Capítulo 4

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A madrugada fria cortava as suas entranhas, o vento gelado batia em seu rosto lembrando-o do motivo de estar ali. Não sabia para onde ir, olhava para um lado e para outro em busca de qualquer ambiente que pudesse protegê-los e os aquecer. Seu corpo já doía pelo peso do velho pendurado em seu ombro. O garoto o arrastava desde a saída do palácio, tentando fazer com que o seu pai tivesse o menos de esforço possível. O homem tossia e ofegava, estava cansado. Se continuasse daquele jeito não duraria muito.

Elijah suspirou, frustrado, por não saber o que fazer. Desceu o pai lentamente e o escorou em uma parede de lajotas na rua. Não se importou com o chão sujo enquanto sentava-se por ali e jogava uma pequena bolsa ao seu lado. Não havia trazido muita coisa, primeiro, porque realmente não o tinha, segundo, porque não teria condição de levar pertences e carregar seu pai ao mesmo tempo. Era um ou outro. Só havia pegado o básico de vestimentas, passou pela cozinha e assaltou alguns quitutes para que não passassem fome àquela noite.

Quando saiu pelos portões, só pensava em ir o mais longe possível do castelo, mas não conseguiu caminhar tanto quanto gostaria com o pai naquele estado. O velho estava cansado e aos tropeços. Vez ou outra gemia de dor. O braço esticado pelo ombro do filho lhe fazia sentir como se o sangue não circulasse mais o local, suas articulações latejavam e sentia uma queimação aguda, partindo do tendão até as pontas dos dedos. Quando pararam, foi como um alívio se alastrasse, conseguiu respirar finalmente, aliviado.

Ali mesmo, sentados na rua, Elijah abriu a bolsa, pegou um pedaço de pão e deu ao seu pai. Não tinham muito, mas sobreviveriam àquela noite. Pegou a manta que havia trazido e jogou-a por cima do velho que tremia de frio, mesmo sem reclamar. O pai não precisava dizer nada, ele não reclamaria, mas seu filho podia ver os pelos ralos dos braços dele arrepiados e seu queixo bater levemente. Elijah fechou os olhos e suspirou profundamente, tentava achar em sua mente uma solução para essa situação.

Sua mente corrompida e sádica o levou novamente aos momentos que havia vivido horas antes no castelo. Sentia cada palavra dita por Evelyn. Suas entranhas se remexiam com o peso de cada letra soletrada pela boca dela, as lembranças eram duras e pesadas, como uma garra que invadia o seu peito e esmagava o seu coração com um só aperto. Como ela poderia ter o enganado por tanto tempo? Como ela pôde fazer isso com ele? Seria ele tão idiota ao ponto de ter se deixado levar por um amor unilateral por todo este tempo?

Sua cabeça doía com a batalha entravada em sua mente, as boas lembranças que tinha com Evy tentavam combater e ocultar a catástrofe que havia passado há pouco. Sentia como se fosse hoje, a menina sorrindo para ele com olhos que ele julgava serem tão apaixonados. Viviam um amor tão puro. Como poderia esquecer de tudo?

A princesa olhava para ele, intrigada. Fazia uma careta confusa ao notar que o rapaz parecia estar em um outro universo. Às vezes ele focava um ponto e esquecia-se do mundo. Evelyn achava tão fofo e engraçado... ela gostava de encará-lo só para poder reparar nos traços do rosto de Elijah que mexiam-se involuntariamente quando estava daquela forma, concentrado.

- O que tanto pensa, Elih? - disse ela rindo, interrompendo os devaneios dele.

O garoto olhou pra ela e abriu um sorriso, aproveitou para retirar uma mecha de cabelo que estava caído na testa de Evy e tampava seus olhos.

- Não sei se é algo agradável para se dizer no momento. – respondeu franzindo o cenho e desfazendo o sorriso rapidamente.

- Por favor – insistiu Evy inclinando-se na direção dele e ignorando a carranca recente.

O garoto ponderou se deveria falar, mas vendo o olhar pidão da sua menina, não resistiu, sabia que não conseguiria negar nada a ela.

- Estava pensando em quando você casar com Henrique. O que irei fazer? Acho que você não irá querer ver minha cara nunca mais. Vai me esquecer completamente. – murmurou fazendo uma careta teatral para ela.

Trono de SangueOnde as histórias ganham vida. Descobre agora