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 Crônica feita por  Korwauski

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 Crônica feita por  Korwauski

    Todos já fomos crianças. Cada um de nós, quando menor, já fez algum tipo de travessura, já fez aquela besteira que enfureceu nossos professores, nossos pais, de certo, algum amigo. É algo normal, não significa que você vá crescer e ser uma pessoa ruim. Quando pequenos, nossos atos de maldade são sempre justificados com frases do tipo "ele é uma criança, não sabe o que está fazendo" e por aí vai.
          — Eu... Eu não acredito... — falava uma velha senhora gorda, sentada numa cadeira de rodinhas que fazia um barulho engraçado. De olhos fechados, suando, com a mão na testa. Ela apoiava seu cotovelo em sua mesa de madeira.
"Diretora" Era o que dizia uma placa metálica riscada de sua mesa.
          — Senhora diretora, nós só fizemos o que ele pediu — falou Mellany, uma adorável garotinha de tranças que parecia ser feita de porcelana fria.
          — Senhora diretora, ele nos disse que não estava vendo a caneta. Nós só mostramos para ele — continuou um menino, que permanecia sentado, ao lado da menina. Este é Christian, irmão gêmeo de Mellany. Tão dócil quanto a irmã.

      Algumas crianças... Bem, são peculiares.

          — Ele disse que não estava vendo a caneta? — pergunta a velha, tremendo, vermelha como um pimentão e tremia como se fosse explodir — E VOCÊS RESOLVEM ISSO CRAVANDO A CANETA NO OLHO DO GAROTO?

      Mas outras, irrecuperáveis.
          — Agora não tem como ele não ver! E ele também não vai perder!
          — Irmã... Pensando bem... Acho que ele não está mais vendo...
          — Irmão, ele ainda tem outro olho, não tem problema! Haha!
          — Tem razão, irmã!
      No impulso, a mulher bate com toda a força as duas mãos na mesa, criando um estrondo que pode ser escutado dos corredores da instituição.
          — Chega! Eu não quero mais um pio de vocês dois demônios! Vocês dois estão conseguindo falir uma escola inteira! Sabe quantos alunos saíram daqui por causa de vocês, bastardos!? Doze! Na última reunião de pais eu fui obrigada a escutar que a escola deveria ter uma sala com instrumentos de tortura só para vocês dois! E a desnaturada da mãe de vocês não atende o telefone, o celular, nada! Nem ela quer vir até aqui ter que enfrentar vocês!
          — Senhora diretora, nossa mãe está aqui. Já falamos... Mas ela não vai poder falar nada até você nos prometer a casa dos sonhos. Nós já fizemos tudo pra entrar lá, está tudo embalado. Mas não sabemos como chegar.
          — Senhora diretora, nós queremos ir pra casa dos sonhos! Lá vivem crianças como nós, que sonham o dia todo.
          — Casa dos sonhos? Vocês estão loucos? Se eu pudesse eu lhes mandava direto ao inferno, de onde vocês vieram... Jesus, vocês dois tem esquizofrenia, aquele menino nunca mais vai ver... Deus... — Resmunga ela, colocando seu peso para trás da cadeira, olhando para o teto, como se quisesse que Deus escutasse suas preces e, de preferencia atendesse-as.
          — irmã — Fala Christian, animado — Talvez se nossa mãe aparecer, ela nos mande para a casa dos sonhos.
          — Será?... Eu não sei. Eu queria que ela prometesse antes de ver a mãe.
A velha ignora a conversa das crianças e começa a ler um bloco de notas. Talvez não devesse realmente prestar atenção naquelas duas crianças.
Christian aproxima seu rosto ao de sua irmã e lhe dá um beijo na boca, de selinho.
          — Confie em mim, eu sei que ela vai.
Um pouco corada, a irmã concorda.
          — Senhora diretora, pode falar com a nossa mãe — Diz ela.
          — É, claro, sua mãe.... Sei — Responde a diretora, sem tirar os olhos dos papeis.
É quando Mellany pega sua mochila e a coloca em cima da mesa da mulher, que faz um pequeno barulho com o impacto na mesa oca.
          — Mellany, você não pode comer na minha sala, espere até sua mãe chegar... O que é isso? Seu lanche estragou, sinto cheiro de alguma coisa... Podre — resmunga a velha, farejando o ar, encarando a menina, com um grande estranhamento.
          — Isso foi Rude. Não fale da mamãe assim.
      Ao abrir o zíper, Mellany puxa algo de lá. Uma cabeça.
Não se podia saber se era um homem ou mulher, pois seus ferimentos estavam além do necessário para se ter esse tipo de informação.
      A cabeça, se é assim que podemos chamar, era quase que toda formada apenas pelos ossos de seu crânio amarelado, amarelado do sangue que ali estava ficando mais seco a cada segundo. Sua bochecha ainda tinha um pouco de pele suja e pendurada, que não era suficiente para cobrir a carne, a musculatura seca da região do queixo até pouco abaixo do pescoço. Um de seus olhos estava deixo da caixa craniana, este, que, claramente não era mais um globo, pois era muito murcho para ser assim chamado. Já sabemos o motivo disso, pelas larvas que ali estavam se pendurando, saindo do olho do indivíduo.
      Pequenas larvas amarelas com riscas brancas que se movem, viscosas, deixando um pequenino rastro brilhoso por onde passam. Caindo dos olhos, passeando por entre as narinas, deslizando dentre os dentes do mesmo, alimentando-se de cada pedacinho de gengiva que estava descolando da região do buço da cabeça. A língua estava negra e a mostra, mas, devido as larvas e bactérias, sua coloração era preta e no momento, vários buracos amarelados se encontravam nela, até que mais uma larva começa a rastejar de um desses buracos. Ela coloca sua cabeça para fora, a balançando rapidamente para a esquerda e direita, movendo-se para fora da língua de forma sorrateira

