Capítulo 4

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Donna havia chegado atrasada para as suas aulas, tendo que correr para a sua sala, onde seus alunos a aguardavam. Ela era bastante querida por eles, as meninas até tentavam imitar o jeito meigo dela, enquanto os meninos a enchiam de elogios, e às escondidas chamavam-na carinhosamente de professora-gata. Sem precisar ser tão autoritária, conseguia que todos prestassem atenção nela, podendo explicar o conteúdo e ensiná-los sem dificuldade.

O sinal tocou logo que Donna terminou a correção das atividades. Esperou todos saírem da sala apressados, enquanto respondia os tchau profe e os acenos da garotada. Logo que ficou só, ela se dirigiu até a sala da diretora, que a recebeu emburrada pelo descumprimento de uma ordem direta: ir à sua sala antes do começo das aulas. Donna se apressou em se desculpar, alegou ter ficado presa no trânsito, ao que a diretora a orientou, de forma ríspida, a sair mais cedo de casa, o que ela assentiu em silêncio.

O assunto urgente e misterioso que a diretora queria falar era nada mais nada menos sobre o planejamento escolar, queria apenas que ela e outros professores do colégio revisassem o que tinham feito e comparassem ao modelo padrão que ela ia disponibilizar para eles, e se necessário, precisariam fazer algumas alterações.

Donna se despediu educadamente, mas saiu bastante irritada. Ela, assim como os demais professores conheciam bem o modelo padrão de planejamento do colégio, já que a maioria deles estavam ali nos anos anteriores. A diretora é que era novata ali, tinha começado esse ano. Além do mais, qual a urgência real do assunto? "Ela bem que podia deixar isso para o término das aulas ou avisar quando nos encontrar no corredor ou quem sabe através de um e-mail. Que absurdo!" — pensava. A conversa não demorara cinco minutos e era realmente desnecessária, mas ela não falou nada, pois contestar não fazia parte de sua personalidade.

Como nem Vincent, nem sua amiga Adelle haviam dado sinal de vida convidando-a para almoçar, ela dirigiu irritada e desanimada para o seu apartamento.

Donna chegou rápido, jogou a bolsa no sofá, foi à pequena mesa de canto onde estava o telefone e apertou para ouvir a secretária eletrônica. Seguiu para sua pequena cozinha, preparou um prato de comida e pôs no micro-ondas para esquentar, quando ouviu um recado que chamou a sua atenção. Correu para perto do telefone, para poder ouvir melhor.

"Senhorita Donna Dixon, aqui é a Michelle Denny, do departamento de recursos humanos da Universidade Americana de Los Angeles, queremos agendar uma entrevista, peço que entre em contato para escolher um dia e horário. Obrigada."

Sua alegria foi tamanha, que de imediato agarrou o telefone para agendar a entrevista. Logo foi atendida, e pela própria Michelle, que agendou a entrevista para aquele mesmo dia às 16 horas.

Desligou o telefone eufórica e mesmo tendo ouvido o micro-ondas apitar, vasculhou sua bolsa em busca do celular e ligou para o namorado.

— Oi, amor — disse ela antes que Vincent dissesse "alô".

— Oi, amor, está tudo bem? O que houve? — perguntou ele percebendo o tom eufórico da namorada.

— Tenho uma entrevista para hoje na Universidade Americana de Los Angeles.

— Que ótimo, amor, parabéns! Vou torcer para que dê tudo certo por lá — disse aparentando empolgação.

— Obrigada, amor, estou muito contente. Depois que eu sair de lá, vou direto para sua casa te contar em detalhes como foi...

— Donna, meu amor, aqueles resultados que fui buscar hoje não foram nada satisfatórios, vou ter que ficar até mais tarde no hospital, acho que passarei parte da noite ocupado!

— Que pena, amor! Nos vemos amanhã então.

— Me desculpe, amor.

— Não tem problema, eu entendo.

— Estou com saudades de você, minha linda!

— Eu também, amor, vou almoçar agora. Te amo.

— Te amo também — respondeu ele, desligando.

