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Fazia vinte anos que os irmãos Vasconcelos abriram a cafeteria Vila do Conde em Querência. Quando Brenda e Olívio encontraram o antigo duplex, uma ampla estrutura construída rusticamente em pedra próxima à praia e ao centro da cidade, já puderam enxergar nele o início de um sonho. A partir dali, bastaram alguns meses derrubando paredes, modificando entradas e restaurando azulejos para que Olívio, a esposa e a filha se instalassem no segundo andar e a cafeteria dos irmãos fosse inaugurada no térreo do edifício.

Anya só podia imaginar o quanto devia ter sido difícil para Brenda e sua família manterem a cafeteria quando Olívio e a esposa faleceram, deixando apenas a filhinha Olívia.

Muitos foram os comentários surpresos e elogiosos sobre a força da irmã Vasconcelos, que focou ainda mais suas energias no negócio familiar e assumiu com afinco a responsabilidade de manter viva a memória de seu amado irmão.

Talvez fosse por isso que a Vila do Conde dera tão certo. Era mais que uma empresa, tanto para a dona e para quem trabalhava ali quanto para quem a frequentava. Isso porque havia amor e dedicação, o que tornava o negócio uma extensão do lar de Brenda, de suas raízes e de sua paixão: o ato de cozinhar.

E fazia quase dez anos que Anya compartilhava desse mesmo lar.

Não importava se sentada em seu minúsculo escritório, nos fundos da cafeteria e com vista para uma pracinha acolhedora, ou se circulando entre a cozinha e os clientes, ela realmente se sentia em casa.

Além do mais, o fato de a família Albuquerque e a família Vasconcelos serem amigas há anos com certeza acrescentava uma pitada de infância na mistura de sentimentos que Anya nutria pela cafeteria.

Todas as tardes, depois de uma visita pela fábrica ou lojas Donato & Albuquerque, a avó, os primos, o irmão e ela se acomodavam a uma mesa da cafeteria. E enquanto Aida relatava o seu dia para que os netos se familiarizassem com as rotinas que teriam de enfrentar na empresa quando chegasse a hora, Anya comia o seu bolo de morango e observava Brenda e os funcionários atendendo.

E foi simples assim que ela soube o que queria para si.

A verdade era que amava sua família e tinha um enorme orgulho do legado que a avó queria deixar para os netos, mas foi a Vila do Conde que a fascinou. Desde então, tinha a certeza de que queria fazer parte do negócio dos Vasconcelos.

Contudo, nunca imaginou que viria também a fazer parte da família de Brenda, nem que seria seus olhos na cafeteria.

Sentia-se feliz com o que fazia, tanto lidando com o atendimento quanto com o cardápio ou com os eventos. Inclusive o diploma em Administração que conquistou tinha por objetivo aprimorar seus conhecimentos na gestão do negócio.

Não, não havia nenhuma chance de que largasse tudo aquilo, mesmo que fosse pela empresa de sua própria família.

Ou, pelo menos, era isso o que Anya tentava se recordar naquela tarde...

Eu amo o meu trabalho, repetiu pela enésima vez, como se fosse um mantra. Eu. Amo. O. Meu. Trabalho.

Mas era difícil recordar esse fato para se impedir de cometer uma besteira. E o motivo era bem simples: ela se encontrava rodeada de criaturinhas horríveis e mal-educadas cujo único propósito da tarde consistia em enlouquecê-la.

Monstrinhos horríveis e mal-educados, corrigiu-se enquanto olhava ao redor. Era isso o que eles eram e ela só podia se sentir agradecida por nunca ter tido um contato próximo com tais seres...

Pelo menos até ter conhecido aquela aniversariante destruidora de escritórios.

Anya cerrou os dentes em um sorriso simpático e profissional especialmente treinado para clientes e cunhadas quando a mãe da tal aniversariante destruidora de escritórios lhe pediu desculpas.

[REPOSTAGEM] Amores, Amores, Compromissos à ParteLeia esta história GRATUITAMENTE!