Capítulo 9

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Loretta Romero tem vinte e sete anos, é uma mulher de estatura mediana e assim como o marido, tem descendência mexicana. Apesar da vida sofrida que teve no seu país de origem e do sofrimento dos últimos meses pela doença do seu pequeno Pietro, que apresentava um quadro de leucemia avançado, ela tinha um rosto bonito, marcado pela dor, mas ainda assim, era uma mulher bonita.

Não bastasse a situação precária em que viviam, onde muitas vezes a falta do alimento para comer castigava a ela e aos dois meninos, além da doença do filho mais velho, os seis meses de uma gestação conturbada, mas da qual se sentia imensamente feliz por realizar o sonho de ter uma menina, agora enfrentava a tristeza por ter seu marido preso. Ela vivia o momento mais difícil da sua vida.

Loretta sabia que os últimos atos do marido não eram corretos, mas não o julgava, sabia do desespero dele e o entendia, mas lamentava todo o ocorrido. Mudaram ilegalmente para os Estados Unidos porque tinham esperança de conseguirem viver melhor, acreditavam que teriam boas oportunidades e que seriam felizes ali, mas a ilegalidade mostrou-se mais complicada do que imaginavam, além de não esperarem que o filho viesse a adoecer, piorando tudo ainda mais. Loretta, sentia falta do marido, pois ele era seu único apoio em meio àquela forte turbulência pela qual passava sua vida. Agora, no entanto, ela tinha uma pontinha de esperança.

Sua esperança consistia em garantir ao filho Pietro o atendimento médico que eles receavam buscar, além de não terem condições para arcar com os custos que sabiam serem altos. Mesmo sabendo que ele não sobreviveria, se pelo menos pudessem amenizar a sua dor, poupando-o do sofrimento, ela ficaria feliz. Era certo que a recuperação, naquele estado do garoto, era impossível. Também lhe foi acendida uma pequena chama de esperança de comprar comida de forma a fazer um grande estoque, alimentar melhor seu outro filho e a ela mesma, além de contratar um advogado para libertar seu marido. Quem sabe, até mesmo fazer o parto da filha em um bom hospital, onde fosse bem atendida. Tinha dúvidas sobre o futuro de sua família, não sabia se poderiam deportar a ela ou o marido para o México, estando eles esperando um filho americano, mas isso não importava nesse momento, poderiam se preocupar com isso depois.

Loretta não ignorava o fato de que estava prestes a fazer algo errado. Sabia que usaria dinheiro roubado, o mesmo que seu marido se empenhou em conseguir, sendo preso por isso. Mas que escolhas ela tinha? Assistiu tristemente aos noticiários, onde viu o marido sendo preso e até a polêmica gerada por suas palavras, nas quais ele praticamente se humilhava ao expressar toda sua angústia, mas nunca ninguém a procurou para ajudar sua família. Estava feliz por finalmente um amigo contatá-la, por enviar aquela mensagem que significava sua única esperança.

Ela já estava preparada para o encontro, que seria logo, quase ao anoitecer. Ele marcou em um barracão há muito abandonado e bastante isolado. Eles precisavam dessa privacidade, afinal, o amigo estava fugindo da polícia e assim como seu marido, Loretta não queria prejudicar a ele e os demais.

Deu um beijo no filho Pietro, prometendo que dias melhores viriam. Ele dormia um sono profundo e cansado, depois de fortes crises de dor. Beijou seu caçula, que assista TV, parecendo hipnotizado pelo desenho animado. Abraçou a vizinha que atenderia os meninos enquanto ela estivesse fora. Pegou sua bolsa, onde guardou seu celular e saiu.

Ela pegaria um ônibus e depois o metrô, em menos de uma hora chegaria ao local marcado.

Loretta viu à sua frente o barracão, tinha pressa em entrar, tanto para finalmente receber parte do dinheiro levado no assalto pelos companheiros do seu marido, como também pelo fato de estar muito frio. Acreditava que lá dentro estaria mais aquecida.