      A diretora não consegue expressar e nem fazer mais nada.
Algumas crianças, infelizmente, sabem muito bem o que estão fazendo.
                                                                  

      — Por que estão demorando tanto, Rumpel? Já era para o carro ter chegado há dez minutos

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      — Por que estão demorando tanto, Rumpel? Já era para o carro ter chegado há dez minutos. O homem costuma a ser sempre pontual. Ele sabe como eu fico quando minhas crianças não chegam na hora certa.
      — Ah, senhora Pompoo... — diz Rumpel, de olhos fechados, coçando levemente os fios ruivos de sua barba — talvez algum acidente aconteceu, talvez
      — O que é aquilo? — pergunta pasma, interrompendo o homem e erguendo a cabeça rapidamente em direção ao que via.
      Os gêmeos caminham, em delicados e curtos passos, ao fundo da estrada, se aproximando bem devagar do orfanato. A cada passo que davam, uma marca vermelha, uma pegada de sangue era formada, deixando uma trilha de morte pela estrada, que ia se estendendo a cada momento.
      A diretora do orfanato apenas observa os dois, curiosa, enquanto seu irmão segura com força o paletó no peito, perplexo com aquela imagem.
Após alguns poucos minutos, as crianças chegam ao grande portão de ferro negro e enferrujado. Suas vestes, seus cabelos, suas mãos, rosto... Eles fizeram questão de pintarem em vermelho tudo aquilo que havia para pintar. Para brincar.

      Por fim, os dois param em frente aos adultos. Mellany, com um sorriso sereno e inocente no rosto, quebra o silêncio e é a primeira a soltar alguma coisa. Uma pergunta:
      — Você é a Srta. Pompoo, certo? — Seu irmãozinho, vidrado na beleza da bela mulher, sorri também.
      — Sim, sou eu. Onde está o carro? — a pergunta saiu com um tom onde claramente Pompoo estava mais curiosa em ouvir a resposta vinda dos gêmeos, do que brava por já saber o que eles iam responder.
      — Ele não pôde nos deixar até aqui... Não estava se sentindo muito bem.
      — E vocês dois continuaram a pé, andando na estrada até aqui, mesmo assim. Por quê?
Os dois irmãos, um ao lado do outro, dão suas mãos com muito carinho. Um segura a mão do outro de forma muito apertada. O sangue escorre pelos braços dos dois e bem de onde suas mãos se unem, pinga como uma goteira no chão.
      Christian fala, extasiado: 
      — Nossos pais nos contaram uma história linda. Sobre uma casa enorme, em que eles moravam quando eram pequenos.
      — Ele nos disse uma coisa que nos deixou tão felizes que era muita bobeira não vir para cá — continua Mellany.
      — Pelo que eles contaram, eu e minha irmãzinha percebemos uma coisa.
      — Que se viéssemos para essa casa, nós iríamos brincar com muitas crianças que veem o mundo da mesma forma que nós dois vemos. Nós iríamos ver a casa onde os sonhos das crianças viram realidade.
      Pompoo observa em silêncio aquela cena. Ela analisa as crianças.
      E por fim, sorri.
      — Sejam muito bem-vindas ao Insanity Asylum. Vamos, minhas crianças, temos muito ainda o que fazer.

 Vamos, minhas crianças, temos muito ainda o que fazer

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