00. Antes

369 28 24



"Onde está você agora? Em algum lugar aconchegante, seguro? Próximo de alguém que você ama? Agora, e se tudo isso tiver chegado ao fim, e a única coisa que você puder fazer for sobreviver? Você iria, não? Você tentaria. Você faria coisas... Coisas horríveis! Até você perder a única coisa que teria restado: você mesmo."

(12 Monkeys)




Parte 1 - Zona segura



Começou como uma tempestade. Estrondosa e arrasadora, com trovões rasgando o céu.

Mas não eram trovões.

Dylan estava na sala, assistindo televisão. As luzes acesas. Max brincava no segundo andar, fazendo bastante barulho enquanto pulava pelo quarto – antigamente, isso teria sido incômodo. Agora, a garota não se importava mais.

Os mais velhos conversavam na cozinha, como costumavam fazer todo fim de mês. Um diálogo baixo, seguido por algumas exclamações descontroladas, e depois mais sussurros. Dylan tinha parado de espionar as conversas depois de alguns meses; era sempre a mesma coisa.

Os suprimentos estavam acabando. Talvez devessem ignorar os avisos? Quem sabe procurar por outro lugar seguro? Não, não podiam fazer isso, e as crianças? Elas poderiam ir junto. Junto para onde? A quarentena está ao nosso redor, não há para onde fugir. Mas e se conseguissem? E se passassem pelas cercas? O que aconteceria se fossem pegos? As autoridades compreenderiam o desespero. Não, não compreenderiam. É perigoso lá fora! A quarentena acabaria em algum momento. Ela tinha que acabar! Quando? Por quanto tempo continuariam ansiando pelos fins de semana para buscar os suprimentos? Por quanto tempo eles continuariam tomando banho gelado a cada três dias por causa da pouca água? Quanto tempo até os reservatórios acabarem? Quanto tempo até a contaminação acabar? Quanto tempo até poderem rever seus filhos? Quanto tempo até eles não aguentarem mais? Não viu o que aconteceu com os vizinhos? Quanto tempo até sermos nós?

Fale baixo, Harold. As crianças!

A garota estava acostumada. Tinha se acostumado a ouvir aquele mesmo tipo de preocupação todo fim de mês; os dois sempre voltavam atrás. Sempre resolviam esperar um pouco mais; mês que vem eles discutirão de novo.

Mas não haveria mês que vem.

Dados informam que a taxa de suicídios na região norte cresceu desde o mês passado. – a repórter na televisão falava. Suicídios. Mais e mais suicídios. Quando não era o suicídio, era o vírus. A epidemia. Mortes e mais mortes enchiam as ruas. Uma vez que aquele ciclo começava, não havia pausa, não havia fim. – As quarentenas nas zonas cinco e sete continuam em total funcionamento, e as áreas seguras depois delas estão sob controle. A fronteira com o oeste recebeu novas barricadas, mas nenhuma informação oficial foi vinculada aos relatos das descontaminações. Não foi possível contatar a capital desde o último pronunciamento, mas acredita-se que o governo...

Um estrondo chegou até a janela, derrubando os bibelôs de Miltred. Em segundos, a televisão à frente de Dylan se apagou, o menininho lá em cima gritou, e o bairro caiu na penumbra.

- Está tudo bem, foi só uma queda de energia!

Não, não foi.

Dylan arfou, caminhando até a janela. Os prédios, ao longe, depois da cerca, refletiam uma estranha luz avermelhada. A menina se abaixou instintivamente, apoiando os dedos na beirada da vidraça. Os olhos arregalados assistiram alguma coisa cortando o céu e então a noite foi colorida por uma explosão de fogo e fumaça.

As Coisas que Perdemos [DEGUSTAÇÃO]Leia esta história GRATUITAMENTE!