Encontro Sombrio

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Passava um pouco das onze da noite quando o desconhecido entrou naquele bar empoeirado. Não havia mesa vazia para que ele bebesse em paz, então ele caminhou – vagou seria a expressão mais adequada – até uma mesa no fundo do salão, onde um homem de moletom negro, com o capuz puxado sobre a cabeça, parecia ter adormecido.

O desconhecido estava visivelmente abalado. Exibia olheiras profundas de quem não dormiu noite passada, e trazia na expressão um profundo esgotamento emocional, um olhar lacrimoso característico de quem é inflexível e rigorosamente atormentado pela culpa, e rugas marcadas de intenso pavor.

Era, todavia, um homem jovem, pouco mais de trinta anos, e apesar da aparência miserável em seu rosto, vestia um terno de corte impecável, obviamente caro, que era a única coisa civilizada em sua figura.

Olhou vagamente para o homem de cabeça baixa naquela mesa, e como constatasse que dormia, puxou uma cadeira, e pediu ao servente que lhe trouxesse Bourbon.

Foi servido quase imediatamente, e tão logo a bebida chegou, o homem acendeu um cigarro, mesmo tendo sido alertado pelo servente de que era proibido fumar naquele recinto. O homem estendeu uma nota ao rapaz, sem ao menos olhar o valor ao tirá-la do bolso, e pediu que largasse a garrafa de uísque na mesa e o deixasse em paz pelo resto da noite.

O rapaz o deixou sozinho, e nem sequer fez menção ao homem que permanecia de cabeça baixa em sua mesa.

Por algum tempo, o desconhecido bebeu em silêncio, soltando longas baforadas de fumaça do cigarro para cima. Embora quase não se movesse, exceto para servir uísque no copo e levar o cigarro à boca, seus gestos eram extremamente nervosos.

Passados alguns minutos, o homem encapuzado soltou um longo suspiro, e o desconhecido o olhou depressa, pensando que tivesse acordado. Porém, o encapuzado não levantou a cabeça.

Depois de beber a segunda dose de uísque, e de apagar o cigarro no tampo da mesa, o desconhecido olhou com espanto para o relógio. Eram onze e vinte e três.

_Esperando alguém? – perguntou o homem de capuz, com a voz sussurrante, permanecendo de cabeça baixa, com o rosto escondido na penumbra.

O desconhecido teve um sobressalto e o encarou por um instante, assustado. Em seguida, baixou os olhos para o próprio copo.

_Não! – respondeu, evitando olhá-lo de novo.

Havia um cheiro inóspito e acrimonioso naquela mesa, ele percebia agora, e estava certo de que não vinha das cinzas do cigarro.

_Você parece nervoso – observou o encapuzado, sem fazer nenhum movimento ao falar.

_Não estou – negou o homem, virando a dose inteira na boca de uma vez.

_Está suando, sua voz está trêmula, e não parece ser por causa do álcool – insistiu o encapuzado.

O homem ergueu os olhos. Notou que não havia outro copo na mesa além do seu. Seja lá porque estava ali, o encapuzado não bebia.

_Por que está aqui? – insistiu, prosseguindo sussurrante, sem despir o capuz, nem erguer o rosto para a luz.

_Que importância tem? – respondeu o desconhecido, servindo-se de mais uma dose.

_Está sentado à minha mesa – lembrou-lhe o encapuzado.

_Se é esse o problema, vou para outra. – O homem pegou a garrafa e o copo e foi se levantando.

Sem mover um músculo, o encapuzado somente sussurrou, com petulância:

_Qual outra?

O homem olhou em volta. Todas as mesas estavam ocupadas, e em nenhuma delas ele poderia ficar sossegado, alheio às conversas em redor; exceto onde estava.

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