Ela usava um conjunto de moletom cinza e calçava um par de tênis branco. A barriga saliente estava visível pela fresta entre a calça e a blusa, que já não podiam cobri-la por completo. Mantinha o cabelo solto, pois ajudava a aquecer seu pescoço.

Atravessou a rua de forma natural, buscando não chamar qualquer atenção para si. Não precisava disfarçar muito, pois esse trecho já não era movimentado em dias normais, nesse dia especialmente, a rua estava deserta, exceto por um ou outro morador de rua que se encolhia a algum canto tentando se proteger do frio torturante.

O barracão parecia trancado, teve que forçar o enorme portão metálico para acreditar que estivesse aberto e que alguém a estava esperando. Entrou, não sem olhar a rua com atenção e constatar que absolutamente ninguém a via.

Havia pouca claridade ali, apenas alguns clarões vindos das janelas com vidros quebrados e de alguns buracos no teto, pois pequenas vigas de madeira haviam cedido, fazendo com que algumas telhas se estilhaçassem no chão. Fora a sujeira, o lugar todo era uma desordem total. Haviam caixotes quebrados e algumas placas de metais, o que fez Loretta imaginar que provavelmente aquele espaço serviu de depósito desse material no passado.

Seus olhos levaram alguns segundos para se adaptar àquela fraca claridade. Olhava para todos os lados procurando por alguém, como não via, continuou andando, atenta ao chão onde pisava, receando pisar em algum prego ou caco de vidro, enquanto percebia que o barracão era bem maior do que imaginava.

— Jean! — ela chamou com voz baixa. — Adrian! — chamou em um tom mais elevado. — Paolo! Cadê vocês? — falou, tendo percorrido mais da metade do espaço, procurando entre os caixotes e o amontoado de metais.

— Não estão aqui — disse uma voz rouca atrás dela, fazendo-a virar sobressaltada.

— O quê? Quem é você? Cadê eles?

— Quantas perguntas Loretta! Bem, eles não estão aqui e não sei onde devem estar. Na verdade, eu nem sequer sabia os seus nomes. Jean, Adrian e Paolo, certo? A polícia está procurando por eles, você sabia?

— Eu não sei... — ela começou a falar, trêmula.

— É, eu sei, você não sabe, mas vai ajudar a pegá-los. Você só não sabe como, não é?

Loretta chacoalhou a cabeça em um gesto negativo. Sentiu um arrepio, sabia que não era por causa do frio. Ela começava a sentir medo daquele homem de rosto enigmático e olhos sombrios postado à sua frente, entre ela e a saída, que aliás estava bem distante a essa altura.

Demorou um pouco para que ela percebesse que ele, ao invés de luvas para se aquecer do frio, usava luvas de látex na cor azul, como de um médico.

— Não sei o que quer, preciso ir embora — disse se enchendo de coragem e caminhando para a frente.

Ele não se mexeu. Ela deu poucos passos e já estava bem próxima a ele, quando foi puxada pelo braço e jogada com força ao chão, gemendo com a dor latente que sentiu nas costas. Por instinto, pôs as mãos na barriga, temendo que a queda pudesse trazer complicações para sua filha.

— Quem é você? Se quer o dinheiro, eu não sei onde está, não sei onde eles estão, eu juro. Me deixa ir embora, por favor — ela pediu, enquanto algumas lágrimas começavam a escorrer.

— Eu não quero dinheiro, é você quem quer! — disse ele calmo, tirando o paletó.

— Eu preciso... — mais lágrimas escorriam.

— Sim, sim, seu marido já disse que vocês precisam. Sabe Loretta, Voltaire uma vez disse que o desespero ganha muitas vezes batalhas, agora entendo que "muitas vezes" não significa "sempre" ou que não significa "todas" — disse, enquanto tirava do bolso do paletó um bisturi.

— O que quer dizer? O que vai fazer? — falou desesperada, encolhendo o corpo, ao vê-lo se aproximar mais.

Loretta sentiu uma dor aguda em sua barriga, seu grito agonizante foi abafado e logo em seguida perdeu os sentidos.

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