Capítulo 7.1

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— Obrigada, pode ir, Evan — disse Donna em sua mesa, ao receber a prova terminada de seu aluno.
— Valeu, Donna, até amanhã — respondeu ele.
— Essa tá no papo, professora — disse uma aluna sorridente entregando-lhe o seu exame.
— Fico feliz, Alana, pode ir — respondeu a professora com um sorriso.
— Donna! — Um aluno lhe estendeu a avaliação com a mão trêmula.
— Henry! Não fique nervoso, meu querido, você é um aluno tão aplicado — disse demonstrando o seu carinho.
— Ah, professora, tenho dificuldades em aprender história, muitos nomes e datas para decorar. Estudo tanto em suas aulas, mas parece que minha cabeça dá nó, me desculpe. Vou nessa! — disse saindo.
Outros quatro alunos fizeram o mesmo, até que o sinal tocou. Donna olhou para a sala quase vazia, viu apenas uma garota, sentada ao fundo, ela não parecia nervosa, mas desesperada. A professora chamou por seu nome, alertando-a do término da aula.
Stephanie se aproximou, colocando sua avaliação sobre a mesa.
— Sté, você não respondeu quase nada. Também não pôs seu nome!
— Olhou-a, percebendo que a jovem, que não aparentava mais de vinte anos, corava envergonhada. — Stephanie, o que está acontecendo, pode me falar, quem sabe eu possa te ajudar!
— Não é nada, Donna — disse curvando-se na mesa para preencher a prova com seu nome, saindo apressada em seguida, deixando a professora preocupada.
****
Donna retornou para casa de táxi. Ao chegar, antes que abrisse a porta, viu a alguns metros dela a empregada de seus vizinhos lhe acenando, enquanto chacoalhava um tapete empoeirado. Ela respondeu ao gesto e entrou.
Guadalupe Rodriguez, mulher latina de vinte e sete anos, mudou do México para os Estados Unidos logo que casou. Depois de ter trabalhado na casa de muitas famílias, ela acabou sendo contratada pelo casal Kennedy, vizinhos de Vincent há mais de três anos, após comprarem a casa dos antigos donos, que já com idade avançada, resolveram mudar para Nova Jersey, onde
vivia o único filho.
Ao ver Donna entrar, Guadalupe ficou encarando a porta, pensando em como aquela mulher parecia ter uma vida plena e feliz, sentindo uma ponta de inveja. Por alguns instantes achou absurdo que enquanto algumas pessoas tenham de tudo, outras não tenham praticamente nada. A vizinha de sua patroa, por exemplo, era bonita, tinha uma carreira e dinheiro, além de
um marido incrível, enquanto ela, assim como muitas mulheres que conhecia, não tinham nada que chegasse próximo daquilo.
Seus devaneios foram interrompidos quando viu o carro da patroa estacionar. Largou o tapete no chão mesmo e correu para ajudar.
— Obrigada, Lupe, você tira o Mike da cadeirinha por favor, essa barriga me incomoda muito ao abaixar! — disse Pamela, uma mulher bonita de vinte e quatro anos, de estatura mediana, pele branca, cabelos longos e escuros.
— Nem pode ser louca de ficar abaixando com essa barriga, menina, é perigoso para o seu bebê — respondeu enquanto ajudava o garotinho de dois anos a descer do carro.
Pamela e o marido Alexander eram carismáticos, ele trabalhava como corretor imobiliário, enquanto ela se dedicava à sua casa e ao filho pequeno, além de esperar um segundo menino. Gostavam bastante de organizar churrascos e de receber amigos em sua casa, convidando até mesmo os seus vizinhos, com quem eram sempre muito hospitaleiros. Vincent e Donna não só aceitavam esses convites, como também os convidavam sempre que faziam algo especial.
— Lupe, você não acredita, eu ia comprar uns brownies e um café na Coffe Drinks para levar ao Alex no escritório, mas chegando lá, vi uma multidão, repórteres e um monte de policiais — disse Pamela ajudando a empregada a retirar as sacolas do porta-malas do carro.
