O Clube dos Herdeiros (5 primeiros capítulos)

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CAPÍTULO I

BEM VINDO À SELVA

"Welcome to the jungle

We got fun and games

We got everything you want

Honey, we know the names"

Guns'n'Roses - Welcome to the jungle

Não há nada de excepcional em um dia incrível de sol no Rio de Janeiro. Mesmo assim, toda vez que amanhece assim, parece ser a última vez que o sol aparecerá no universo quando se trata de Manuela Garcia Leal. Não, você não perguntou quem é Manuela Garcia Leal! Em que mundo você vive afinal? Nunca encontrou com ela fazendo Stand Up Paddle no Arpoador? Ou deitada nas areias do Leblon na companhia do seu I-pod, como se não existisse nada nem ninguém em volta? Manu conhece todo mundo e, quando não conhece, parece ser amiga de infância no momento seguinte. Não porque ela seja daquele tipo IN-SU-POR-TÁ-VEL que força amizade até no hall do elevador (pena de banimento deveria valer nessas horas), mas talvez porque ela seja leve. Tão leve que não cobra, não exige... mas também dá uma certa impressão de não se prender de verdade a nada. Manuela abre aquele sorriso e pronto: ganha mais um copo de mate, um ingresso para o show esgotadíssimo, a viagem que o avô garantiu que não ia dar, a simpatia da metida da faculdade, o perdão da melhor amiga e todos os pensamentos do garoto que acabou de passar por ela e quase caiu do skate (pudera, parecia hipnotizado!).

O mar do Arpoador vinha aparecendo em todos os noticiários por estar lisinho e transparente como o mar do Caribe. Talvez por isso, ou talvez só usando isso como pretexto, especialmente hoje ela não conseguia sair de lá.

"Só mais um mergulho. Se bem que se eu ficar mais uns quinze minutos, não vou me atrasar taaaanto assim!" - Esse tipo de pensamento não era raro e muito menos bem sucedido. Por causa dele e da cabeça sabe-se-lá-onde, Manuela definitivamente não era pontual. E poucas coisas no mundo irritavam tanto Helena quanto o fato de Manuela não só se atrasar, como nunca atender o celular nessas horas. Ah, sério? Você também não sabe de que Helena eu estou falando? Nossa, você está precisando de um "catch up" urgente, mas eu vou quebrar mais esse galho. Helena Piva de Albuquerque, ninguém menos do que a caçula de uma das famílias mais tradicionais do Rio de Janeiro. Convenhamos, ela tinha mesmo de onde herdar aquele ar aristocrático (A.K.A nariz empinado)! Mas o julgamento de quem a achava "um nojo", embora a divertisse, não era exatamente acertado. Por mais que fizesse as reuniões mais disputadas à beira da piscina de borda infinita do 7zero6 e desse as festas de aniversário mais comentadas do Copacabana Palace, Helena preferia passar horas assistindo filmes clássicos com a madrinha do que tendo que cumprimentar os 200 convidados chatos dos jantares de alta sociedade que sua mãe dava todo dia 29 (talvez por isso ela gostasse tanto de fevereiro).

Helena e Manuela cresceram juntas. A avó de Manuela, Luiza Garcia Leal, e a madrinha de Helena, Amélia Piva de Albuquerque, eram melhores amigas desde os 12 anos de idade, e mantinham a amizade em plena forma aos quase 80. As herdeiras desse laço se tornaram unha e carne desde pequenas, mesmo antes de já serem alvo das atenções no Colégio Santo Agostinho - o que não era muito diferente hoje em dia, no quarto período da PUC - ainda que uma tenha escolhido jornalismo e a outra Direito, que uma fosse loira e a outra morena, que uma amasse Surf Music e a outra ainda colecionasse discos de vinil de Billie Holliday, que uma tivesse aquele cabelo bagunçado maravilhoso de capa de revista enquanto a outra mantivesse sempre os penteados mais perfeitos. Helena e Manuela eram muito diferentes, e talvez por isso uma fosse tão essencial na vida da outra. Mas bem que Manuela podia sair de uma vez por todas do mar e...

-...Atender a DROGA do celular?! É a quarta vez que eu ligo e eu juro que se você se atrasar hoje eu apago todas as nossas fotos na Tailândia que ainda estão na minha câmera, Manuela!

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