DOIS: Anjo Rebelde

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NA QUARTA-FEIRA DE CINZAS, APÓS O ALMOÇO, PEGUEI UM BONDE PERTO DA PENSÃO onde estava hospedada e me dirigi ao endereço que o senhor Andrei Chermont havia me dado, em nossa despedida na tarde anterior. Desci na asfaltada, limpa e bela Avenida Paulista, onde mansões e palacetes se enfileiravam.

Encontrei o número da residência, me deparando com uma construção imponente de dois andares, com grandes janelas, varanda e escadaria. Subi os degraus nervosa. Bati à porta com o trinco pesado de ferro e ouvi o som ecoar pelo interior da mansão. Um homem elegante, trajando vestes formais, se curvou diante de mim assim que a madeira se abriu com um ranger.

Bonjour, mademoiselle Giulia — fui recepcionada com aquele mesmo idioma. Compreendi somente meu nome, portanto, não falei nada. — Monsieur Andrei a aguarda em seu escritório — o senhor fez um gesto amplo e gracioso com o braço, me convidando a entrar. — S'il vous plaît, siga-me.

Eu precisava aprender aquela língua! Enquanto flutuava sobre o piso de mármore brilhante um passo atrás do empertigado jovem, me senti como a Cinderela: suja, esfarrapada e maltratada, adentrando o palácio do príncipe.

Assim como gata borralheira, eu não havia permitido que meu coração fosse maculado pela maldade, mantendo-o puro e a salvo das marcas permanentes em minha pele. Também possuía a magia nos pés.

Os móveis tinham aparência cara e durável. Havia quadros pendurados em todas as paredes. Imaginei que o senhor Andrei deveria ser mais abastado do que me deixou saber. Provavelmente tinha uma família grande e muitos criados naquela enorme casa. Esperei que mais alguém surgisse, porém, quanto mais avançava, mais vazia e fria a residência se tornava, deixando-me curiosa.

O polido senhor parou diante de uma porta dupla, trabalhada como uma obra de arte. Deu uma batidinha e a escancarou, deixando à vista uma imensa biblioteca. No centro do cômodo, à mesa de madeira de lei Andrei ganhou minha atenção. Era a primeira vez que o via sem a maquiagem de palhaço. Não conseguia desgrudar meus olhos da visão diante de mim. O olhar azul saltava no rosto moreno e a boca parecia esculpida nele, ganhando vida em um sorriso amplo. Ele era mais jovem e muito mais bonito do que eu imaginara.

— Senhorita Giulia, seja bem-vinda à minha casa! — ele me cumprimentou ainda à distância, erguendo-se e aproximando-se com aquele andar elegante. — Merci, Frederick. — Nem ouvi o senhor se retirar.

Observei Andrei admirada, enquanto caminhava ao meu encontro. O queixo rasgado e másculo estava coberto por uma penugem de barba por fazer, que lhe caía muito bem. O cabelo preto estava bem alinhado e alisado para trás, brilhantes de laquê.

As mãos do produtor envolveram a minha, roubando-me da inércia na qual sua presença me deixou. Aquele mesmo choque, como da primeira vez, se repetiu, percorrendo meu corpo. Sorrindo, Andrei se curvou e beijou o dorso, com a presteza de um galante. Senti meu rosto corar tanto de vergonha quanto de prazer.

Andrei me guiou até uma poltrona confortável, próxima à mesa, e se sentou ao meu lado, largando minha mão lentamente.

— Aceita um chá ou um café? — ofereceu, prestativo, mas a última palavra me causou mal-estar, que me fez estremecer involuntariamente.

— Não, obrigada, estou bem — respondi rápido, evitando seu olhar que parecia ler minhas expressões e conhecer meus pensamentos.

O dançarino se recostou em sua poltrona, cruzando as pernas com elegância e chamando a atenção para meus modos desajeitados. Tentei imitá-lo, sentando-me reta, com as pernas juntas e as mãos sobre os joelhos. Andrei acompanhou meus movimentos como se os aprovasse. Sorriu, discretamente, e correspondi com timidez.

[DEGUSTAÇÃO] Mexa ComigoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora