14 - Braços colados, sutiã no lugar

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(Acho que isso já deve ter acontecido com alguém hahaha é terrível)


Eu gostava de pegar ônibus em alguns momentos e aquele era um momento especial para isso. Gostava de ficar sentada com o braço na janela apoiando a minha cabeça enquanto olhava a imagem borrada passando pelos meus olhos. As pessoas vivendo suas vidas de forma despreocupada me mostrava que aquilo tudo iria passar, que em comparação com todo o universo, o meu problema era pequenininho. Olhava enquanto as pessoas passavam apressadas pela rua, sem parecer ter tempo para apreciar o vento que ainda teimava em acariciar seus rostos desatentos. Uma criança corria na rua e a mãe tentava segurar a mão dela. Fechei meus olhos e tentei deixar a mente vazia, contudo, tem vezes que nossas mentes não nos pertence. É algo totalmente a parte que faz questão de trabalhar sem o nosso consentimento.

Eu precisava de ajuda.

Queria ajuda de alguém. Queria poder dizer tudo o que estava acontecendo comigo. Não sei como agir. Tem certas coisas na vida que devemos encontrar alguém que já passou pela mesma situação e que nos mostre o caminho certo. O problema é que, às vezes, certos segredos, se falados em voz alta, podem se tornar real. Não podem mais ser coisa de nossas mentes. O universo ficará encarregado de levar o que foi dito para o mundo real. E isso amedronta mais do que não saber o que fazer.

Estava muito bem pensando na vida quando o motorista do ônibus passa de vez por uma lombada e todos terminam "voando" de seus assentos. Assim que tento me segurar na cadeira da frente algo terrível acontece.

Clic.

Sinto um alívio na parte da frente de meu tronco.

Eu estava com um top, um maldito top.

Um maldito top que acabara de desatacar.

Fiquei dura.

Deixei os meus dois braços colados no meu corpo, tinha toda a certeza que se os mexesse eu iria ser o desastre na terra.

O ônibus parou e várias pessoas subiram nele. Continuei olhando para a janela sem saber direito como reagir. Não deveria mostrar desespero em meu olhar. Respirei pacientemente uma, duas, três vezes e relaxei meus músculos faciais.

Pronto, tudo iria ser resolvido. Eu iria me levantar na minha parada e iria caminhar, como sempre, para casa.

- Elevador!

Escuto alguém dizendo.

Quem grita pelo elevador?

Quem grita pelo elevador no ônibus?

Olho para a frente e percebo aquele menino da festa que fiquei conversando, contra a minha vontade, até a sua casa. Ele ainda não tinha passado pela catraca, era o terceiro na fila, e acenava com vivacidade para mim. Retribuí com um sorriso amarelo. Olhei para todos os assentos vagos do ônibus e rezei para uma das duas primeiras pessoas sentarem ao meu lado. A primeira pessoa sentou atrás de mim. Meu coração acelerava e eu continuava lançando sorrisos e olhares amarelos para o menino. A segunda pessoa sentou-se ao meu lado e eu pareci relaxar. Olhei para o menino como se estivesse falando "Que pena, né?" Mal sabia ele que eu estava vibrando por dentro. Preferia alguém estranho para estar ao meu lado, nesta situação, do que uma pessoa conhecida.

Ele passou pela catraca e iria se sentar no assento da frente quando a pessoa do meu lado se levanta e vai se sentar ao lado de outra pessoa. "Olá, menina..." Escuto o estranho dizendo para a conhecida no ônibus.

- Mas que sorte, hein? – O menino senta do meu lado feliz como se fosse um cachorrinho. Imaginei uma cauda bem grande e felpuda e ele balançando ela de um lado para o outro.

Colei ainda mais os meus braços no corpo.

Sorte??

Queria dizer que nesse momento eu não sabia o que era ter sorte na vida.


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