Hoje pela primeira vez em muito tempo, não me custou a acordar

Hoje pela primeira vez em muito tempo, não me custou a acordar.
Não me lamentava pelo começar de um novo dia, mas estava cheia de forças para o encarar de frente e como se tudo se encaixasse perfeitamente, como um puzzle, era sexta feira!
Desço as escadas numa correria e salto por cima dos últimos degraus, que nem uma criança. Não me arrastei pelo corrimão, sonolenta, como de costume.
Chego à sala de estar e lá vejo a minha tia, sentada no seu precioso cadeirão. Tinha flores bordadas no tecido fino que a própria fez quando mais nova, juntamente com a minha mãe. Era muito bonito e delicado.
Ela estava mais elegante esta manhã. Pergunto-me quais os seus planos para hoje...
De pernas cruzadas, com a famosa revista da Vogue pousada no seu colo. Folheava-a com uma mão calmamente, enquanto a sua outra segurava uma chávena de café. Café preto, como a sua alma.
Olha-me por cima dos seus óculos, que lhe davam um encantador ar intelectual e murmura um "bom dia".
Paro de procurar por defeitos nesta figura quando ela fecha bruscamente a resvista. A minha voz interior gritava para eu fugir, mas o seu olhar desafiava-me de uma maneira inexplicável e eu sou orgulhosa demais para recuar.
Ela finalmente quebra a ligação e eu ganho a competição.

_Bom dia!

_A diretora ligou! - Ela começa. - O que andas-te a fazer Leonor? - Ela tira os óculos e pousa-os com cuidado sobre mesa.

_Nada! - Levanto as mãos no ar. - Seja lá o que for que me vás acusar, desta vez garanto que não fiz nada. - Dou de ombros e viro-me.

_Vira! - Ela faz uma espiral invisivel no ar. - E senta! - Ela aponta para o sofá.

Acho piada que ela abane o dedo no ar com tanta intuição, como tivesse mesmo algum poder mágico, mas trinco a língua para me deter de soltar o riso.
Ela espera impacientemente que eu obedeça, cutucando a mesa freneticamente com as suas unhas de gel, vermelho vinho, perfeitamente pintadas.

_Fui informada que invadis-te novamente o espaço escolar.

Alguém me deve ter visto saltar as grades ao sair do Colégio...desde que não descubram o Sr. Miguel...

_Afinal podes me acusar disso. - Tia Evelyn olha-me estupefata.

_Só isso? Nao te sentes culpada por quebrares as regras da escola?

_Não. - Finjo pensar um bocadinho e nego com a cabeça. - Nadinha...

_Porque é que não podes aprender a ser um pouco como a tua irmã!? Isto é tudo por causa daquilo do jogo da bola! Quando pensas nisso nada mais cabe na tua cabeça e tu tens de te focar. Deixa de perder tempo.

Lá se foi o tão raro bom humor que antes tinha.

_Chama-se voley - Corrijo aborrecida. - e eu faço o que eu quiser nos meus tempos livres.

Ela fuzila-me com o olhar e agora percebo porque dizem que somos tão parecidas...Odeio isto. Tia Evelyn parece a minha cópia só que em adulta, até no feitio tivemos de ter as nossas poucas parecenças.
Ela não pode ter filhos, por isso acho que invejava a minha mãe, por me ter a mim e a Anna. Até nesse ponto somos iguais, de invejar as nossas irmãzinhas perfeitas...
Suspiro.
Sempre me lembrei dela alegre e considerava-a como uma segunda mãe, como as coisas mudaram a este ponto?

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