Capítulo 5.2

Começar do início

Christine e Samuel já tinham adormecido, mas ela despertou ao ouvir um barulho do que parecia ser vidro se quebrando no térreo. Receando a entrada de algum animal, acordou o namorado contando-lhe o acontecido e pedindo para que ele fosse averiguar. Samuel levantou sonolento, estava apenas de cueca, mas foi assim mesmo, pois a temperatura no interior da cabana era agradável, mesmo em meio àquela mata.

Se passaram quase dez minutos e Samuel não retornou para o quarto, ela o chamou, mas não obteve nenhuma resposta. Começou a ficar preocupada com o namorado, o que a fez descer, mesmo com o frio, usando apenas um transparente baby dool de cor rosa, para procurá-lo.

— Samuel, está tudo bem, amor? Responde, estou ficando assustada — disse alto, começando a descer pela escada e antes que chegasse ao fim dela, viu a porta totalmente aberta e o namorado caído de bruços no chão, sem pensar, correu para ele aos gritos.

— Meu amor, fala comigo. Pelo amor de Deus, Samuel, o que houve? — falou histérica, enquanto tentava virar o rosto dele para ela. Percebendo que o fio do telefone estava enrolado no seu pescoço, começou a afrouxar, para que ele pudesse respirar. Levou alguns segundos para que Christine percebesse que não estava só, levantou rápido e virou-se assustada.

— Quem é você? Por que fez isso com ele? — disse olhando para o homem encapuzado. Ele estava em pé, de costas para a escadaria, além dos seus olhos sombrios, nada nele estava à mostra e Christine sabia que nunca os tinha visto. — Leve tudo o que quiser, mas não nos machuque, por favor — ela balbuciou, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto, sentia o ar faltar, um clima pesado, a sensação de que a presença daquele homem representava o seu fim, algo nele lhe inspirava essa certeza.

— Vou levar o que quero. E o que eu quero, está aí — disse em tom grave, dando passos lentos, enquanto apontava para a barriga de Christine.

Ela sentiu como se um buraco se abrisse embaixo dos seus pés e a engolisse inteira. As palavras dele soaram como uma apunhalada em seu coração. Sentiu a cabeça latejar, enquanto tentava entender o que aquelas palavras significavam. Ao ver que ele se aproximava, sem tempo para pensar mais, atravessou rápido a porta da cabana, indo em direção à escuridão

Christine não tinha para onde ir, era ficar na cabana e enfrentar aquele homem, muito superior em tamanho e em força comparado a ela, ou então, adentrar a floresta. Achou melhor fugir dele, já que ela era demasiadamente pequena para enfrentá-lo, além do que seu estado não ia colaborar.

Ela tentava correr, mas era difícil, pois não conseguia enxergar quase nada estando dentro da mata, além de estar descalça e seminua. Parou cansada, sentindo pontadas na barriga, além das dores dos arranhões que os galhos haviam lhe causado, o sangue lhe escorria quente, mas ela sentia muito frio. O medo que Christine sentia era devastador. A respiração também lhe faltava, já que tendo um corpo tão miúdo, seus órgãos internos se apertavam por causa da sua gravidez. Ficou apoiada entre as árvores atenta aos ruídos, enquanto mantinha uma das mãos em sua barriga com a intenção de proteger o seu bebê, que mexia insistente dentro dela.

Por alguns minutos, só ouviu a vida noturna existente na floresta, até que identificou passos pesados quebrando gravetos e amassando as folhas secas do chão. O desespero aumentou, entendeu que se ele deixou para agir durante a noite, certamente estava preparado com equipamentos que o auxiliasse em sua captura, talvez por isso deixou a porta aberta, para ela sair e ele caçá-la. Christine não sabia o que pensar.

Começou a caminhar devagar, tentando não fazer barulho, o que percebeu ser impossível. Precisava correr, e correu. Embora o coração estivesse acelerado, a adrenalina que tomou conta de seu corpo a fez ir mais longe.

Enquanto corria, ela sabia que não se afastava o suficiente, pois sentia que ele ainda estava no seu encalço, pelo barulho que fazia, ele nem sequer se dava ao trabalho de correr. Eram passos rápidos, mas apenas passos.

Christine implorava a Deus mentalmente para que a ajudasse, para que ou aquele demônio desistisse ou para que alguém aparecesse e a salvasse. Perdida em seu desespero, sentiu uma forte dor em seu pé ao pisar em uma pedra, que a fez cair.

A dor e o cansaço que sentia era tanta, que não tinha mais forças para se levantar, correr ou lutar. Ouvia os passos dele se aproximando, não adiantava fazer silêncio, ela podia sentir que ele a via. Christine chorava e implorava por piedade. Ele não respondia.

Ele estava ali, em pé, olhando-a com um olhar frio que ela não tinha como ver, mas podia sentir. Christine ouvia as batidas do seu próprio coração, além da sua respiração ofegante. Queria implorar mais, até chorar se fosse possível, mas o bisturi que ele segurava com uma das mãos a fez calar, como se esse seu último gesto pudesse mudar o seu destino.

— Sabe, Christine, eu sempre admirei Shakespeare por mostrar com palavras um pouco daquilo que as pessoas realmente são. O rosto enganador deve ocultar o que o falso coração sabe... — Ele sorriu. — Não sei se é capaz de entender a profundidade disso, mas é brilhante, não acha?

Christine não respondeu, nem sequer compreendeu suas palavras. Também não teve tempo para tentar entender o seu significado, pois as mãos dele foram rápidas sobre ela.

Ele a fez gritar alto, fazendo com que os pássaros que dormiam tranquilos acabassem alçando voo.

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