A segunda divisão passa pelo portão sudeste enquanto a primeira percorre, em ritmo mais lento, as ruas que levam ao centro da cidade. Não há pressa. A notícia se espalha rapidamente. As roupas coloridas e as vozes ritmadas chamam tanta atenção quanto as características físicas peculiares do grupo. Em pouco tempo, tantos mais se juntam ao movimento que as ruas se tornam mais animadas que as tavernas; e até quem havia ido a esses estabelecimentos a procura de diversão retorna as ruas, apenas para presenciar o grande evento. A comoção é tanta que até a águia dourada tem seu público reduzido a menos da metade.

- Podemos ver os perolados amanhã... depois... por que todos estão tão agitados? – resmunga, bêbado, um cliente fiel.

- Porque é uma novidade. É natural que os curiosos se agitem. – Outro cliente responde, desinteressadamente.

- Mas pra que fazem tanto barulho? Estão atrapalhando a voz da doce Ilillel! – o embriagado apoia-se em uma coluna, mal conseguindo firmar a própria voz.

- Se não deseja participar, apenas não participe. – um aventureiro loiro levanta e se dirige ao palco – mas, por favor, poupe-nos de seu mau-humor e não ofenda a estrela da casa.

O aventureiro chama ao canto do palco a moça extremamente bela que finaliza precocemente sua apresentação essa noite. Conformada em encerrar mais cedo devido aos acontecimentos recentes, Lyriell caminha suavemente, seu andar é leve e envolvente. Desce os quatro degraus que levam ao palco da águia dourada, parecendo flutuar. O rapaz loiro para diante dela.

- Por favor, aceite esse presente como um pedido de desculpas, mesmo sendo pouco para reconhecer o seu talento.

Ela recebe um colar de prata, ostentando uma esmeralda lapidada. Guarda rapidamente o presente, seus movimentos são tão rápidos que mal podem ser notados.

- E por qual motivo se desculpa, gentil viajante? – sua voz é doce e melodiosa.

- Pela interrupção da sua música. A noite é sua, todos os olhares deveriam estar voltados a você, Lyriell.

Ela sorri, elogios lhe caem sempre muito bem, mas não prendem sua atenção por muito tempo.

- A noite é o reino de Mahv e pertence somente a ela. – seus lábios vermelhos exibem um sorriso enigmático enquanto se dirige para a saída.

- Saindo cedo, Lyl? – O dono da estalagem faz questão de cuidar pessoalmente de tudo por ali.

- O expediente foi sabotado hoje, Aegnor. Vamos esperar que os perolados compensem-nos em breve pelo prejuízo.

Lyriell não está acostumada a dividir atenção. Desde que chegou a cidade, tornou-se a estrela da águia dourada e a barda mais popular de Dhar'wen. Seus devotados fãs vão a taverna, por vezes, apenas para ouvi-la cantar lendas do povo élfico. Sua voz é tão encantadora que gerou boatos pelas ruas; dizem que os mais fracos que a ouvem tornam-se escravos de sua vontade. Mas os mesmos que espalham esses boatos não sabem explicar porque alguém com tal poder estaria vivendo de modo simplório entre indivíduos comuns.

Conferindo rapidamente se todos os seus bolsos estão devidamente fechados e seus pertences protegidos, Lyriel respira fundo e se prepara para sair. Ela sabe que precisará reunir toda a paciência do mundo para lidar com a presença dos perolados. Quando criança, em sua terra natal, chegou a brigar com um deles. Foi provocada, pelo que se lembra. Uma barda como ela sempre tenta todas as outras possibilidades antes de apelar para a violência física.

Na rua, a música desembestada e alegre típica dos T'hielarinn soa extremamente irritante aos ouvidos de Lyriell. Ela se pergunta por que eles insistem em tentar, quando claramente não tem talento artístico algum. Suas roupas são sobrecarregadas com tantas cores fortes e desenhos, sua música é repetitiva e desajeitada, seus rostos são pálidos e apáticos. É inacreditável que sejam tão populares. Lyriell evita andar próxima a aglomeração, seguindo pelos cantos das ruas, passando pelas portas das lojas. Protegida por sua capa rubra, caminha mantendo uma distância segura dos transeuntes. Ela detesta ser tocada.

No Reino de Ethern - A Melancolia de MahvOnde as histórias ganham vida. Descobre agora