um, dois, três

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Primeiro,

Eu devo ser muito corajosa, ou estar muito desesperada. São estas as únicas razões possíveis para que eu te escreva. Mas acredito, honestamente, que já estamos nesse vai e vem há tanto tempo, que essas trivialidades do tipo "você não devia me escrever" ou "estamos melhor, você lá, e eu cá" já não tem efeito prático nenhum, já que perderemos a mesma quantidade de horas de sono se nos falarmos, e se não nos falarmos. Então nos falamos.

E eu preciso da sua capacidade sobre-humana de me compreender. Afinal, você morou dentro da minha cabeça por tanto tempo, que já sabe muito bem como tudo funciona por lá. Já está em dia com o meu medo e a minha insanidade, e sabe exatamente onde o meu melhor juízo falha. Aí é que está. O meu juízo tem falhado miseravelmente esses dias, e eu tenho certeza de que a culpa é sua, que não está por perto para me tornar naquela pessoa que eu era quando você frequentava a minha vida.

Claro que a culpa é sua. Essa montanha-russa começou logo depois que você decidiu que era uma boa ideia me deixar. A princípio, até eu concordei. Sempre quis ser deixada. Sempre quis afundar em mágoas e lágrimas até que não tivesse espaço para mais nada, e ficar tão perto do chão que eu não teria escolha que não levantar. Só que isso não aconteceu, e lá fui eu emendando sentimentos imbecis por terceiros que não prenderam a minha atenção por cinco segundos.

Terceiros que não prenderam a minha atenção até agora.

Terceiros não. Terceiro.

Porque é a primeira vez, desde – bem, você, que alguém tem poder de permanência nessa cabecinha. E é aqui que a nossa história começa.

Todas as pessoas são irrelevantes, até que você dê um jeito de elas não o serem. Você não precisa receber todos os sorrisos que lhe são enviados como convites, e você escolhe aqueles que realmente são dignos de uma segunda olhada. Mas nesse caso, eu dei. Uma segunda, e uma terceira olhada no sorriso de Terceiro.

É um bom sorriso. É daqueles que transformam o rosto, e uma pessoa-comum vira uma pessoa-espetacular em questão de segundos. E eu deixei essa pessoa espetacular quebrar o silêncio com que eu estava tão acostumada, e de que tanto gostava. E em pouquíssimo tempo eu aprendi a gostar da voz de Terceiro, muito mais do que eu já gostei do silêncio. E em mais tempo, eu gostava mais de sua voz do que da minha música preferida.

A minha dúvida é: o que a gente faz quando o que achou que ia ser um romance épico termina sendo... nada?

A culpa é sua. Se você ainda estivesse aqui, nada disso estaria acontecendo. Eu não teria que me preocupar em fugir ou em me esconder, porque eu não teria do que fugir. Não dessa forma. Eu teria você, e o nosso plano inicial de fuga. Você lembra dele?

Você ia vir logo depois de mim. E viveríamos aqui por algum tempo desse deserto particular, até que pudéssemos nos mandar para a nossa cidade. E eu digo isso com dor no coração: a cidade era minha, até você vir e se tornar dono de tudo o que é meu.

A pior parte? Eu sinto falta da nossa amizade. Ninguém me entende como você. Ninguém.

Aguardo a sua resposta.

Com amor,

Segunda.

Eu, NósLeia esta história GRATUITAMENTE!