, quando me dei conta, meu mundo ethereo e harmonioso tornou-se caos e eu não tive a oportunidade de me despedir. É estranho viver em um mundo regido por computador e tele-imagens.  

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