6 - Melhores Momentos

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Uma Amber relutante me deu cobertura para sair de casa sem ser vista por Phil ou qualquer outro guardião. Vestíamos nossas capas de veludo para nos misturar facilmente com a penumbra da noite entre as arvores. Por um momento caminhando ao redor das casas, pensei ter ouvido um farfalhar de folhas logo atrás de mim como meu próprio rastro me seguindo, mas Amber geralmente era muito silenciosa. Já escalando e atravessando os portões para o outro lado, ouvi o sussurro de minha irmã e olhei no topo de uma das arvores. O medo e a dúvida estavam lá com ela, só o que pude fazer foi apenas abrir meu melhor sorriso e transmitir nele toda minha confiança. Desta vez nada daria errado.

Ansiedade estava se tornando um sentimento corriqueiro a cada vez que me aproximava daquela arvore. Diminui os passos o procurando por toda parte a vista, mas aparentemente ele não estava em lugar algum. Apoiei-me na arvore e passei a pensar que tivesse chegado cedo demais.

- Como você pode voltar para me ver? – disse descontraído, saltando por entre os galhos e caindo habilidosamente em minha frente – Não sabe que tenho fama de traiçoeiro?

Vendo-o agora, seu sorriso e seus olhos, tive a certeza que meu olhar adquiriu um brilho diferente.

- Sou uma verdadeira guardiã ou não? – segui sua brincadeira, porém, Eliot não sorria mais.

- Tão diferente de mim...

Murmurou ao se afastar sutilmente, recuando alguns passos sem desviar o olhar.

- Não somos tão diferentes assim. - sorri tímida, avançando um passo.

- É como se você tivesse asas e eu garras – riu sem humor – Não passamos muito longe disso.

Realmente havia comentários por todo o reino e provavelmente pelo mundo místico de que eram anjos contra demônios quando guardiões e servidores se enfrentavam em batalhas. A aparência deles era sombria, suja, cheias de cicatrizes numa pele que parecia feita de borracha negra. Tinham um caminhar cheio de malícia e maldade, todos com exceção de Eliot. Para mim era evidente não só em sua aparência, mas também em todo seu jeito de se portar. Aquele servidor a minha frente carregava mais luz em si do que muitos guardiões da vida.

Esperei para ouvir sua voz novamente, mas como ele não o fez eu quebrei o silêncio.

- Vejo além disso. – estiquei a mão e toquei seu rosto pela primeira vez, sua pele era macia contradizendo suas feições duras – Espero enxergar o que há dentro de você.

Ficamos estáticos pela minha ousadia, porém, nenhum de nós dois quis recuar. Era apenas algo novo que me cativava, assim como cada nova descoberta em todo encontro. Enquanto me perguntava como era possível sermos inimigos em primeiro lugar, Eliot passou a me fitar com o cenho franzido.

- O que você fez?

- Do que está falando? – foi minha vez de recuar um passo.

- Você se machucou – disse com convicção.

Usou um tom grave em sua afirmação, parecendo mais imponente. A feição em meu rosto mudou para surpresa quando finalmente entendi que ele se referia a minha pequena farsa.

- Fiz o necessário. – respondi firme.

- Necessário para colocar sua vida em perigo?

- Foi para nossa segurança.

- Conte-me exatamente o que aconteceu – me repreendia com o olhar.

Não poderia saber como ele sequer desconfiou que algo acontecera comigo e não perdi muito tempo tentando descobrir, apenas aceitei o fato de que nada entre nós nunca aconteceria como na maioria dos casos. Contei então tudo o que se passou desde nosso último encontro até minha conversa com Amber, não escondendo nada, principalmente a forma como eu me sentia. Presa, num lugar onde eu tinha certeza que não pertencia. Sorrio ao ouvi-lo dizer que sentia o mesmo.

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