- Todos que vem em paz são bem-vindos em Dhar'wen.

Ao voltar para as mãos de seu dono, o objeto brilha intensamente e, com outro estalo súbito, a criança desaparece, tal como apareceu.

- Mas... o que foi isso? – pergunta o recruta, espantado.

- Agradeça por sua sorte, jovem. – ele responde com um sorriso - Em sua primeira noite na patrulha, está tendo a oportunidade de presenciar um grande acontecimento! A Caravana vai passar.

Ao longe, de dentro do bosque, pequenas luzes bruxuleantes aparecem, aproximando-se lentamente da barreira.

- A Caravana? Então... esse ser estranho era um perolado?

- Que T'hiel não o ouça falar assim de seus filhos – Saeros observa as luzes dançantes que vão dando contorno ao significativo grupo de visitantes – A Caravana não para nesta cidade há 120 anos. Se você não pretende agradar os visitantes, então ao menos demonstre respeito por eles. Dhar'wen é uma cidade de elfos livres, independente de sua origem.

É possível ouvir agora uma distante música leve e alegre. A Caravana avança animadamente, entoando suas canções folclóricas.

Saeros ordena a seu imediato que toque o sino por duas vezes. Ele atravessa o vão central e rapidamente cumpre a ordem. Pelo som das badaladas, os habitantes da cidade agora estão alertados que uma grande quantidade de visitantes se aproxima. Alguns curiosos que passavam próximo aos limites decidem conferir de que se trata.

Os portões de Dhar'wen ficam sempre abertos. Seus fundadores criaram ao redor da cidade não apenas uma barreira física feita de madeira, mas também uma proteção mágica. Apenas aqueles que vem em paz são capazes de atravessar os portões. Esse tornou-se o lema de seus habitantes, sempre dispostos a acolher viajantes, mestiços, desgarrados do mesmo modo que o faz com os ricos, puros e bem-nascidos. Em Dhar'wen, não se pergunta sobre o passado dos outros. Todos seguem a sua própria vida. Todos merecem uma segunda chance, desde que desejem sinceramente viver em paz.

- É a Caravana! – um jovem entusiasmado anuncia. – A Caravana está vindo!

Uma senhora com os cabelos trançados que estava na janela sai de sua casa para conferir a veracidade da informação. Ao avistar os membros da primeira divisão atravessarem o portão, abre um sorriso e segue para recebê-los. E não é a única. Pelo menos três dúzias de elfos médios formam uma recepção improvisada e sincera aos recém-chegados. E é justamente esse o tipo de recepção que os t'hielarinn mais apreciam.

A música alta contagia o povo que vive na região menos populosa da cidade. Curiosos observam pela janela. Muitos se juntam aos T'hielarinn na cantoria e ajudando a passagem da primeira divisão. A Caravana não possui muitos bens materiais, apenas o necessário para viver com alegria e liberdade. A estrutura de seu acampamento constitui a maior parte de sua bagagem física. Passam a vida toda viajando, não param muito tempo em um só lugar. Geralmente, acampam em pontos naturais estratégicos, fora das civilizações e, eventualmente, até longe das estradas. Por vezes, realizam paradas nas cidades que porventura estiverem em sua passagem – se elas assim permitirem. Mas, em Dhar'wen, sua visita jamais fora recusada. A Caravana sempre vem em paz.

A primeira divisão avança em direção a praça central. Alguns moradores se espantam com a aparência daqueles elfos peculiares, talvez os mais exóticos de todo o reinado. Comparados aos outros elfos, são mais baixos e visivelmente mais esguios, aparentando fraqueza física. Seus olhos e cabelos crescem naturalmente coloridos, em tons extremamente incomuns, mas quase sempre claros e pálidos. Por esse motivo, são conhecidos vulgarmente como "perolados". É dito popularmente em Dhar'wen que a Caravana traz sorte. Na verdade, o que a Caravana realmente traz é a boa vontade de seu povo em compartilhar seus dons. Sabe-se que dentre os filhos de T'hiel, muitos tem habilidades particulares, que costumam usar para ajudar os outros.

No Reino de Ethern - A Melancolia de MahvOnde as histórias ganham vida. Descobre agora