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O Feriado sombrio....

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"É feriado!!!!"

A irmã gritava na cabeça de Erika loucamente.

"É feriado, é feriado, é feriado, é feriado, é feriado!"

Parecia uma daquelas crianças chatas de filme. Criança chata de filme era certamente a definição que melhor se adequava àquela figurinha irritante naquele momento.

"É feriado, feriado, FERIADOOOOOOOOOOO."

"Você nem vai pra escola, que diferença faz ser feriado?"

"Eu vou ficar com minha irmãzonaaaaaaaaaaaaaaa."

Sorriso Colgate. Aquela pirralha era fingida demais pra uma irmã mais nova e temporona. Filha de um acidente de percurso (camisinha estourou, há-há), Lourdinha era tudo o que Erika odiaria numa criança: pequena, chata, mimada. Super protegida. Ninguém podia falar nem uma simples palavra negativa para ela que já virava caos. E se Erika fizesse algum comentário: "Você não lembra como era chata na idade da Lourdinha".

Mas o pior da irmã mais nova era o que Erika chamava de "guarda compartilhada": os pais usavam a irmã mais velha como desculpa para poder fazer as coisas sem se preocupar com a criança. Naquele final de semana, tinham decidido aproveitar o feriado prolongado para ir a um hotel chique com tudo incluído.

"Não me voltem prenhes.............." Erika brincou, levando um sopapo no vão das ideias.

"Não fale assim conosco!"

Não falaria, mas Erika não seria capaz de aguentar outra Lourdinha em sua vida. Se os pais aparecessem com outra criança, ela pediria asilo em qualquer lugar no universo. De preferência algum lugar bem longe, tipo galáxia de Andrômeda. Andrômeda era galáxia, né? Era...

"Faz pipoca?"

"Ainda é de manhã, você nem terminou o café da manhã direito..."

"Porque quero pipoca."

"Não é assim que........."

"QUERO PIPOCA QUERO PIPOCA QUERO PIPOCA QUERO PIPOCA....................."

Educar é obrigação dos pais... educar é obrigação dos pais.... Erika repetiria isso como mantra. Não era ela quem deveria convencer a irmã a se portar. Tinha dito não, não tinha sido ouvida, iria fazer o quê?

"Doce ou salgada?"

Os olhinhos de Lourdinha se arregalaram de felicidade:

"Você faria qualquer uma das duas????????"

"Só pedir..."

"E se eu pedir as duas..."

"As duas..."

Não, Erika não sabia fazer pipoca doce, mas derramou um tanto de groselha no produto feito e parecia ótimo. Bom o bastante pra enganar a irmã, que sentou no sofá de televisão com a bandeja de pipoca doce-e-salgada-tudo-junto-misturado e ficou assistindo os programas favoritos.

E como os programas favoritos da pirralha eram chatos. Erika achava sinceramente que nunca teria que assistir aquelas... coisas. Era certeza de que seu QI estava se escorrendo pelos olhos enquanto ouvia o que a irmã assistia. Resolveu aproveitar eu ela estava interagindo com a televisão e ir para o quarto ler um pouco e...

"Fica comigo, é feriado e eu quero ficar com a minha irmãzona!!!"

O ficar não era interagir, veja bem. Era presença física, pura e simplesmente. A menina se completava sozinha. Enquanto a adolescente sentia seu cérebro virar patê vendo aqueles filmes retardados e.....zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

"ACORDA, ACORDA, ACORDA, ACORDA, ACORDA, ACORDA, ACORDA..........."

Talvez alguém estivesse roubando a casa, mas era só Lourdinha querendo que a irmã acordasse.

"Que foi?"

"Você vai perder o final do episódio."

"Nossa, que chato..."

"Você não está gostando?"

A pergunta era quase que com a resposta....

"VOCÊ NÃO GOSTA DE MIM....."

O choro veio fácil, e com ele a vontade de Erika de morrer. Conseguiu fazer a irmã calar a boca com um abraço e uma desculpa esfarrapada:

"Gosto, sim, desculpa, é só que eu estou com fome, já é hora do almoço..."

"Podemos comer só sobremesa?"

"Claro!"

Quem pariu que crie. Erika não tinha parido, então se a irmã queria comer só a sobremesa, comece. Se queria passar o dia na frente da TV, passasse. Se quisesse brincar de massinha no sofá da sala sujando tudo, sem probl....

"Só não suje tudo que a mamãe vai ficar brava."

"Mas eu e você limparemos depois e..."

"Não, tem que tomar cuidado porque vai que mancha..."

"Mas... mas...."

O olhar era de choro, mas o que veio não foram lágrimas...

"Você... está..."

... era vômito....

".... bem......."

A pergunta foi feita sem muita pretensão de resposta. Era óbvio que Lourdinha não estava bem, e com ela o sofá da sala, parte do tapete e a vontade de Erika de viver.

Aquele pareceu ótimo motivo para ligar para a tia-ou-avó-ou-qualquer-adulto-responsável-mais-próximo para cuidar da menina. "Lourdinha está passando mal, não sei o que comeu de errado" (era mentira, e se não fosse bastaria só olhar o conteúdo mal-cheiroso ali que seria fácil de descobrir). O adulto cuidaria das duas até os pais voltarem, preocupado com a rebenta mais nova. A mais velha? Ah, mas era a mais nova que estava doentezinha, tadinha. Se coubera a mais velha limpar o estrago feito pela outra, era pra ajudar a irmã doente. Em resumo, sua obrigação...

E, na segunda, final de feriado, os amigos contavam felizes sobre o que tinham feito nos dias de folga. Enquanto Erika, com olhar de peixe morto, apenas dizia...

"Tive o feriado mais sombrio da minha vida!"


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