O GAROTO QUE SE TORNOU HOMEM

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"Muitos sonhos se passam na mocidade, porém como adultos a vida os leva para a responsabilidade."

HelgirGirodo

Dez anos se passam desde o casamento de Eduardo e Bella e o caçula dos Martins-Valença havia mudado muito. Agora, ele era um rapaz alto, mesmo tendo apenas 1,75m; forte – graças às constantes sessões noturnas de levantamento de halteres e as idas esporádicas a academia - e bonito, principalmente, por causa dos belos olhos azuis que tinha. Entretanto, o que mais demonstrava a maturidade era a sua volumosa barba negra, com alguns fios amarelados, que crescera sobre um protuberante queixo.

Numa ensolarada manhã de segunda-feira, Juninho seguia pelas estradas calmas da Rodovia BR-116. Sem se importar com os inúmeros radares eletrônicos, ele dirigia um avermelhado Fiat 500 Cabrio - ganhado após um Royal Straight Flush em um velho rico no pôquer - a duzentos quilômetros por hora e tudo ao som de Highway to Hell do AC\DC.

Como estava nessa velocidade, não demora a chegar á cidade onde trabalhava: Bragança Paulista. Porém ao cruzar a fronteira, vai aos poucos apertando o freio e com isso, seguindo mais devagar pelas ruas. Depois de passar rapidamente pelo Lago do Taboão, - cartão-postal bragantino - se aproxima do local no qual ia todos os dias. Mas, por ter um amor exagerado pelo conversível, seu dono, ao invés de estacioná-lo na calçada, o coloca em um estacionamento particular.

Após deixá-lo na entrada do pátio para que um dos manobristas o pusesse numa vaga, Juninho, antes de saltar do veículo, tira uma mochila junto a um pequeno guarda-chuva de dentro dele. Tendo as coisas que precisava, vai até o caixa do estabelecimento e lá paga a quantia de três reais e cinquenta centavos a uma jovem que parecia estar com muito sono. Recebendo o tíquete pelo serviço, sai finalmente de lá.

Alguns passos são dados sobre uma calçada de paralelepípedos até chegarem a uma pequena e simplória porta de vidro onde ao lado havia uma nova loja de roupas plus size. Fixado ao transparente objeto se encontrava um adesivo colorido com os seguintes dizeres: Rádio Bragantina FM – A RÁDIO DO SEU CORAÇÃO. Em seguida, um puxador metálico é empurrado e o lugar é aberto. Logo após seus pés adentrarem no recinto, doze degraus cobertos por uma borracha antiderrapante aparecem diante de si e como não queria se atrasar, os sobe apressadamente.

Desde os últimos anos de faculdade, ele trabalhava na estação como produtor artístico onde, além de criar brincadeiras para todos os programas, fazia acordos de patrocínio com empresas de entretenimento que traziam prêmios para sorteá-los e ainda por cima, trazia convidados para entrevistas: como duplas sertanejas sem glamour, ex-BBBs que não fizeram sucesso e cantores tentando retomar o estrelato. Embora ganhasse um ótimo salário – mil e quinhentos reais sem impostos -, o odiava, pois não o ajudava a realizar seu sonho de ser apresentador de TV. Uma coisa que começou desde que o mesmo assistia na infância aos programas dominicais noturnos do maior comunicador do Brasil.

Por ter corrido, chega ofegante ao QG\estúdio\escritório da rádio – chame como quiser, pois nem os funcionários sabiam qual nome escolher. Após tomar fôlego, caminha pelo amadeirado piso de taco, cruzando um estreito corredor. Passando pela primeira sala, ouve a gravação do programa de maior audiência: o BOM DIA, BRAGANÇA. O segundo local, o almoxarifado, se tornou o 'depósito de tralhas' que, além de ter os arquivos em fitas-cassetes e DVDs, documentação, produtos de limpeza e artigos para escritório, possuíam algumas peças de transmissores que jogavam ali esperando alguém chamar o técnico, mas ninguém fazia isso. Ele entra na terceira porta, o lugar onde a 'mágica' acontecia todo o dia.

