TRÊS: Alma Deseja

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A DESCONFIANÇA QUE OUTRORA DEMONSTRARA PELAS INTENÇÕES DE ANDREI CHERMONT se foram assim que assinei o contrato e levei meus parcos pertences ao palacete naquela mesma noite. Deixou que o mordomo me mostrasse os aposentos, com seu porte formal e autômato. Também não me importunou enquanto eu me acomodava em minha nova morada.

Fui convidada para a ceia em companhia do meu anfitrião na aconchegante sala de jantar e, posteriormente, a uma conversa impessoal na sala de estar. Éramos dois jovens apreciando a companhia um do outro, deixando as formalidades para outras ocasiões. Descobri que Andrei era apenas alguns anos mais velho do que eu, porém, muito mais vivido.

Eu me portava tranquilamente e ria de maneira escancarada de seu bom papo. O francês se mostrou muito aprazível. Também foi uma oportunidade de sabermos um pouco mais um do outro. Com seu sorriso contagiante e seu olhar quente sobre mim, eu quase me sentia pertencente à mansão. Quase.

Andrei era uma ótima companhia. Não havia maldade em suas palavras. Sua desenvoltura galante e seus sorrisos espontâneos me fizeram sentir menos solitária no mundo, pela primeira vez na minha vida.

A saudade de minha mãe e irmã me abateu. Eu queria que elas estivessem ali também, vivendo aquele instante perfeito. Meus dedos procuraram a fina corrente no meu pescoço e seguraram firmemente o crucifixo. Percebi o instante em que os olhos de Andrei captaram meu movimento involuntário.

— Me diga, Giulia, você é religiosa? Tem o costume de frequentar a igreja aos domingos?

Vacilei na resposta por um segundo.

— Fui criada por uma mãe temente a Deus, então, sim, eu vou às missas, regularmente.

— Mas você acredita nEle? — insistiu.

— Se eu não acreditasse, seria leviana — respondi firme.

Um sorriso esnobe lhe escapou dos lábios, me deixando apreensiva. Fiquei observando-o sorver mais um gole de sua bebida à espera de uma explicação para seu questionamento. Mas Andrei permaneceu em silêncio. Compreendi sua atitude e me indignei.

— Você não crê em Deus e caçoa de minha fé — exclamei, tão surpresa, que minha afirmação teve o peso de uma acusação.

Andrei não olhou para mim, fixando-se em seu copo enquanto o rodopiava entre os dedos. Senti um abismo se formar entre nós.

— Por que eu acreditaria se Ele foi capaz de abandonar o homem em uma das piores carnificinas que este mundo já viu?

Dio mio! — horrorizada, tapei a boca com a mão, contendo um guincho.

Meu anfitrião francês me contou um pouco sobre os horrores cometidos pelos nazistas alemães contra os judeus em campos de concentração, em uma guerra que já durava anos, devastando países da Europa e fazendo até mesmo os Estados Unidos declararem guerra contra Alemanha, Itália e Japão.

— Estamos vivendo tempos difíceis, pequena Giulia, sob uma inquisição.

O que Andrei pensava a respeito de Deus me assustava. Pobre homem sem esperança! Como seguir em frente daquela maneira?

— Eu aprendi que Deus é amor, portanto, Ele está somente onde há o amor, Andrei. Deus não tem nada a ver com o ódio.

— E isso O torna omisso? — rebateu, ainda sem virar seus olhos em minha direção.

— Nem sempre Deus nos atende como desejamos, sou a prova disso. Se hoje estou viva e aqui na sua casa, é porque o amor me salvou, mesmo quando eu não via como esse milagre pudesse acontecer.

[DEGUSTAÇÃO] Mexa ComigoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora