A cada passo, Ilid'el segue seu novo caminho árduo e frio. Sua única certeza é a solidão. Voltar atrás não é uma opção, ele próprio escolhera o isolamento para si. De agora em diante, será melhor assim. Ainda é possível ouvir os sons de Dhar'wen. A grande e movimentada cidade central fica para trás conforme ele segue para noroeste. Ilid'el sente o brilho do luar acompanhá-lo e a manta escura que o cobre pesa com a culpa. Carregará esse peso sobre os ombros por toda a sua vida.

O estranho acena com a cabeça ao passar por ele na direção oposta. Ambos estão com seus rostos cobertos. Ilid'el imagina que ele também deve ter motivos para se esconder. Talvez todos tenham uma marca em suas vidas que desejam encobrir. Acena de volta, do mesmo modo, sem desviar-se de seu rumo sem destino. Segue caminhando no mesmo ritmo por um longo período, automaticamente, revendo os recentes acontecimentos em sua memória, afastando-se da civilização. Culpa, angústia, fraqueza e indecisão se confundem, sem deixar lugar para uma conclusão lógica, sem deixá-lo sequer entender quem realmente é. Para, ao perceber um grupo de viajantes se aproximar. Decide então sair da estrada - a floresta que a cerca parece mais confortável para alguém que não deseja companhia.

Ao adentrar a floresta, porém, percebe que a lua já não o acompanha tão de perto. Apropriado. Nesse momento, Ilid'el não consegue reunir a coragem necessária para encará-la.

- A lua parece triste, hoje.

Um vento frio e incômodo sopra nos arredores da torre de patrulha sudeste de Dhar'wen. Entretido a observar uma coruja pousada num carvalho, o novato não presta atenção a observação de seu superior:

- O que disse? - ao que não obtém resposta, desiste de encarar a ave e volta-se para Saeros - O senhor reparou naquela coruja de olhos diferentes? Um é escuro e, o outro, é claro... mas não pude identificar as cores ao certo.

Saeros levanta-se e olha ao redor.

- Que coruja, jovem? Não vejo ave alguma nessa noite fria.

O novato esfrega os olhos e procura o animal novamente. Mas não há mais nada lá. Incomodado, pega seus binóculos e procura rastros dela no céu. Mas não há sinal.

- Se você fosse aparentado aos noturnos, não precisaria de aparelhos para enxergar no reino de Mahv. - Saeros encosta-se a armação de madeira e observa o bosque a sua frente e, depois, a cidade que protegem. Dhar'wen é realmente grande, mesmo não sendo a capital do reinado. É uma cidade movimentada e animada, centro comercial e parada obrigatória para contadores de histórias e mercenários. Cercada por uma grande barreira móvel, construída muitas gerações atrás e movida novamente poucas gerações antes. Olhando para o céu nublado, Saeros reflete sobre o tempo que passou vigiando os arredores da cidade. Aquele lugar é sua vida, passara 170 anos vigiando os limites de Dhar'wen e viu muito acontecer, embora seu muito seja pouco diante da história de seu povo. Felizmente, a natureza élfica é bastante pacífica, ele jamais presenciara uma guerra.

Um acontecimento abrupto tira Saeros de seus pensamentos. Subitamente, com um estalo seco, algo se materializa diante de seu recruta que, assustado, grita e pula para trás, tropeçando nos próprios pés e caindo sobre a estrutura de madeira. Calmamente, o patrulheiro mais experiente se digire ao infante que acaba de surgir na torre. O novato emudece. A criança tem a pele pálida e rosto inexpressivo. Seus curtos cabelos loiros são tão opacos quanto seu olhar vazio, contrastando com suas roupas coloridas. Ele não se volta a nenhum dos patrulheiros, apenas espera, imóvel, sem sequer dirigir-lhes o olhar. Não poderia, ainda que quisesse. Saeros percebe que o menino é cego. O patrulheiro põe-se diante do visitante inesperado. Ansioso, o recruta apenas observa. A criança estica os braços na direção de Saeros, entregando-lhe um objeto redondo de vidro com cerca de 25 centímetros de diâmetro. Sem hesitar, ele recebe a esfera em mãos, e, mesmo através das luvas, percebe o quanto é fria ao toque. Ao examiná-la, surgem lentamente letras etéreas de um dialeto incomum. Curioso, o novato espia por cima do ombro, mas não compreende a escrita que se move no interior do objeto. Solenemente, o patrulheiro devolve-lhe a esfera vítrea:

No Reino de Ethern - A Melancolia de MahvOnde as histórias ganham vida. Descobre agora