a impessoalidade das cartas enviadas

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Sabe que, por patético que pareça, eu guardei comigo uma cópia da carta que mandei. Talvez motivada pela boa e velha síndrome da auto-tortura que jamais, nunca, sob hipótese alguma, me deixaria em paz. E, por patético que pareça, meses depois eu pude observar, numa das muitas releituras que tenho feito, quão impessoal eu fui, querendo ser outra coisa (passional, para os íntimos).

Não usei todos os clichês do amor palpável: não abri nem fechei meu coração, nenhuma vez sequer. Não te jurei o mundo, eternidade, soberania sobre este corpo (que já não mais a mim pertence). Não prometi esperas incalculáveis até o próximo reencontro. Tampouco cifrei EU TE AMO ou cognatos no pé da folha.

E com mais orgulho do que eu pretenderia expressar, não me vali dos clichês do nosso amor: é mais que isso; estou com medo de ter saudades; queria que o tempo parasse; você me mudou.

Tenho recebido dos correios tudo menos uma carta-resposta. Contas, encomendas, cartões de felicitações, boletos, e mais algumas contas. É o preço que se paga por não se valer dos clichês quando mais se precisa deles.

Acho que você tem razão. Eu sou uma covarde.

Eu, NósLeia esta história GRATUITAMENTE!