— Minha Nossa Senhora de Guadalupe, menina, o que aconteceu?
— Não tive coragem de chegar perto, mas ouvi dizer que foi assalto.
Deve ter passado na televisão, tinha tantos jornalistas lá, Lupe, que deu até medo!
****
Donna sentou-se no sofá da sala com o seu prato no colo, sempre que ia comer sozinha não se sentava à mesa, hábito que manteve de quando morava sozinha em seu apartamento. Ligou a televisão e antes que tivesse tempo de mudar a programação, reconheceu no noticiário a cafeteria que frequentava com o marido.
— Essa quadrilha fez seis assaltos nos últimos quatro meses, levavam dinheiro e até mercadorias. O maior roubo foi de uma joalheria, onde até agrediram fisicamente dois funcionários. Infelizmente, apesar da polícia ser acionada no momento em que cinco meliantes assaltavam a Coffe Drinks, não conseguiram prender todos os assaltantes, não é verdade, Capitão? — perguntou o repórter para o capitão da polícia de Los Angeles
— Realmente, cinco meliantes assaltaram esse estabelecimento, infelizmente, três deles fugiram. Temos indícios para acreditar que a quadrilha conta com um número bem maior de integrantes, estamos tentando descobrir exatamente quantos e quais são os seus membros — respondeu o capitão.
Donna almoçava enquanto assistia, curiosa pelo desfecho da matéria.
— Vocês achavam que nunca seriam pegos? — perguntou o repórter para os dois homens que os policiais escoltavam, acompanhando-os a passos largos.
— Cai fora! — respondeu primeiro um homem claro, de baixa estatura e com expressão raivosa.
— Foi meu primeiro assalto, só fiz porque preciso de dinheiro — disse o outro homem, cujos traços revelavam sua descendência latina, era alto e forte.
Os policiais pararam, permitindo que o repórter entrevistasse o prisioneiro, que se mostrava interessado em falar.
— O senhor quer justificar o seu ato dizendo precisar do dinheiro? — perguntou o repórter, mostrando a indiferença que seu trabalho lhe exigia.
— Não quero justificar, mas estava desesperado, não sabia mais o que fazer — falou de cabeça baixa. — Cheguei aqui há dois anos, com minha mulher e meus dois filhos pequenos. Somos ilegais aqui, então tudo é mais difícil, eu tô desempregado há quase um ano, os bicos que consigo até dava pra por comida na casa, minha mulher ajudava com os bicos que fazia, mas
agora não tem muita força. Tava apertado, mas ainda dava pra se virá, até nosso menino mais velho, o Pietro, adoecer, medicamos como podia, até saber que ele tem leucemia e que seu estado é grave. O dinheiro mal dava pra comida, sem emprego e sem ter como pagar um plano de saúde, tamo vendo nosso filhinho morrer. Não aguento mais ver o sofrimento dele e a tristeza de minha Loretta, que nem pode passar nervoso, porque tá pra dá à luz a nossa
primeira menina — conclui com lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, mostrando sinceridade e desespero em suas palavras. — Eu só precisava do dinheiro pra pagar pro meu filho ser atendido feito gente no hospital e morrer com dignidade!
Donna sentiu seu coração apertar. Mudou de canal, buscando outras programações, quando viu que na maioria deles estava sendo reprisado a curta entrevista de Mario Romero, cujas palavras continuaram sendo reprisadas durante a tarde, noite e pelos dias seguintes, como um desabafo de uma das várias vítimas feitas por um sistema capitalista, do qual muitos estrangeiros almejavam fazer parte, mesmo que imigrando ilegalmente, ávidos pelo tão conhecido sonho americano.
Assim, não houve um angelino que não o tenha conhecido, alguns ficaram penalizados pela situação daquele indivíduo, enquanto outros passaram bem longe disso.

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