Donna também desligou. Largou o celular ali mesmo e correu para o micro-ondas, estava faminta e cheia de expectativas.

Vincent mentiu para Donna, iria passar a tarde e a noite toda em sua casa, mas não queria vê-la, não queria ver ninguém, apenas precisava ficar só e pensar.

Estava deitado em sua cama quando falou com Donna, mas depois de desligar, desceu as escadas e passou pela sala, seguiu para os quartos do fundo, os mesmos que sua mãe havia deixado para o uso dos vários empregados que tiveram. Foi para a última porta, que parecia ser de um quarto comum, mas era o porão, onde estavam guardadas muitas lembranças de sua mãe. Também era onde ele desenvolveu os seus trabalhos acadêmicos enquanto fazia faculdade, pois como dizia-lhe Jenna, ali ele podia fazer sua bagunça.

No começo da escadaria que levava à escuridão do porão, estavam os interruptores, que ele apertou fazendo se acender as luzes, clareando todo aquele espaço, onde tudo se apresentava de forma organizada, embora houvesse muitas caixas por ali. Mais ao canto, havia uma estante imensa, recheada de livros relacionados a biomedicina, à frente dela, havia uma escrivaninha e uma cadeira giratória.

Deu a volta na escrivaninha e se sentou na cadeira, girando-a e ficando de frente para a estante. Olhava-a compenetrado, parecendo hipnotizado.

Vincent precisava pensar, precisava decidir o que fazer, então ficou ali por quase uma hora, até que se decidiu: iria descobrir mais sobre a garota grávida e ia fazê-lo com urgência. Voltaria no dia seguinte ao instituto, caso a sorte estivesse do seu lado, Jaime Carter estaria lá.

Era apenas disso que precisava: que Jaime estivesse lá. O resto era por conta dele.

Vincent acordou cedo, tomou um banho rápido e vestiu seu confortável roupão de banho de cor azul marinho. Calçou as pantufas pretas que Donna havia lhe dado de presente há uns dois meses, em seguida, desceu até a cozinha para preparar o seu café da manhã.

Enquanto virava suas panquecas na frigideira com o auxílio de uma espátula, planejava mentalmente o que faria ao longo do dia, especialmente no período da manhã, cujos acontecimentos esperados por ele resultaria na eficácia — ou não — de seus planos.

Levou as panquecas para complementar as delícias que já estava na grande mesa da sala de jantar, uma das preciosidades de sua mãe. Ela acomodava doze pessoas e era trabalhada em madeira. Vincent não se lembrava de ter tanta gente em sua casa, a ponto de ocupar todos aqueles lugares, o máximo de companhia que teve naquela mesa foram uns três ou quatro colegas da faculdade que iam lá para estudar ou quando eram visitados por alguma amiga de sua mãe. No entanto, ele não abria mão de fazer suas refeições ali, não havia lugar mais agradável em sua casa para esse propósito, mesmo que só ocupassem sempre dois lugares, o dele e o de Donna. Algumas vezes, era posto um lugar a mais, no caso, quando vinha a melhor amiga do casal almoçar ou jantar com eles. No máximo, quatro pessoas se sentavam lá, quando Adelle trazia consigo algum namorado, o que foram muitos ao longo dos últimos anos.

A única certeza que ele tinha era de que precisava de maiores informações, para então planejar tudo nos mínimos detalhes. Queria saber mais através de Jaime, o próprio pai da garota, ele era o mais indicado para sanar as suas dúvidas, mas se ele não estivesse no instituto, iria sondar Clayton ou qualquer outro funcionário que pudesse lhe dar mais pistas sobre ela.

Ao terminar de tomar o seu café, subiu para o seu quarto, apanhou o celular do criado-mudo e discou rapidamente, ao que uma voz masculina e sonolenta atendeu:

— Nossa, chefe, por que tão cedo? Aconteceu alguma coisa no hos...

— Não, Jhoe, calma. Só preciso de uma informação, antes de subir para lá — interrompeu-o.

O Ceifador de Anjos: A Coleção de FetosLeia esta história GRATUITAMENTE!