O Fantasma da Vila

147 3 5
                                                  

Jen percebeu sua vida íntima assombrada por um terrível fantasma na mesma época em que o espírito atormentado de uma mulher voltou a despontar na vila. Mas, ao contrário da coisa medonha em seu lar, a aparição feminina que ronda as noites enevoadas do lugarejo ao menos conta com uma explicação: seria uma bruxa da terra – Arline, queimada viva há mais de 120 anos – vinda novamente do além-túmulo em busca de vingança. Segundo o folclore local, a alma aflita da bela feiticeira só encerra cada despertar com a morte de mais um consanguíneo do homem que ordenou sua execução. Não seria disparatado prenunciar certo receio em Jen – trineta e única descendente na região do tal caçador de bruxas – contudo ela não teme despiques de origem sobrenatural. Sua atenção está voltada para outro espectro, surgido sob seu teto. Este, sim, apavorante e – considerando-se o excelente desempenho da jovem como esposa – inexplicável: o fantasma da traição. O desejo de vingança da mandingueira morta-viva – imagina ela – não chega aos pés do que sente contra a mulher que corrompeu seu marido e extirpou a paz de sua vida conjugal. E jura para si: a traidora pagará a ofensa com a vida.

Sem parentes vivos conhecidos, Jen – ruiva esfuziante cuja beleza esconde um espírito obstinado – é a última herdeira do mais grotesco segredo familiar, reminiscência de uma era negra extinta nas cercanias da vila há cinco gerações. Orson, o Implacável – como era conhecido seu trisavô – governou o pequeno povoado com mão de ferro e foi o derradeiro dirigente de uma ordem fanática que admirava e aplicava na essência, sem vínculos com o Estado ou a Igreja, o Malleus Maleficarum. Sob sua casa – hoje habitada pela trineta – foi construída uma sala de tortura digna da Inquisição. Os poucos suspeitos que sobreviviam aos porões de Orson – em geral, mulheres acusadas de bruxaria – eram executados em praça pública. Atualmente, apenas Jen conhece o local e sabe manusear os bizarros artefatos em seu interior. Com alguns deles findará a existência nefasta da inimiga; e a incógnita sala de tormentos será a mais conveniente tumba. Porém, tudo deve ser feito com calma; as vinganças saborosas são sempre as bem planejadas.

Rebeca – alcunhada de Virgem Solitária, por fazer-se eternamente solteira e, assim como Jen, por não ter parentes vivos na vila – é a vítima marcada para reviver na carne – e na alma – os tempos do implacável Orson. Loira, de beleza apenas discreta, quase comum, a moça carrega outros atributos que a tornam capaz de rivalizar com Jen: embora plebeia, seu porte elegante insinua raízes nobres; o temperamento meigo, compreensivo, invariavelmente receptivo e desprovido de orgulho faz dela uma companheira ideal para conversas – graves ou triviais – confidências e desabafos; na alcova, sua voz angelical estimula o parceiro e, nos instantes de apreensão, serena-lhe o espírito. Jen não é tola. Sabe que os atributos nada escancarados de Rebeca sobressaem com a convivência e, então, enfeitiçam, enquanto predicados óbvios como os seus tornam-se invisíveis com o tempo, por mais atraentes que pareçam à primeira vista. Sabe também que a rival, quando a manipulação lhe convém, dissimula intenções sob um verniz de magnanimidade e desprendimento.

Qualquer morador da vila diria que Jen e Rebeca nutrem uma mútua e profunda afeição, mas a guardiã da velha sala de tormentos remói uma aversão velada pela amiga, que é trineta de Arline, a linda bruxa de cabelos negros e pele alva. Jen sempre preferiu manter as aparências. Mesmo (ainda mais) agora, sabendo-se traída. Bastaria desmascarar o adultério para seu desafeto cair em desgraça; no entanto, ela está decidida a fazer justiça com as próprias mãos em um desenlace à moda antiga, plano cujos adjetivos torpes também guardam um lado prático: sendo ele cruel, Jen desanuviará sua alma e remediará com sangue e dor sua dignidade ferida; sendo ele silente, a moça manterá seu casamento inabalado e irá conservar-se imaculada aos olhos do marido. Rebeca, por sua vez, não só pagará muito caro a injúria, como assistirá do inferno às caraminholas brotando contra o seu caráter na mente do amado. Jen sorri. O mais justo e sucinto adjetivo para traduzir sua trama é: maquiavélica.

O Fantasma da VilaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora