VI

424 56 7
                                                  

Depois de seis horas, os dois finalmente estavam em frente à casa que tinha sido palco dos pesadelos de Miranda. A frente era mesma, o jardim que tinha ali era o único que havia mudado, as flores haviam morrido, deixando tudo sem cor. Passava das duas horas da tarde, a rua estava vazia como sempre, era uma região afastada e nesse horário as pessoas estavam trabalhando ou na escola.

Mesmo assim, a garota prendeu o cabelo, colocou a boina e óculos escuros, Houston fazendo o mesmo. Os dois saíram, ela na frente, abriu o portão de ferro que rangeu com o movimento, depois bateu na porta, seu coração em ritmo acelerado. Alguns minutos depois, a fresta foi aberta levando-a a encarar o homem que ela tanto odiava, eles estavam finalmente frente a frente.

— Olá, papai.

O homem ficou surpreso, a observando, sem nada dizer, abriu mais a porta, permitindo sua entrada.

Miranda analisou o local, tudo estava do mesmo jeito de quando morava ali, fazendo seu corpo se arrepiar, como se sentisse novamente o medo de anos atrás. Mas ela não deixou ele o dominar, tirou o sobretudo, a boina e o óculos, deixando seu cabelo loiro cair em cascata em suas costas. Olhou para o seu pai que já não tinha a mesma aparência de antes, seu cabelo estava ralo e um pouco grisalho e ele estava mais gordo, mas os olhos castanhos ainda estavam ali, assim como as malditas covinhas.

Ele sentou-se em uma cadeira e parou para analisar a filha, ela estava crescida e bem diferente da última vez que a vira, ficava a imaginar se algum dia ela apareceria.

— Então, Miranda, veio até aqui apenas para me ver? - ele finalmente disse, a sua voz dando um pequeno start nela.

— Estava passando pela redondeza e resolvi olhar o ambiente, aqui me traz ótimas lembranças. - disse ela irônica - Olhe Houston, foi aqui nessa casa maravilhosa que eu cresci.

Apenas neste momento que seu pai viu o rapaz, levantou as sobrancelhas para ele, analisando-o vagarosamente.

— Parece ter sido uma infância muito agradável. - disse Houston no mesmo tom que ela.

— Foi maravilhosa, não foi papai? Nossas tardes eram tão familiares, passávamos ela ouvindo Nirvana, você se lembra? - ela disse indo até o som que tinha ali, procurou o CD e o colocou em um volume baixo. - O que acha de relembrarmos os velhos tempos? - disse com uma voz ameaçadora.

— Eu não quero ouvir nada Miranda, diga o que quer e vá embora. É dinheiro que precisa? Eu consigo para você - o mais velho falou ameaçando-se levantar, amedrontado.

A garota estendeu a mão para ele em negativa, fazendo um sinal para que permanecesse onde estava. Ignorou o falatório do pai e começou  balançar o corpo no ritmo da música.

With the lights out, it's less dangerous. Here we are now; entertain us...

— Você não quer dançar, papai? Você amava dançar.

— Pare com essa palhaçada, Miranda. - o velho alternava seus olhares entre a filha e o rapaz a sua frente, que continha um sorriso debochado no rosto.

— Ele não quer me divertir, Houston. - falou Miranda para o seu parceiro, fazendo manha - O que faremos com ele?

Houston foi até o homem que não entendia o que eles queriam com toda aquela abordagem. Em um movimento rápido, tirou a corda que tinha no bolso do sobretudo e amarrou os braços do mais velho na cadeira.

— O que você está fazendo? Me solte. - ele se debatia.

— Eu odeio a droga dessa música. - ela gritou - Toda vez que as suas mãos nojentas me tocaram, toda vez que você me abusou, a droga dessa música estava tocando repetidamente. E eu passei todo esse tempo com ela latejando em minha cabeça, eu conheço cada batida, instrumento e tom cantarolado. O pessoal do Nirvana não merecia que a música deles fossem a trilha sonora da sua monstruosidade, papai.

A Última Música Onde as histórias ganham vida. Descobre agora