Capítulo 12: A Onda

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A luz tocou os olhos de Érico como uma faca afiada, e demorou para ele distinguir o lugar em que estava: A sala dos nove tronos, de infinita altura e comprimento, com o Universo multicolorido e infinito sobre suas cabeças. Encontrou os oito encapuzados e o trono de pele e ossos vazio. Érico quis sair correndo dali, mas não sabia porque, era impossível tomar controle sobre seu corpo no local.

— O garoto vai vomitar – a quarta Absoluta disse em tom zombeteiro. Ela parecia enorme por debaixo do capuz, e tinha uma voz pesada. Seu trono era ornamentado com todos os tipos de armas que Érico já havia visto antes, amontoadas e amarradas umas sobre as outras. Armas de ferro, de ossos e de aço. — E pensar que é um de nós.

— Pois já não fomos todos como ele?! Nada que a vida não venha lapidar para melhor. – o segundo o defendeu, com uma voz suave carregada de sabedoria. Era a voz de um senhor, com toda a humildade do Universo reunida em um só som. Como era possível Érico sentir tanta bondade condensada na pronúncia de um arauto da destruição? Seu trono era uma pilha de livros tão grande que encheria um planeta.

— Então... pessoal... eu não quero ser um Absoluto – Érico conseguiu pronunciar-se pela primeira vez. — Essas marcas, esse meu Destino desenhado... isso não sou eu... eu irei apagá-las. E com isso, vou cortar o meu vínculo com vocês.

Um silêncio mortal soprou junto à vastidão do salão. Érico não sabia dizer se havia deixado os presentes com medo ou irados, mas o peso da quietude esmagou seus ombros.

E então, uma gargalhada ecoou. A voz do quinto Absoluto era a voz de todo o Universo em um coral. Era como se infinitas vozes rissem dele ao mesmo tempo. Seu trono tinha mil faces, cada uma pertencente a uma diferente raça, a maioria delas desconhecidas para Érico. O quinto levantou-se, revelando-se o maior dos capuzes, esvoaçando como se estivesse debaixo de águas turbulentas, enquanto um tornado soprava em seu interior; uma figura sem dúvida arrepiante, desprovida de face ou forma.

— O garoto precisa de modos – as centenas de milhares de vozes ecoaram do capuz disforme.

Érico sentiu o corpo estremecer, e teve certeza de que teria urinado nas calças se estivesse acordado.

— Silêncio!! – O primeiro trovejou sobre um trono de peles animais de todos os tipos. — Vai ter hora certa pra garoto aprender o que deve aprender. E então, todos os Absolutos concluirão a busca pelo Oríginem!!

Érico relutou, mas não pôde deixar de dizer. Aquilo era um sonho, ele não conseguia fingir naquele lugar, ainda que custasse sua língua.

— Não adianta, eu não vou ser um Absoluto! – berrou ele, e levantou-se em um tranco instintivo.

Seu corpo estava ensopado como uma cachoeira e a respiração lhe falhava nos pulmões. Érico saltou da cama reservada para ele em um quartinho da 14-Bis e olhou-se no espelho, estava sem camisa e os cabelos curtos pingavam de suor, tal como o corpo. As gotículas passearam pelas formas da tatuagem. Aquilo estava ficando cada vez mais assustador, ele tinha que se apressar para apagar aquele Destino e se livrar de uma vez daquele fardo.

De repente, o solo metálico da nave vibrou.

Érico segurou-se na guarda de sua cama e esperou que parasse de tremer, mas a trepidação só aumentou. Gritos ecoavam do lado de fora; ele correu pelo corredor para ver o que acontecia, alcançando a cabine aos tropeços.

— Mas o que raios é isso? – berrou Érico, segurando-se em uma parede.

— A Onda!!! – gritou Camilo, com uma face que era a clara mistura de horror e felicidade, duas coisas que Érico nunca havia visto nele.

Absolutos I - A Sinfonia da DestruiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora