Pepperoni

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Era uma noite fria de inverno, e poderia ser como qualquer noite em que se sente frio, mas para Peter não era, e ele não estava com frio. Peter estava sentado em sua cadeira no escritório da imobiliária em que era corretor. Tinha um livro qualquer nas mãos e tentava ler. Já passava das sete horas, era uma quinta-feira, havia discutido em casa com Suzana, sua esposa e terminou voltando para o escritório. Trouxera apenas a roupa do corpo e a maleta que costumava levar, que por acaso, abrigava um único livro, que no momento não lhe interessava em nada. Peter só pensava em Suzana. Havia sido há menos de uma hora a discussão, contudo ele já não lembrava o motivo. Nós também não saberemos esse motivo, mas sabemos que em uma noite de quinta, no inverno, Peter saiu de casa após brigar com Suzana.

O corretor tinha 39 anos quando isso aconteceu, e já estava com Suzana há 3. Era sua segunda esposa, a primeira foi Ana Paula, por quem foi traído. Sim, foi durante uma viagem de trabalho que teve de fazer sozinho. Inesperadamente, precisou voltar antes do prazo, e acabou encontrando sua mulher na cama com outro. O tempo apagou as suas mágoas, nada melhor que o distanciamento, e ele nem pensava mais em Ana Paula. Peter só pensava em Suzana, e na sua discussão. Por sorte, tinha a chave do escritório, que já estava fechado, se não teria que ir para a casa de seu irmão insuportável, e definitivamente não seria uma boa ideia, além do que, havia esquecido a carteira em casa, e não estava disposto a voltar para lá. Não agora. Pensou então que ficar no escritório seria a melhor opção.

As iluminação da sala estava desligada e Peter, ainda com o livro aberto, não enxergava uma só letra, mas isso não importava, pois ele não estava lendo mesmo. A penumbra acolheu o escritório com a noite, e pelas frestas das persianas semifechadas, vagavam apenas alguns flashes de luz do poste na rua. Decidiu não acender as luzes e deixou se levar pela escuridão. Os seus pensamentos também obscureciam-se, o faziam vagar pelo mais profundo de seus sentimentos. Parecia que sua mente não estava dentro de sua cabeça e vagava pelo espaço, desmaterializada. Lembrou-se de quando tinha 15 anos, e de como amou Larissa, sua colega de classe. Por que diabos ele lembrou de Larissa em um momento como esse? Talvez porque ela era linda, a garota mais linda que Peter já tenha se apaixonado. Sua pele cor de canela e olhos verdes enfeitiçavam o jovem em pleno furor de seus hormônios da puberdade. Contudo ele nunca havia se declarado. Sempre tímido, perdeu várias oportunidades de fazer isso. Desistiu quando viu Larissa matando aula para encontrar-se com um cara mais velho do lado de fora do Colégio. Todos sabiam disso. Todos menos os pais de Larissa. Sentiu que havia perdido o que nem sequer havia ganho, então Peter guardou os sentimentos para si. Ela, no entanto, era vista aos amassos com esse elemento, e não só por outros alunos, mas por professores e funcionários da escola. Ninguém ligava. Peter ligava. Ele queria ser esse cara, queria tocar os cabelos de Larissa, queria morder seus lábios, e esfregar seu corpo no corpo de Larissa, mas nunca fez isso. Após as férias, não viu mais a garota. Soube tempos depois que ela havia descoberto estar grávida naquele ano e seus pais se mudado para outra cidade a fim evitar comentários, mas isso também não vem ao caso. Na realidade Peter não sabia ao certo por que havia se lembrado de Larissa agora, pois ele amava Suzana, e reiterava: amava demasiadamente Suzana.

Fechou o livro, disse um palavrão e o enterrou na sua gaveta. Seus olhos agora expressavam o vazio, contemplavam o nada. Segurando uma caneta, começou a riscar um circulo por cima do outro em um pedaço de papel. Peter não admitia que tinha medo. Medo de ver repetir-se com Suzana o que aconteceu com Ana Paula. Mas sua esposa não o havia traído, disso temos certeza. O motivo da discussão sequer foi esse, mas Peter pensou nisso. Pensou que ela o poderia trair um dia. Suzana chegou a conhecer sua ex-mulher, elas trabalharam juntas por um curto espaço de tempo na Escola onde lecionavam. Suzana é professora de inglês, e Ana Paula, Português. Antes da traição e de se mudar para Lisboa, passaram um mês trabalhando juntas. Peter ia buscar Ana Paula de carro todos os dias, em frente à escola nos fins de tarde. Em uma dessas, acabou dando carona a Suzana, que tinha um compromisso próximo de onde moravam. Pelo retrovisor do carro, Peter conheceu os olhos cor de mel da colega de sua esposa, e por um instante sentiu-se atraído. Mas ele não traiu a esposa, sequer desejou fortemente Suzana. Isso foi só depois. Não a traição, e sim o desejo. Contudo os olhos cor de mel no retrovisor ficaram registrados na mente do corretor imobiliário naquele dia, e até hoje não existem olhos mais lindos dos que os de Suzana. Não exitem mesmo. Nem mesmo os de Carol, a secretária do escritório, que tem olhos verdes como esmeraldas, e encantadores cabelos ruivos. Na primeira semana após flagrar Ana Paula com outro, Peter saiu com Carol. Não a amava, mas sabia que a secretária tinha uma queda por ele há tempos, e terminou convidando a moça para sair, muito mais por vingança do que por desejo, diga-se de passagem, apesar dele não admitir. Transaram na mesma noite, em um motel barato bem perto de sua antiga casa, após jantar no restaurante favorito de sua agora ex-mulher. Todavia, logo na segunda-feira, Carol e Peter pareciam dois estranhos no escritório. Nunca mais saíram, e também não contaram a ninguém sobre sua aventura. Talvez Carol não tenha gostado, talvez Peter não tenha gostado. Talvez os dois não tenham gostado. O fato é que não saíram mais, nem transaram de novo.

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