UM: Coração Selvagem

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A PORTA BATEU COM FORÇA E ESTREMECI JUNTO COM A PEQUENA CASA DE MADEIRA. Eu me encolhi feito uma criança amedrontada a cada passo trôpego em minha direção, que soava mais forte e mais alto. Apertei os olhos, desejando me tornar invisível. Non oggi, per favore, supliquei a Deus que me poupasse naquele dia.

Como sempre, nada aconteceu para impedi-lo e meu pai, fedendo à bebida barata como em todos os dias nos últimos dez anos, me encontrou no canto escuro do quarto de dormir. Eu mal podia chamar aquilo de esconderijo.

— Aí está te, sua vadiazinha! — Mãos rudes e calejadas pelo trabalho no campo me agarraram pelo cabelo e arrastaram-me aos tropeços até o centro pouco iluminado do cômodo. A saliva fétida respingou em meu rosto quando ele gritou. — Como ousa recusar um pretendente, anche o figlio do signore Luigi, o dono da venda? Lui é o melhor partido que te vai conseguir, ragazza burra! Dio foi molto cruel comigo, me cercando appena de gente estúpida!

Mantive os olhos cerrados para não encará-lo. Quando o fiz anteriormente, apanhei mais porque ele achou que eu o estava desafiando com o olhar. Papai gostava de nos ver submissas, cabeças baixas, olhos pregados em seus sapatos imundos e, de nossas bocas, preferia ouvir somente sì, signore.

Ele não esperou que eu respondesse aos seus insultos, ou mesmo justificasse minha recusa à proposta de casamento, mas que me subjugasse ao único destino que me oferecia. E, mesmo quieta, eu não conseguia aceitar. Não queria me casar com o filho de um imigrante italiano, que era comerciante e adquiriu certo prestígio no centro urbano da cidade.

Eu queria brilhar em um palco, me cobrir de lantejoula e encantar pessoas que precisavam de um pouco de diversão para sorrir. E, assim, conseguir meu sustento e minha dignidade sozinha, por meu próprio esforço e talento. Talvez eu fosse apenas uma grande e tola sonhadora.

Papai sempre foi severo, mas, com a queda do café e o início do cultivo da cana-de-açúcar nas fazendas do barão onde trabalhávamos, encontrou consolo na bebida, o que tornou sua brutalidade ainda pior. E sua fúria se voltava contra mim constantemente.

Foi o que ele fez naquele momento, sem piedade do meu pranto contido e engasgado na garganta. Meu corpo já registrara marcas incuráveis e meu coração não suportava mais tanta dor e humilhação.

Porém, aguentei em silêncio outra vez. Enquanto ele descontava sua raiva em mim, se esquecia de mamãe, que apertava a cabeça da minha irmã mais nova entre os braços ossudos, soluçando nervosamente. Coitada, tão fraca para nos proteger! Eu precisava ser forte por todas nós.

Não podia permitir que a desesperança, enraizada em suas vidas de maneira tão profunda, contaminasse meus sonhos e meu futuro e, principalmente, não aceitaria que a pequena Giuliana fosse arrastada para aquele mar de tristezas, decepções e sofrimentos.

Quando a sessão de tortura acabou, eu só queria correr para bem longe, inclusive das mãos cuidadosas de minha mãe, que tentaram tratar as novas feridas em minha pele. Eu me desvencilhei delas, com raiva de sua passividade, segurando o choro desesperado.

Não suportava mais que se compadecessem da minha agonia. Precisava que aquilo parasse. Eu me embrenhei entre as plantações de cana da fazenda. As folhas longas e verdes cortaram meu rosto em filetes finos e doloridos, mas não importava. Foi lá que permaneci até aquela rebeldia, que teimava em se infiltrar na minha mente, se dissolvesse. Era culpa daquela selvageria indomável dentro de mim, como papai costumava dizer, que aquela aflição não cessava.

Meu pai esperava prosperar na América, o que terrivelmente não acontecera. Ele sempre foi ambicioso e enérgico, mas nunca conseguiu pagar a dívida ao dono da propriedade na qual vivíamos, por financiar nossa passagem de navio para o Brasil, portanto, ainda trabalhava para o barão.

[DEGUSTAÇÃO] Mexa ComigoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora