I - Alfa

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"É uma grande tolice o 'conhece-te a ti mesmo' da filosofia grega. Não conheceremos nunca nem a nós nem aos outros. Mas não se trata disso. Criar o mundo é menos impossível do que explicá-lo."

— Anatole France

— Então pegue todas as suas tralhas e saia daqui! — Nice se assustou com o tom de voz utilizado por sua mãe. Logo depois, ouviu o elevador se abrir, enquanto xingamentos eram proferidos tanto de dentro como de fora do apartamento.

— Acho que ele não vai voltar dessa vez. —  Pedro disse, após um intervalo de silêncio. O irmão caçula de Eunice geralmente não demonstrava seus sentimentos, mas o pesar podia ser sentido suas palavras e visto em seus olhos claros. Ele se importava.

— É. — Ela suspirou. Encostou a cabeça na porta, e quase instantaneamente, ouviu o barulho da chave entrando na fechadura. Não teve tempo de pensar antes de perceber que a porta se abria e cair no chão junto aos pés de sua mãe.

— Você estava ouvindo nossa conversa de novo, Eunice? Já te pedi para ficar no seu quarto quando eu e seu pai discutirmos. — Elena murmurou. A garota observava que a face da mãe, antes jovial, agora contava com rugas na testa e olheiras sob os olhos. Ela parecia ter envelhecido 10 anos nos últimos 10 meses.

— Mas assim eu só ia viver lá, mãe. — Nice arrependeu-se imediatamente de suas palavras após ver a dor trespassar o rosto da mulher mais velha.

— Vá para o seu quarto. Agora. — Elena passou as mãos pelos cabelos ruivos-quase-grisalhos-depois-de-seis-meses-sem-pintar e ajudou a filha a se levantar do chão de madeira clara.

— O que aconteceu? — A voz de Pedro soou atrás de Eunice, e ela virou-se exatamente à tempo de vê-lo descendo as escadas com um ar angelical. O pirralho havia disparado para seu quarto assim que ouvira o som das chaves com muito mais destreza do que a irmã mais velha demonstrara.

— Não faz a sonsa. — Nice começou a caminhar em direção à ele para chegar no segundo andar. Não conseguiu evitar sentir raiva do garoto loiro ao seu lado, que escaparia do sermão que provavelmente seria passado assim que sua mãe recuperasse a compostura.

— Mas eu sou homem! — Ele afirmou com toda a inocência que uma criança de 11 anos podia ter. Não que ele fosse, de fato, inocente.

— Mãe, ele estava ouvindo junto comigo! — Nice anunciou em tom realmente ofendido, e viu a mulher ruiva balançar a cabeça em negação.

— Não invente mentiras sobre seu irmão, Eunice. — Elena respondeu com rispidez.

— Não me chame de Eunice! Já não basta ter me dado esse nome, precisa ficar me lembrando dele toda hora? — A menina gritou enquanto subia os degraus rapidamente. Empurrou de leve seu irmão com o quadril quando passou por ele. Ela tinha certeza que a mãe a olhava com reprovação, mas ela não se importava. Não viraria ara trás para verificar nos olhos de Pedro o doce sabor da vitória.

Andou pelo longo corredor com decorado com pinturas caras — que, reparando bem, eram realmente horríveis — e entrou em seu quarto. Pôsteres de atores, cantores, bandas e fotografias tiradas por ninguém menos que ela mesma enfeitavam as paredes pintadas de verde. Pisou com cuidado por entre as partituras, poemas e letras de música que estavam espalhados no chão. Passou na frente do espelho, e tomou alguns segundos para se admirar. Por mais que já houvesse ouvido algumas vezes que era uma garota bonita, não conseguia se sentir como uma. Os olhos castanhos, o corpo um pouco acima do peso, a pele clara e o cabelo descolorido — sinceramente, a única parte de si mesma que se permitia apreciar — não faziam um conjunto bonito.

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