Capítulo 5.1

1.8K 232 89

Se passaram mais de duas horas para que concluíssem aquela conversa prazerosa e para que Jaime entregasse para Vincent as informações que ele precisava, além do material que levaria ao hospital.

Vincent foi direto para o trabalho, havia muito para discutir com a equipe sobre as melhorias que poderiam fazer no composto X-16, para isso, todos já o aguardavam no laboratório.

Havia se passado duas semanas, os dias corriam para Vincent sem qualquer novidade. No trabalho, estavam fazendo novos testes, cujos resultados demorariam mais tempo para saírem. Via Donna quase todos os dias, e ela só agora se sentia melhor depois da entrevista frustrante que tinha feito na Universidade Americana de Los Angeles.

Ela contou para Vincent que o diretor da universidade, quem realizou sua entrevista, não lhe deu nem sequer a oportunidade para a professora apresentar uma aula-teste, procedimento padrão nas instituições de ensino, pois achou-a muito jovem e inexperiente para a função. Sem ser grosseiro, deu a entender que ela não estava preparada para lecionar para adultos, que poderia ter problemas com eles, pois era demasiadamente jovem, ressaltou que embora tivesse vinte e cinco, não parecia ter mais de vinte, o que dificultaria que fosse respeitada pelos universitários. Ainda sem querer ser rude, ele arriscou dizer que ter uma boa aparência não era suficiente para ensinar.

Donna se sentiu insultada com os comentários do diretor, que ainda se achou no direito de aconselhá-la a esperar mais alguns anos para tentar um trabalho como o que ela queria. Era absurda aquela situação, odiava ser vista daquela forma, como quem conseguia alguma coisa por a acharem bonita, como se ela fosse burra ou coisa assim. Acreditava que podia sim impor respeito, como também poderia ensinar, mas não argumentou. Agradeceu pela entrevista e por seus conselhos, não tinha mais nada que podia fazer.

Vincent a consolou, embora entendesse a namorada, também compreendia as razões do diretor, pois não eram raros os processos contra professores e até contra as universidades, por acontecer algum tipo de envolvimento íntimo por parte desses funcionários com os alunos, o que era estritamente proibido. E como o diretor não conhecia Donna, não sabia de sua boa índole e seu profissionalismo, além de nem sequer se dar ao trabalho de perguntar se ela tinha algum relacionamento, já que em seu currículo constava que ela era solteira. Quem sabe, se ela fosse casada, pareceria mais séria aos olhos dele, que pareceu vê-la como um possível problema para a instituição.

Ele ofereceu ajuda para a namorada, o que ela não aceitou de imediato, mas tanto insistiu que Donna acabou concordando que Vincent tentasse de alguma forma conseguir que, pelo menos, fizesse a aula-teste nessa mesma universidade. Donna não sabia como ele faria isso, mas se empolgou com a possibilidade.

Por todos os dias que se passaram nessas duas últimas semanas, sempre que Vincent tinha algum intervalo ou um momento sozinho, ia para a internet, onde conferia cada uma das atualizações das redes sociais da filha de Jaime Carter, pois criou um perfil falso para sondá-la, mas sem enviar solicitação de amizade ou tentar qualquer contato.

A garota se chamava Christine Vonda Carter, ela postava quase todos os dias na internet, quando não eram fotos alegres com o namorado, eram coisas simples do seu dia-a-dia e frases apaixonadas. Dessa forma, Vincent sabia que ela ainda não tinha ido para a cabana, pois as fotos e postagens referenciavam sempre lugares do centro de Los Angeles e de sua casa. Aguardava ansiosamente quando ela divulgasse aquela viagem e ele tinha certeza que ela o faria.

Suas redes sociais eram repletas de fotos e comentários sobre suas viagens anteriores para vários lugares, inclusive para a cabana, o que lhe dava a certeza que seria avisado por ela sobre o momento certo em que deveria agir.

Em meio a tantas imagens felizes, declarações apaixonadas e postagens, aos olhos de Vincent, desnecessárias, ele só conseguia ver naquilo tudo, muita hipocrisia. Achava-a uma hipócrita, que agora exibia a barriga cheia de dengo, prometendo amor eterno ao bebê que não conhecia e agradecendo aos quatro ventos pelo seu "final feliz", dizendo se sentir realizada com a nova família. Quanta hipocrisia! É só chegar o filho, e eles sentirem o que é ser mãe e pai de verdade, que passa essa felicidade momentânea e acaba essa falsa alegria! — pensava.

Vincent estava realmente atraído pela jovem, mais especificamente, por sua gestação, por isso, em momento algum lutou contra essa atração. A verdade é que não se importava com ela. Só sentia que precisava fazer algo, afinal, Christine tentou abortar o próprio filho e para infelicidade dela, falhou. "O que ela poderia fazer com o bebê depois que ele nascer, que outras formas de sofrimento ela seria capaz de lhe causar?". Ele conseguia pensar em muitas formas.

Mais dias se passaram, Vince se perguntava do motivo de tanta demora, pois lembrava que Jaime havia dado a entender que Christine ficaria com eles só aquela semana em que esteve no instituto, quando já haviam se passado quase três. Nesse dia, ele acessou com seu perfil falso a rede social dela, sem muitas expectativas, quando se deparou com uma mensagem de Samuel, o namoradinho: "Muito feliz com você, gatinha. Não vejo a hora de ficar com você, já arrumei tudo aqui.", ao que Christine respondeu: "Já arrumei as malas também, pronta pra partir! Papai vai passar aí te pegar depois do trabalho. Te amo."

Vincent finalmente podia se preparar para uma breve viagem, estava pronto também. Até já havia comprado o que ia precisar. Decidiu que o melhor era colocar o seu plano em prática durante a noite, para não chamar a atenção de possíveis vizinhos, o que tinha quase certeza que não haviam. Não poderia se aproximar muito com o carro por causa do barulho e da claridade dos faróis, para enxergar não podia usar lanternas, pois arriscava atrair a atenção do mesmo jeito. Planejou tudo minuciosamente.

Esperaria pelo menos dois dias para que o casal tivesse tempo de se instalar na cabana e ficassem a sós por lá, pois não queria correr o risco de encontrar Jaime ou qualquer outra pessoa inesperada em seu caminho.

Chegado o dia, almoçou com Donna e lhe disse que passaria a noite no hospital trabalhando, de forma que não poderia vê-la depois.

O Ceifador de Anjos: A Coleção de FetosLeia esta história GRATUITAMENTE!