ALYRIO COBRA DETETIVE

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O PRIMEIRO OSSO

Ouvir o nome daquele bairro a perturbava. Seu sangue fluía de forma diferente, sentia calafrios, o pensamento se esvaía. Naquela hora, Leilah era a médica de plantão. Havia o chamado. Desta vez não deixaria de atender.

A manhã recém se instalara, a claridade começava a se firmar. A ambulância seguiu, estacionou próxima a casa de onde viera o chamado. Enquanto dois enfermeiros se apressavam, Leilah saiu da ambulância, olhou ao redor. Existiam muitas casas novas. O local estava irreconhecível. Este pensamento a aliviou bastante. Respirou fundo, entrou na casa.

Um senhor de idade, já com a lividez da morte, resfolegava. Ela auscultou-lhe os pulmões: um chiado se esvaindo. Era preciso remover o paciente para um hospital com mais recursos do que aquela pequena unidade de resgate. Talvez ele não aguentasse chegar ao hospital.

Enquanto o enfermeiro colocava a máscara de oxigênio, Leilah preencheu formulários. Informou à mulher que se identificou como esposa sobre a remoção do paciente para o hospital. Os enfermeiros saíram para pegar a maca. Ao lado do enfermo, ela sentia a vida se esvaindo. Havia urgência em retirá-lo dali. Mais urgência ainda em sair daquela casa, daquela região da cidade.

Então, avistou uma criancinha de mais ou menos um ano que entrou no quarto engatinhando pelo chão. Usava um macacão claro de uma cor indefinida, resmungava alguma coisa. Pelos cabelos e brincos, viu que era uma menina. Leilah reparou que segurava um objeto e ao se sentar começou a mordê-lo, babando copiosamente. As gengivas deviam incomodar. A primeira dentição explodindo ela pensou e franziu o rosto.

Ao ver que a menina se aproximava com o objeto na mão Leilah se perguntou o que seria aquilo. A menina voltou a sentar-se, colocou o objeto na boca mastigando-o. Um fio de saliva pendia sobre seu peito. Em seguida engatinhou na direção de Leilah, com o objeto preso entre as gengivas. Leilah sorriu, abaixou-se, acariciou-lhe os cabelos. Ao se mover para frente, a criança fez uma careta, deu uma risadinha. O objeto caiu de sua boca.

Leilah pegou o objeto. Examinou-o. A menininha olhou para ela confusa. Esticou o braço, mas não teve coragem suficiente para se aproximar e retomar o objeto. Seu sorriso se transformou em choro. Em seguida, começou a berrar.

Leilah soube na hora que estava segurando um osso humano. Uma vértebra da coluna. A cor era de um branco desbotado e o osso estava completamente liso. As pernas de Leilah fraquejaram. Uma onda de adrenalina a mantiveram em pé.

A mãe da criança, que devia ser filha do idoso moribundo, viu a filha gritando e se aproximou. Pegou-a no colo. Olhou para a médica que parecia ignorar tanto a presença dela como a da criança. Estava fascinada com o que tinha nas mãos.

- O que aconteceu?- A mãe perguntou enquanto tentava consolar a filha.

- Onde ela conseguiu isso?- Leilah mostrou o pedaço de osso. - Onde ela conseguiu esse osso?

- Osso? - A mãe pegou o objeto das mãos de Leilah, examinou-o.

Quando viu o osso novamente, a menininha se acalmou e tentou pegá-lo, envesgando os olhos de tão concentrada, com mais baba pingando de sua boca aberta. Por fim ela agarrou o osso das mãos da mãe, ficou olhando para ele.

- Isto é um osso humano. - Leilah afirmou.

A menina colocou-o na boca, se pôs a mastigá-lo. Acalmou-se.

A mãe olhava a filha com ar de espanto.

- Vamos doutora. O paciente está mal. - O enfermeiro gritou segurando a porta aberta da ambulância, esperando por ela.

- Tem certeza de que é um osso humano? - Os olhos da mãe da criança se arregalaram.

- Absoluta... - Leilah respirava fundo tentando se manter em pé.

A mãe da menina arrancou o osso da boca da filha, jogou-o no chão. Passou a mão na boca da filha numa tentativa de limpá-la.

- Você tem ideia de onde ela o encontrou? Como veio parar na boca da sua filha? - Leilah sentiu um profundo arrepio percorrer todo o seu ser.

O pessoal da ambulância chamou mais uma vez. Leilah sentiu-se constrangida. Se o paciente morresse ali, não iria se perdoar. No entanto tinha urgência em saber de onde vinha aquele osso.

- Airton! - A mãe gritou várias vezes até que apareceu um garoto suado, com a roupa desalinhada.

- Isso aqui é seu? - ela perguntou ao menino apontando o osso.

- Sim. Esta pedra é minha. Eu achei. - O menino falou com certo orgulho.

- Onde? - Leilah perguntou, seus olhos completamente desnorteados.

- No buraco que estão fazendo lá adiante. - disse o garoto. - É uma pedra diferente. Achei e lavei. - Ele estava ofegante. Uma gota de suor escorria por seu rosto.

- Que buraco? - A mãe perguntou. Os músculos de seu rosto se contraíram.

O garoto olhou para a mãe. Ele não sabia se tinha feito alguma coisa errada, mas a expressão no rosto dela sugeria isso, e ele abaixou o olhar..

- Achei faz alguns dias. Guardei ao lado da minha cama. – Depois de um suspiro, ele voltou-se para a irmã. - Não sabia que ela havia pegado.

A mãe e a doutora se entreolharam.

- Você pode me mostrar aonde o encontrou? - Leilah pegou o osso. Usava todas as forças para manter a calma.

O enfermeiro se aproximou, falou alguma coisa no ouvido dela.

Ela fechou os olhos, balançou a cabeça.

- O paciente foi a óbito. - Leilah informou à mulher com a criança nos braços. - Enquanto você vai ver seu pai e acalma sua mãe, vou com seu filho ver o buraco aonde ele encontrou o osso.

Leilah fazia o possível para se aguentar em pé. Sua cabeça era um turbilhão de pensamentos. Ela daria o atestado de óbito, faria qualquer coisa. Naquele momento tudo o que precisava era ver de onde viera aquele osso.

O menino caminhou na sua frente. Ela caminhava com a força da adrenalina. Por sorte ele lembrava-se do local exato.

- Estava aqui, – ele apontou.

Era uma obra parada. Pelo desleixo, devia fazer algum tempo. A doutora foi até a parede de terra e examinou o local onde o menino disse ter encontrado o osso. Escavou a terra com a mão. Deparou-se com o que parecia ser uma mandíbula. O sobressalto foi tal que saliva se juntou em sua boa. Ela cuspiu no chão.

O menino estava meio desajeitado. Não estava entendendo muito bem o que estava acontecendo.

A doutora pegou-o pela mão. Os dois voltaram ao local em que estava a ambulância.

Ela ligou para a polícia. Agora tinham um corpo que precisava ser levado ao IML

Por toda a vida preparou-se para aquele momento. Mesmo assim, não conseguia administrá-lo com a devida calma. Jamais lhe ocorreu o esqueleto aflorando e crianças brincando com partes. Assinou o atestado de óbito. Informou sua equipe que não estava bem. Pegou o primeiro taxi que passou e foi para casa.

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