Aquele escritório era bem movimentado, pois se via pessoas indo e vindo pelos corredores das baias, telefones tocando sem parar e lápis sendo apontados a todo o momento nos apontadores elétricos.

Para chegar a sua baia, a vinte e dois, Juninho tinha que passar pela primeira sala daquele lugar: a do dono da rádio. Tentando não ser notado, pois se constrangia com o excessivo afeto que o mesmo tinha por ele, passa de cabeça baixa. Mas, infelizmente, o veem e para piorar, chamam-no pelo alto falante:

- 'Senhor Janeci Júnior! Venha a minha sala!' – como havia outro Júnior na rádio, todos o chamavam com o nome que ele mais detestava.

Depois de não ter mais jeito, levanta a cabeça e junto ao riso constrangido faz um sinal ao seu chefe. Que pelo vidro, faz um sinal pedindo que o mesmo entre. Como estava próximo da porta, não demora muito para estar diante do objeto de branco. Em seguida, anuncia sua presença com batidas. Após a terceira, uma voz ecoa de dentro da sala:

- Pode entrar!

Com a permissão, ele vira a maçaneta redonda e entra no lugar onde seu chefe mandava e desmandava. Que era um cubículo rodeado por paredes laminadas da mesma cor da porta. Exceto a do centro que, além de ser de concreto, tinha a cor verde-flúor onde se encontrava um ar-condicionado que ajudava a resfriar aquele abafado local. Abaixo desse objeto havia dois pequenos quadros: um era a licença para o funcionamento da estação e o outro, o diploma da faculdade de Rádio e TV do senhor José Carmen Tralli, popularmente chamado de Seu Carminho.

Estendendo a mão, aquele senhor que aparentava beirar a casa dos sessenta anos, com bigode grosso abaixo do nariz e somente cabelos negros nas têmporas pede para que seu funcionário se sente. O mesmo atende ao pedido, escolhendo uma das duas cadeiras de assento e espaldar verde.

Parecendo um chefe da máfia de filmes policiais, Seu Carminho começa um discurso movendo sua poltrona de um lado para o outro:

- Bem, Senhor Janeci, você sabe que tenho um enorme apreço por sua pessoa. Mas, mesmo assim, resolvi avaliar seu desempenho na rádio e cheguei a uma conclusão.

Várias ideias passam rapidamente pela cabeça do rapaz, porém somente uma o deixa feliz: ser demitido. Mesmo assim, pergunta:

- Qual?

- Você será promovido a supervisor de produção e acrescentarei quinhentos reais no seu salário! O que acha?!

Esta notícia não havia passado pela sua cabeça há poucos segundos atrás. Mesmo assim, o deixa tão frustrado que o mesmo começa ter uma expressão cabisbaixa. Por isso, apenas diz:

- Não sei.

- Como assim 'não sei'? – o desânimo dele deixa Seu Carminho tão incomodado que o mesmo se levanta da cadeira para se aproximar dele. – O que houve, rapaz? Te dei cargo novo, mais dinheiro e você me faz essa cara de tacho?! – para animá-lo, dá uma tapinha em seu braço.

Para disfarçar seu descontentamento, Juninho diz a primeira coisa que veem a cabeça:

- Me perdoe, chefe! É que a notícia me deixou meio... bobo. Fiquei tão feliz e surpreso que não consegui dizer nada. – Seu Carminho não responde ao seu funcionário, apenas foca os olhos desconfiados nele.

O rapaz, aproveitando o silêncio na sala, pede tentando finalizar o assunto:

- Chefe, posso voltar ao trabalho? – ainda tendo o olhar desconfiado sobre ele, o autoriza com um sinal.

Tendo permissão, primeiramente pede licença ao chefe e após se levantar da cadeira, vai até a porta. Depois de abri-la, sai da sala voltando para o seu trabalho chato e maçante de todos os dias.

VOCÊ ME PERDOA? - A Viagem de Juninho e Tommy.Leia esta história GRATUITAMENTE!