Capítulo 2

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Saí de casa disposto a esfriar a cabeça, embora isso fosse muito difícil. Caminhei em direção a uma praça perto de casa e fiquei pensando em tudo o que estava acontecendo. Não podia ficar ali parado e aceitar tudo isso de novo, precisava tomar uma decisão o quanto antes.
Não queria mais permanecer naquele lugar e aguentar a rejeição e falta de consideração que meu pai transparecia, mesmo depois de me esforçar tanto para que notasse que não sou um garoto irresponsável como sempre diz. Tudo que eu queria era desaparecer, sumir para nunca mais ter que encarar ele novamente. Pode até ser um pensamento infantil simplesmente fugir ao invés de continuar e enfrenta-lo, mas por muito tempo tentei chegar a um consenso com ele e sinceramente, foi tudo em vão.
Tudo isso era frustrante. Lembro-me como era pouco antes da morte da minha mãe, o quanto éramos próximos e ele me tratava completamente diferente. E lembrar de tudo isso, embora eu já não seja mais uma criança, ainda é doloroso.
Passei a tarde inteira à procura de um lugar para ficar, mas não encontrei nada que atendesse ao que procuro. Não sou muito bom quando se trata de tomar decisões, pra falar a verdade, sou péssimo. Foi então que lembrei da pousada da Dona Mariana, a tia da minha melhor amiga, Alice – que já não via há alguns dias —, desde o fim do Ensino Médio. Alice é a minha melhor amiga desde meus oito anos. Morávamos próximos um do outro e sempre estávamos juntos, mas depois ela acabou se mudando. Nos reencontramos já no ensino médio, até então quase não a via, mas a nossa amizade nunca mudou. Depois que André, um grande amigo meu faleceu, ela foi um grande apoio para mim. Ele era um grande amigo de infância, passamos anos das nossas vidas juntos estudando na mesma escola, até que, quando crescemos, tomamos rumos diferentes. Mas infelizmente, o caminho pelo qual ele seguiu não teve volta. Aos dezesseis anos ele teve uma parada cardíaca graças a uma maldita overdose por drogas. Ver meu amigo naquela situação foi muito triste e embora já não fossemos tão próximos como antes, a morte dele foi um choque para mim. Foi Alice que esteve do meu lado, sempre que precisei.

A pousada não ficava tão próximo de onde estava, o que significava que teria que pegar dois ônibus se não quisesse pagar uma nota para ir de táxi. Então claro, eu peguei dois ônibus. Cheguei na casa de Dona Mariana e toquei a campainha, por algum motivo minhas mãos suavam de ansiedade, a ideia de recomeçar minha vida era incrivelmente diferente para mim. Foi Alice que abriu a porta sorrindo, me recebendo com um abraço.

– Achei que não viria mais nos visitar – diz Alice, me puxando para dentro.

– Depois que comecei a trabalhar minha rotina tá um pouco corrida... e só faz alguns dias que não venho aqui, não exagere – Sorrio, acompanhando-a até a sala.
– Tanto faz. Já estava com saudades. – Sorriu. – E se acostume, a rotina ainda vai piorar quando começarem as aulas na faculdade. – Sentou no sofá e me puxou junto. - Já estou avisando pra minha tia que quando começarem as aulas as coisas vão mudar um pouquinho por aqui.
– Espero que eu também dê conta de tudo. Nunca imaginei que eu passaria também. Você tudo bem porque é estudiosa, mas eu... até hoje estou sem acreditar.
– Deixe dessas coisas – falou, dando uma tapinha no meu braço – Você é muito inteligente, não fala bobagem. Sempre soube que ia passar.
– É, mas não sei se vou aguentar até o fim do curso, apesar de gostar muito, já ouvi horrores sobre ele.
– Você e seus pessimismos... Se é o que gosta, siga em frente, cabeça dura – disse, dando um tapinha na minha cabeça. – Veio aqui por algum motivo em especial?
– Na verdade, sim. Preciso falar com sua tia.
– Minha tia?
– É, sabe... eu decidi sair de casa.

