Capítulo 11: Infantaria dos Pássaros Estrelares

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Camilo levantou cedo naquela manhã cinzenta e fria como todas as outras. Andou pela casa vertical, subindo e descendo as escadas como gostava: roupão quente sobre o corpo tatuado, munido de um café Terrestre forte misturado ao energético matinal, sempre a cumprir a função de deixá-lo mais ligado durante o dia. E que dia! Seria um dia cheio se tudo ocorresse como planejara.

Ele tentou ignorar a existência de Érico, o invasor de sua casa, e ainda não sabia ao certo por que ganhou mais uma hóspede, mas tinha certeza que aquilo lhe traria problemas. A dupla indesejada mal apareceu durante o dia, e para ele não poderia ser melhor.

O veterano levou sua mala de ferramentas para o galpão e ligou a esfera; ela tomou forma da 14-Bis, sua nave mais primorosa até então. E pensar que hoje ele se desfaria dela. Tudo bem, pensou por fim. Um artista não deve se apegar à sua obra. Deve sim seguir em frente.

Mais da metade do dia foi necessário para Camilo instalar cuidadosamente os cristais Carmesim. Uma vez instalados na Holotech, ela jamais se apagaria novamente. Era admirável a tecnologia dos hologramas, resistente a quase todo tipo de artilharia do Universo, além de viagens extensas. Demoraria muito para o núcleo do Holotech ter que ser substituído. Os cristais Carmesim possibilitariam combustível infinito e acesso aos Atalhos Galácticos, que permitiam saltar gigantescas distâncias em poucos minutos.

Assim que terminou a instalação, Camilo ligou para seus contratantes.

— Sim. A 14-Bis está pronta para voar. Podem passar aqui. No final do dia.

Quando desligou o ID Comunicador, Camilo jogou-se em seu banquinho do lado de fora da casa. Ele admirou a máquina que atraía lixo espacial, com os quais fabricava novas máquinas, depois para sua casa vertical como uma torre e para a cratera cercada de neve. Fez uma concha com as mãos e soprou para reter o vapor. Uma vida boa, pensou. Levava uma vida boa ali. Longe das loucuras do Universo. E longe de ferir as pessoas.

— E vocês estarão sempre comigo – o veterano balbuciou para as caveiras tatuadas.

Meia hora depois, Camilo despertou de um cochilo involuntário. Estranhamente, foi a completa quietude que o tirou de seu sono. Seria aquilo a definição de paz?

— CAMILOOO!!! – o grito estridente cortou qualquer possibilidade de um dia pacífico. Ele levantou-se de súbito.

A voz vinha do galpão. Maldito Érico. O que estava fazendo no galpão de novo?

Camilo caminhou aos tropeços devido ao sono interrompido e chegou ao interior do salão. Érico estava à frente da 14-Bis com os braços na cintura.

— O que foi agora? Eu tranquei o galpão. E você o abriu – disse Camilo, com a voz rouca pelo desuso da soneca.

— Relaxa, Camilo, eu decidi que a 14-Bis vai ter um uso melhor nas nossas mãos do que nas dos seus contratantes. Alopex e eu precisamos de uma boa Holonave como essa para a nossa incrível aventura – explicou Érico, como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Nós vamos ficar com ela.

Camilo forçou uma risada. O garoto havia enlouquecido de vez.

— E onde arranjou o dobro do que vou ganhar na venda dela? Por um acaso ganhou um motim? Encontrou uma Relíquia Rara? – Camilo colocou a mão no queixo, coçou a barba loira e quis ver até onde o blefe iria. — Eu estava dormindo. Se tivesse tentado me roubar, poderia ter conseguido.

— Ah, aí não ia ter a mesma graça. Eu tinha que te mostrar uma coisa antes.

Dito isso, Érico correu pela rampa para dentro da 14-Bis e Camilo sentiu a paciência se esvair. Ele fez questão de não correr, apenas caminhou a passos largos e puxou o cabo de sua arma do coldre, sempre guardada consigo nas costas ou na cintura.

Absolutos I - A Sinfonia da DestruiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora