QUINTA: MARCO! POLO!

993 37 5


Pra contar essa história, eu vou ter que voltar vários anos da minha vida. Ok, talvez não tanto, até porque eu não sou tão velha assim, mas eu confesso que isso já tem, pelo menos, uma boa década completa.
Aconteceu no verão de mil novecentos e noventa e nove, durante uma tediosa festa de uma prima minha, de quinze anos, na piscina da grande casa do pai dela. Foi lá que eu, aos onze anos, tive meu primeiro e inocente romance.
Ele era dois anos mais velho que eu. Seus olhos azuis e seu sorriso de lado me faziam corar, mesmo a distância. Ele era primo da minha prima e, como eu e outros primos, não rinha idade suficiente para participar da parte 'cool' da festa de aniversário, com roupas de banho e bebidas proibidas pra gente (e tecnicamente pras pessoas da festa cool também, mas fazer o quê? O mundo é injusto quando se tem onze anos). O pai dela achava que eles só estavam tomando suco... O estoque todo de suco estava sendo servido pra gente, eu já tinha ido ao banheiro três vezes por causa disso.
Eu estava vendo toda a festa da escada de entrada da casa e me perguntando se eu acharia, em três anos, que aquela festa era legal porque, até agora, eu não via nada de divertido quando, para minha surpresa, ele parecia estar se aproximando de mim.
Sinto-me idiota quando eu me lembro do quanto eu fiquei corada e sem jeito quando eu o vi correndo em minha direção, os cabelos balançando ao vento, as bochechas coradas pelo esforço e o típico sorriso sapeca no rosto acabaram provocando coisas em mim, sensações, até então, estranhas e desconhecidas ao meu corpo: Meu coração parou por alguns segundos, antes de voltar a bater com tanta força que eu achei que ele ia sair pela minha boca; minhas bochechas começaram ganhando um tom rosado, mas acabou ganhando um tom cada vez mais avermelhado; minhas mãos começaram a soar e coisas estranhas acabaram acontecendo na minha barriga, como se estivesse cheia de bichinhos querendo sair por todos os lado e isso me provocava calafrios. Pensando muito bem, ele ainda provoca isso em mim, talvez em escalas menores ou talvez eu apenas tenha me acostumado com as coisas esquisitas. E, além do mais, hoje eu sei o que elas significam.
Foi quase em câmera lenta que ele se aproximou (ou ao menos foi isso que pareceu pra mim, embora ele estivesse correndo) e eu acho que meu queixo deve ter sofrido ações da gravidade, mas eu não me lembro realmente dessa parte porque eu estava em um certo tipo de transe esclarecedor: A festa da minha prima seria legal, em três anos, se esse garoto estivesse comigo lá.
'Oi' Ele me disse assim que estacionou à minha frente.
Minhas bochechas devem ter corado ainda mais quando eu pude ver seu sorriso com muito mais detalhes, agora que estava de perto. Pra mim, parecia um anjo sem asas, mas não era isso que os pais diziam. Na verdade, eu acredito ter ouvido alguém (provavelmente meu pai, logo depois de ter sabido o que havia acontecido àquela tarde) que ele era um demônio sem escrúpulos. Eu nem ao menos sabia o que era "escrúpulos" naquela época.
'Oi' Eu disse. Suspeito que tenha gaguejado, mesmo sendo muito difícil gaguejar em monossílabos.
Ele sorriu maravilhosamente com o meu cumprimento, como se fosse algo muito mais complexo e bonito. Lembro-me de ter piscado algumas vezes antes de me acostumar com a beleza de tal coisa.
'Então...' Ele começou e eu me surpreendi olhando fixamente para os lábios dele. Eu devia estar parecendo totalmente patética. 'Eu e os outro banidos da festa vamos fazer um jogo nos fundos da casa, quer ir?'
Minha vontade era dizer que não, que eu estava assistindo a festa para dedurar minha prima depois, mas eu iria à qualquer lugar que aqueles olhos azuis me pedissem.
'Claro' Eu disse.
Levantei-me e ele pegou em minha mão, beijando-a. Eu arregalei os olhos para aquilo, isso nunca havia acontecido comigo, eu só tinha visto isso em filmes e não sabia como reagir.
'Sou Miguel' Ele disse, voltando a ficar ereto e largando a minha mão docemente.
Eu devo ter corado horrores quando respondi:
'Nathália'
Ele sorriu apaixonantemente e ofereceu-me o braço. Meio chocada, eu aceitei.
Fiquei achando que ele estava me vendo como uma garotinha boba pelas minhas reações lerdas ao lado dele, mas se ele pensou isso, ele não demonstrou. Apenas me guiou até os fundos da casa sem falar nada. E eu apenas corava cada vez mais com pensamentos tolos.
Ele deixou-me com um sorriso e correu pra mais perto dos nossos primos em comum. Eu logo reconheci os rostos e tentei parecer mais tranqüila e prestar atenção nas regras do jogo. Não era fácil. Por mais que eu tentasse evitar, meus olhos me enganavam e se voltavam pra ele. Em uma dessas vezes, ele sorriu e piscou pra mim. Eu corei até a morte.
'Você gosta dele' Esse foi o "olá" da minha querida prima Margaret.
Eu olhei pra ela de rabo-de-olho, tentando parecer mais relaxada do quer eu realmente estava.
'De quem?' Fiz-me de desentendida. Isso, normalmente, funcionada. 'Você só pode estar maluca, Margie'. Declarei.
Ela revirou os olhos. Era claro que ela não acreditava em nem uma vírgula do que eu estava dizendo.
'Estou falando do Miguel' Ela disse, apontando para ele com a cabeça. 'E eu não estou maluca, estou vendo como você olha pra ele, boba'.
Então eu precisava mesmo aprender a disfarçar, eu pensei enquanto eu olhava pra ele mais uma vez. Ele olhou pra mim e sorriu, fazendo-me corar. Margie quase gargalhou.
'Ele é fofo, sabe?' Eu confessei, fazendo Margie rir ainda mais.
Dei de ombros pra risada dela e tentei entender a brincadeira. Parecia uma mistura de pique-esconde com Marco Polo sem piscina. Contanto que eu não fosse a pessoa a procurar, eu estava topando.
'Sabe' Margie começou, enquanto andávamos mais pra perto deles para que pudessem escolher quem seria o primeiro a sair para procurar. 'Ele está total na sua'.
Corei ainda mais. Eu confiava na Margie sobre isso, ela era um ano mais velha que eu e tinha muito mais experiência com meninos. Alias, quase todo mundo tinha mais experiencias com meninos que eu, já que eu não tinha nenhuma.
Eu não pude responder nada porque nos aproximamos deles e tiramos a sorte. Miguel perdeu. A cara dele foi totalmente fofa e hilária. Mark, irmão da dona da festa, colocou a venda em Miguel e eu quase fiz biquinho por não poder ver mais os lindos olhinhos azuis dele. Só não fiz bico para que Margie não risse de mim.
E, então, começou a contagem:
10
Todo mundo começou a correr e procurar um lugar escondido e abafado, menos eu. Eu fiquei parada, encarando a carinha confusa dele e a forma com que ele olhava para cima, tentando ver algo por debaixo da venda.
9
Ele desistiu de tentar olhar por debaixo da venda e começou a tentar olhar por cima. Eu soltei uma risadinha e ele se virou na minha direção. Eu tenho certeza que ele não conseguiu me ver, mas abriu um sorriso lindo.
8
O sorriso me fez sorrir e corar. Ainda bem que ele não podia ver isso. Ele fez que vinha em minha direção, mas não se moveu. Ele não podia andar pra lugar algum enquanto não terminasse a contagem. Então ele apenas deu de ombros, claramente pra mim, e pôs as mãos nos bolsos.
7
Eu olhei-o de cima a baixo. Como ele era lindo! Lembro-me de ter corado por estar tendo esses pensamentos. Eu nunca havia me sentido assim, com nenhum garoto. Eu achava os garotos da minha sla uns completos idiotas. Infantis e imaturos. Mas o Miguel... O Miguel parecia perfeito pra mim.
6
Ele ouviu algum outro barulho em algum outro lugar e se virou rapidamente. Do lugar pra onde ele olhou, eu vi Margie arregalando os olhos pra ele e depois pra mim. Ela pareceu mais chocada quando olhou pra mim que quando percebeu que Miguel havia escutado onde ela estava.
5
'Nathália!' Ela gritou, entregando totalmente a sua posição e rapidamente procurando outro lugar pra se esconder.
A princípio, eu não entendi o porquê do escândalo, mas isso me fez acordar de meu transe e perceber que eu era a única retardada que ainda não procurara um lugar pra se esconder.
4
Eu corri feito uma louca até uma mesa de jardim nos fundos da casa para me esconder embaixo dela. Parecia um esconderijo patético e infantil, mas era o único (e improvisado) que eu conseguiria naquela hora. Ainda olhei para trás, conseguindo ver as sobrancelhas de Miguel se frisarem para o lugar que antes estivera Margie, quando ela me gritara.
3
Por estar olhando pra Miguel e correndo ao mesmo tempo, eu acabei trombando com a mesa e cai sentada no chão com um tímido 'ai'. A risadinha de Miguel, atrás de mim, me fez acreditar que ele sabia exatamente onde eu estava e quem eu era. Merda.
2
Eu continuei na minha idéia de 'debaixo da mesa'. Então me curvei e me encaixei entre as pernas dela, abraçando as minhas pernas e tentando saber onde estavam as outras crianças. Encarei, chocada, Mark sentado, contente consigo mesmo, em um galho de uma árvore. Margie estava tentando convencê-lo a ajudá-la a subir, mas ela desistiu e acabou jogando-se deitada no canteiro de rosas.
1
Seth estava atrás de uma arvore, logo próximo à árvore de Mark. Jonathan estava sentado confortavelmente em uma cadeira-balanço. Kate estava deitada embaixo de uma planta e soprava dentes-de-leão, totalmente distraída. Duas meninas que eu não sabia o nome se encolhiam entre estátuas.
'MARCO!' Miguel gritou.
'Polo!' Respondemos todos.
Miguel virou-se totalmente pra mim e sorriu. Eu gelei, não podia ser a primeira a ser achada ou seria a próxima a procurar.
Como se tivesse ouvido minhas lamúrias mentais, Miguel se voltou para Jonathan, no balanço. Espertamente, ele encostou no garoto, que bufou.
'Você é um merda, Miguel.' Ele disse. Fiquei chocada, na época. Depois, acostumei-me aos palavrões.
Miguel apenas riu.
'Marco!' Ele chamou, novamente.
'Polo' Respondemos todos, inclusive Jonathan, que acabou levando um tapa na nuca de Miguel, por tê-lo indentificado-o.
Em cinco minutos, Miguel já havia encontrado as meninas da estátua, Seth e Kate e estava pulando para alcançar o pé de Mark. Margie foi a última, além de mim.
Eu não entendia. Eu tinha certeza de que ele sabia exatamente onde eu estava, mas ele nãoo andou em minha direção até que não houvesse mais ninguém para achar.
Margie começou a empurrar as pessoas pra longe. As meninas logo foram, em risadinhas. Os meninos demoraram mais, mas foram como cachorrinhos quando ela bateu palmas para eles se apressarem.
'Marco.' Miguel disse.
'Polo.' Eu não sei como eu não gaguejei.
Ele caminhou exatamente em minha direção e agachou. Ele era muito bom naquele jogo.
'Marco' Ele sussurrou. Perto demais, eu podia ver todos os nuances dos azuis de seus olhos.
'Pol...' E seus lábios encontraram-se aos meus.

- E hoje, doze anos depois - Eu funguei, não conseguia segurar as lágrimas - Estou nessa igreja, pronta para aceitá-lo como meu marido. Esperando por mais um beijo, o beijo que nos fará marido e mulher.
Miguel sorria, totalmente apaixonado, pra mim, os olhos azuis brilhando de tal forma que eu poderia desmaiar só por estarem direcionados à mim.
- Eu amo você - Sussurrei pra ele, quase sem som algum, de tão emocionada que eu estava.
Miguel deu um passo a frente, pronto para me beijar sem esperar mais um segundo sequer, mas meu pai freiou-o com a bengala do meu avô, ma primeira fila.
Eu ouvi Margie, que estava de madrinha, rindo, mas eu não conseguia tirar os olhos do sorriso sem graça dele. Ele deu de ombros pra mim e pareceu-me terrivelmente inquieto.
Eu entendia. Eu também mal via a hora de ter um novo primeiro beijo...

Contos Eróticos... Ou quaseRead this story for FREE!