Ela arregalou os olhos, me olhando boquiaberta. Já esperava por essa reação se tratando da Alice.
– Quê? Mais por quê?
– As coisas na minha casa vão de mal a pior, eu já cansei de ficar naquele lugar. Tenho meu próprio dinheiro, estudo, sou independente... posso muito bem morar sozinho.

Ela me encarou séria, tinha quase certeza que não era a favor da minha decisão.
– Tem certeza que isso é o melhor que pode fazer? Por que não tenta conversar com seu pai?
– Não repita isso, eu já tentei mil vezes, você sabe. É ele que se afasta. Não quero mais ficar um minuto sequer naquela casa. – Talvez tenha sido rude, pois Alice me olhou sem jeito, envergonhada.
– Desculpe... Então veio aqui para perguntar a minha tia se tem algum quarto vago?

– Sim. Sabe, eu prefiro economizar... e como vou morar sozinho, não preciso de tanta coisa. Por isso achei que vim até aqui seria a melhor opção.
– Temos um quarto vago sim, vou chamar minha tia. Ela está meio distraída lá na cozinha... – disse, dando uma risadinha e voltando ao normal, Alice tinha o dom de mudar de humor de uma hora para outra.  – Vem cá! – Concluiu, me puxando pelo braço.

Ela me conduziu até a cozinha na ponta dos pés, e foi nesse momento que vi uma cena extremamente constrangedora. Dona Mariana escutava alguma música – a qual deveria ser muito animada por sinal – com fones de ouvidos e balançava seu grande "traseiro" para lá e pra cá, sem se importar quem poderia aparecer ali de repente. Em falar de Dona Mariana... ela é uma senhora robusta e morena, de marcantes olhos escuros como os de Alice. Apesar de passar por muitas dificuldades desde a morte do marido, sua alegria era marca registrada por onde quer que passasse. Dona Mariana enfrentou grandes barreiras em sua vida desde cedo. Perdeu os pais ainda menina e um tempo depois, sua irmã Ana, mãe de Alice, faleceu. Como o pai de Alice a rejeitou e foi embora da Cidade, ela passou a cuidar dela como se fosse sua própria filha. Ato de uma mulher realmente admirável.

Alice ria sem parar da tia, parecendo não se importar de estar sendo ignorada pela mesma, quando a chamava.
– Tia! – disse enquanto ainda ria, tirando os fones de ouvido da mesma.

Dona Mariana se recompôs e olhou para nós, deixando transparecer seu rosto envergonhado.
– Ah, desculpe, querido! Que distraída sou – falou, completamente sem jeito.
– Tudo bem Dona Mariana... – digo, ainda rindo. Era impossível segurar o riso depois de ter visto aquela cena.

Ela deu um sorriso sem graça.
– Quanto tempo menino Ricardo, faz tempo que não vem nos visitar!
– Só alguns dias Dona Mariana. Mas em breve estarei por aqui sempre.
– Vai se mudar para cá com seus pais, querido? – perguntou com um grande sorriso. Dona Mariana era gentil até na sua maneira de falar, uma mulher com uma autoestima invejável.

– Não... e foi por isso que vim até aqui. Decidi morar sozinho.
– Sozinho? – Olhou de mim para Alice, surpresa. - Tem certeza disso?
– Sim - digo sucinto. – E queria saber se a pousada que tem aqui ao lado não teria algum quarto disponível. Alice me disse que sim.
– Claro que tem, e será um prazer tê-lo conosco. Mas está tudo bem na sua casa?
– São os mesmos problemas...
– Tudo bem – respondeu, gentilmente.
– Então posso vir amanhã?
– Claro! Alice e eu vamos preparar seu quarto para que esteja tudo pronto amanhã. Agora, por quê não fica para jantar conosco e aproveita para falar melhor o que está acontecendo?
– Claro que sim. Se não for incômodo...
– Claro que não. – Interrompeu-me, toda animada – Minha sobrinha gosta muito de você e quem é amigo da minha Alice, é meu amigo também.

Alice sorriu, meio sem graça.
– Então Rick, que tal jogarmos aquela velha partida de xadrez? – sugeriu, sorridente.
– Ótima ideia – respondi.















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