19 - Bebida combina com confissão?

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Quando temos melhores amigos sempre fazemos várias coisas juntos, principalmente aquilo que irá terminar em algum tipo de confusão. Já havia perdido as contas de quantas vezes eu e Henrique fizemos besteira. Por isso pareceu tão normal quando fomos comprar as bebidas – sim, isso não é certo, mas Rico conseguia se passar por um cara mais velho e na maioria das vezes ele conseguia as bebidas.

Fomos andando para casa com uma sacola com vodka e refrigerante em seu interior. Enquanto voltávamos eu pedi várias vezes para que meus pais não voltassem para casa ou então que eu não me esbarrasse com Pedro. Iria ser demais para mim.

Chegamos em casa e eu coloquei uma música para tocar. Seria como se fosse uma festa particular. Enquanto o tempo passava e eu entornava o copo – devagar, pois eu queria estar com a minha dignidade intacta para confessar tudo para ele – o meu corpo era consumido pela ansiedade e pelo medo. Eu estava com medo do que poderia acontecer e dava vários risinhos nervosos. Henrique estava tranquilo como sempre. Em nenhum momento ele me falou de Clarissa e eu sabia que ele estava fazendo um esforço grandioso para não falar nada para mim sobre a sua mais nova obsessão amorosa.

- Eu acho que já vejo o mundo rodar – ele me disse rindo. Ele estava jogado no chão do meu quarto.

- Eu ainda estou bem. – Disse a verdade e deitei do seu lado. Virei meu corpo para o lado dele e fiquei observando o seu perfil. Ele olhava para o teto e uma mecha de seu cabelo batia em seus olhos. Sua nuca ficava a mostra e ele parecia a coisa mais linda que eu já havia posto os meus olhos. Até que ele virou para mim e sorriu.

- Você está querendo deixar que eu fique bêbado sozinho? – Ele zombou de mim.

- Não, lógico que não. – Menti.

Eu só queria que o álcool me desse um pouco de coragem e não estragasse qualquer chance que eu tivesse de fazer algo descente. Como é que eu iria fazer uma declaração para ele? Bom, eu não sabia. Lembrei das declarações que aconteceram no colégio. Nenhuma delas me dava esperança para esse enorme passo em minha vida. Bom, o enorme passo em minha vida deveria ser o vestibular, futuro emprego, salvar a política do Brasil que estava louca, mas, naquele momento, eu estava vivendo o momento mais importante que eu poderia imaginar. Certo que eu já tive vários primeiros momentos mais importantes de toda a minha vida, mas cada um deles foi único. E aqui estava eu. Estávamos nós.

Como se fosse a coisa mais natural do mundo eu levei a minha mão até aquela mecha que estava em seu olho e a retirei de lá fazendo um casual carinho em seu rosto. Depois voltei a minha mão para mais perto do meu corpo como quem não queria nada. Só que meu corpo estava alarmado e a minha mente não parava de me xingar de idiota por ter feito algo estúpido, porém, eu estava feliz. E essa felicidade transparecia em meu rosto.

- Valeu! – Ele disse. – Do jeito que eu estou acho que iria meter o meu dedo no olho e ficar cego. – Dei uma risada junto com ele. – Sabe, eu acho que eu estive mais na sua casa do que na minha em todos esses meus anos. Mas isso é uma coisa boa. Eu gosto de nós dois juntos, Ló.

Ótimo. Eu quero nós dois juntos!

- Eu também, Rico.

- Você se lembra quando nós pintamos todas as paredes da sala de aula quando éramos pequenos?

- Sim! E fizemos as outras crianças fazerem a mesma coisa, pois nós não queríamos receber a bronca sozinhos.

- Isso mesmo! Um por todos e todos por um. Nós já sabíamos muito bem que unidos éramos mais fortes. Você entende?

Ele pegou a minha mão e ficou segurando ela enquanto olhava para mim.

Meu coração pulsava tão forte que eu tinha certeza de que era possível sentir minha pulsação até mesmo pela minha mão que ele estava segurando.

- Agora mesmo eu estou vendo várias Lorenas. Várias Lorenas maravilhosas estão olhando para mim, mesmo eu sabendo que estou segurando somente uma mão. Isso é muito louco.

- Foco, Rico! – Eu sentei e o fiz fazer o mesmo.

- Uoouuuu – Ele estava muito zonzo.

Ficamos poucos centímetros um do outro e eu podia jurar e conseguia sentir a sua respiração tão apressada quanto a minha. Seus olhos estavam caídos por conta da bebida. Eu não queria que ele desviasse a conversa. O papo era nós dois juntos. O quanto era legal nós dois juntos. A mão dele na minha. Ele tinha que focar nesta conversa.

- Toda essa história de nós dois juntos é o que eu quero, Rico.

Ele segurou a minha outra mão e continuou olhando para mim.

- Nós estamos assim por minha culpa. Você não tem anda a ver com tudo o que está acontecendo comigo, mas, você entenderia se eu te contasse.

- Você vai finalmente me falar o que está acontecendo? – Ele estava aliviado.

- Sim, eu irei te contar. E eu estou muito nervosa para isso. – Olhei para o chão e senti meu estômago revirar e uma quentura se instalar em meu ser.

- Ótimo. Eu já não aguentava mais, Ló.

- Você sabe que nós dois somos grandes amigos e que eu não tenho nenhuma lembrança de minha vida sem você. Somos grudados e nos damos super bem.

- E aprontamos muita coisa também.

- Certo, aprontamos sim. E ainda temos muitas coisas pela frente. E é isso que está me fazendo ficar assim, Rico. Nós.

- Nós?

Reunindo toda a coragem que a pequena quantidade de vodka estava me dando eu o abracei. Podia sentir o seu cabelo encostando na minha orelha e o vai e vem que o seu tórax fazia quando ele respirava. Ele passou seus braços por mim, me abraçando também.

- Eu acho que estou gostando de você, Rico. Eu sempre gostei de você como amigo, mas você está me deixando louca. Eu nunca havia te visto dessa forma. Você consegue entender o que eu estou querendo dizer? – Eu esperei que ele falasse algo, mas ele só balançou a cabeça confirmando. – Eu realmente sinto que eu desejo ficar com você de uma forma além da amizade e isso está me deixando louca. Principalmente porque você está gostando de Clarissa. Eu sei que você está gostando dela, mas eu não podia deixar de falar isso para você. Ou eu falava ou então eu iria terminar fazendo de tudo para me manter afastada de você. E, Rico, o que eu menos quero em toda a minha vida é ficar longe de você.

Aos poucos fui me separando dele e olhei para o seu rosto. Ele estava olhando para mim, mas não falava nada. A sua mão estava em minha cintura.

- Você está realmente me deixando louca. - Digo em um sussurro. 

Quando estamos prestes a beijar alguém nós olhamos para a boca da pessoa. Nós desejamos a boca da pessoa. Já sabemos o que poderá acontecer, os movimentos, o resultado de tudo. Mas a expectativa de saber como é o toque da outra pessoa, as sensações que ela pode proporcionar, a explosão prestes a acontecer quando você finalmente consegue sentir a outra pessoa. Tudo isso faz valer a pena.

Ele continua olhando para mim e eu me aproximo para o que pode ser o nosso primeiro beijo.

Só que ele me coloca de lado segundos antes de vomitar tudo o que estava no seu estômago.

- Ahhhh Rico! Que merda!

Eu saio de perto dele enquanto ele termina de destruir o meu quarto, meus planos e a minha declaração.


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