Capítulo 14: Profundezas

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Conforme se aproximaram, a fortaleza em forma de torre foi ficando espantosamente maior, pegando o espaço equivalente a uma grande cidade em expansão; ela desaparecia nos céus, tomada em seu topo por uma estrutura gigantesca semelhante a um portal circular. Só quando se aproximou muito, Érico conseguiu notar que, sobre as gigantescas estruturas da construção, havia sido erguida uma nova cidade amontoada em pequenas casas e construções.

— O nome da fortaleza é Portão dos Portões. As lendas dizem que Avankhar trouxe essa fortaleza de outro mundo. Com seu poder de abrir portais. No topo dela, você consegue ver o portal. Era por ele que eram trazidas hordas de outros mundos. Para ajudá-lo na guerra – Camilo explicou, como um guia turístico. — Esse lugar foi o palco da batalha final contra o Absoluto. Eu não estava aqui quando ele caiu. Uma pena. Queria eu ter dado o último golpe contra ele.

Érico se conteve para não reagir às palavras. Não sabia como, mas de alguma forma, ele sentia como se já estivesse estado naquele mundo. Como se, em uma outra época, tivesse andado por aqueles corredores imensos da fortaleza titânica. Aquilo o deixava com o sangue fervendo. Era como se ser um Absoluto estivesse em seu sangue, em sua memória e em seu Destino. Só o último poderia ser apagado, e ele iria até o fim dos mundos para conseguir isso.

— Depois da guerra e da queda, Avankhar fugiu para a lua de Zortzi, Argi. Foi lá que ele abriu seu portal. E tragou todo seu povo com ele. Ninguém sabe para onde. Quase todos os Tharinos foram extintos naquele dia – Camilo apontou para a lua de Argi orbitando os céus, ou o que havia sobrado dela. Não era muito grande, e só havia sobrado um pequeno pedaço disforme do que havia sido, um grande arco rodeado de anéis rochosos.

Toda aquela paisagem pareceu tão surreal quanto familiar para Érico. Ele desejou que aquela sensação desaparecesse e sentiu novos calafrios, de intensidades diferentes.

— Bom. De qualquer forma não vamos ficar muito por aqui. O que nos interessa é aquela cidade. Além da muralha oeste de Balthasar. O nome dela é Sândalo. Ela recebeu o apelido de Cidade das Sucatas. Grande parte dos lixos da guerra foram armazenados em Sândalo. Isso fez dela a maior cidade em Zortzi. Depois de Balthasar, é claro. Muito lixo acumulado.

Camilo virou a nave na direção de Sândalo, e Érico e Alopex observaram a aproximação de uma montanha maior em comprimento do que em altura. Sândalo era uma cidade subterrânea, ou intra-montanhosa, segundo as informações do ID de Érico. Uma muralha derrubada enfeitava a entrada da cidade, por onde um trânsito carregado de Metanaves – naves construídas com metais, antes da era Holográfica de Majoris – tentava fazer a travessia.

— Sândalo não cheira bem – grunhiu Alopex. — Cheira a podridão bípede.

— Também, pudera. Aqui é a travessia por onde todos os Caçadores de Relíquias passam. Em busca de equipamentos – Camilo desacelerou conforme se aproximou do trânsito e tentou uma vaga dentre as outras Metanaves.

— Hey, e o que podridão bípede tem a ver com os Caçadores? – perguntou Érico, cruzando os braços.

— Você acha que Caçadores de Relíquias são santos? Esqueça seu manual, garoto. A vida real é bem diferente. Eles são em sua maioria podres. Jogadores. Assassinos. Mercenários. Ladrões. Toda a pior espécie do Universo - explicou Camilo. — É bom que você conheça a realidade das coisas. Para se decepcionar menos.

— Ah, eu não acredito em você. Eles são heróis! Isso me parece inveja da sua parte – disse Érico, ultrajado.

— Bom. Uma hora vai descobrir – o veterano deu de ombros.

— Homem caveira sabe alguma coisa sobre cidade podre? – questionou Alopex.

— Sândalo é um dos maiores mercadões negros que há. Ela é referência em todo Universo. Aqui, sucata é transformada em ouro pelos metânicos e Hologistas.

Absolutos I - A Sinfonia da DestruiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora