Prólogo

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Orgeila Bertonk ofegava. O desespero e medo lhe consumiam a alma. Não havia futuro para ele. Era tarde da noite e as ruas da cidade estavam desertas. A forte nevasca, extemporânea, talvez, era o que podia lhe salvar a pele, por mais algum tempo. Se ele não podia ver para onde ia, talvez seus perseguidores também não pudessem mais vê-lo. Correu para atravessar a larga avenida afundando as botas de feltro revestidas de couro peludo na neve fofa. Orgeila era um típico Durk, de cabelos louros, pele rosada e portador de uma farta barba que cultivava por muitos anos. Também era gordo, um típico funcionário público metódico e sedentário.

Afobado, tropeçou e tombou como um paquiderme cavando na neve sua silhueta rechonchuda. Logo, veio à sua mente a voz de sua tia, Fílgabe Bertonk, que havia sido sua tutora, dando-lhe uma educação muito rígida. "Orgeila!", gritou autoritária com o timbre agudo e irritante detestado por ele, "Quantas vezes precisarei repetir? Não mexa nas coisas dos outros!". Lembrar-se dos gritos da tia falecida como uma gravação era uma das coisas que Orgeila detestava sobre si mesmo.

A queda foi dura, mas, devido à neve fofa, nenhum ferimento ocorreu. O funcionário tateou a face sentindo as pontas molhadas dos dedos das luvas e sua expressão mudou do desespero para agonia e da agonia para raiva e frustração. Sua pele muito branca tornou-se rutilante.

- Droga! Estúpido! Idiota! - xingou a si mesmo, como de costume.

Ergueu-se e ficou de quatro tateando o solo logo a sua frente.

- Onde estão? Onde estão?! Malditos óculos, apareçam! - esbravejava como se o objeto que procurava não fosse inanimado.

Um facho de luz avermelhada cruzou o ar, formando um cone que coloria a neve, foi e voltou, passando próximo ao local onde o fugitivo engatinhava em busca dos óculos. Os perseguidores se aproximaram e um dos guardas alertou os companheiros - Ali! Acho que está ali!

Orgeila rosnou e levantou-se deixando os óculos para trás. O homem chorava de raiva e, recuperando a velocidade, terminou de cruzar a avenida. Perdera sua preciosa prova contra os conspiradores que agora o perseguiam. Odiou-se mais uma vez devido às suas más escolhas.

Horas atrás, antes de deixar o prédio do Ministério da Energia, ponderou sobre a melhor maneira de carregá-los e concluiu: "Na face! Usando-os de certo não os perderei de vista!". Na ocasião, achou graça de seus próprios pensamentos e riu-se. Assim como seu senso crítico fazia com que se recriminasse como um réu confesso diante do júri, seu estranho senso de humor fazia com que risse sozinho das piadas que inventava. Seus colegas de trabalho tinham-no como uma pessoa de difícil convivência e um tanto imprevisível, ora bem humorado e piadista, ora zangado e cuspidor de flechas e duras críticas.

"Depois dou um jeito de achar esses malditos óculos", pensou correndo com todas suas forças e superando as dores da forte fadiga que lhe apunhalavam o abdome e pulmões. Os guardas estavam em seu encalço novamente. Mais uma vez, Orgeila tomou o caminho errado. Entrou num beco e, aos poucos, notou que a neve diminuía de intensidade. Seu estômago torceu e o coração quase pulou pela boca quando constatou que era um beco sem saída. Era o fim da linha, só restava uma alternativa: o confronto.

Retirou, do pesado capote marrom, uma pistola. Era uma ING-700, da Ing-Hauff. Um modelo importado, compacto e raro de se ver em Durkheim. O precioso cristal da pistola, que pulsava emitindo um fraco brilho alaranjado, ficava na frente do gatilho, na parte inferior da arma, logo abaixo do cano. Isto a diferia das armas nacionais, maiores e de canos largos, cujos cristais, normalmente, eram localizados acima do gatilho, no bojo. Orgeila disparou a esmo em direção aos guardas. Por pura sorte, o funcionário fulminou um dos guardas atingindo-o em cheio no peito.

Os guardas carregavam fuzis e, diferente dele, eram treinados para o combate. No entanto, receberam os disparos do civil tomados pela surpresa, pois não imaginavam que estivesse armado.

O clarão, como o de um relâmpago, cegou Orgeila. Um dos guardas disparou uma carga elétrica, um rifle de raios, e atingido pelo intenso choque, os dentes travaram e todos os músculos se contraíram. Antes de morrer tostado, Orgeila ainda escutou mais uma vez a voz de sua tia enunciar um provérbio em sua mente, "A curiosidade matou o mago". O forte estalo, como o de um pequeno trovão, ecoou para fora do beco, quebrando o silêncio noturno. Mas, para a felicidade de Orgeila, foi também o som que silenciou a voz de sua tia de uma vez por todas.

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