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O medo tinha cheiro.

Havia milhões de pensamentos plausíveis, embora assustadores que poderiam passar pela minha cabeça naquele instante – enquanto Clementine e eu observávamos em expectativa aquela densa e escura parede de árvores que nos separava do que agora se tratava, pelo menos para mim, da macabra trilha Blakley –, porém aquele fora o único que me ocorreu.

Não era um fato cientifico que tirei de algum livro didático como os quatro tipos de asas que um inseto poderia ter ou algo que meu tio disse antes de morrer. Era um conhecimento baseado nos meus sentidos distorcidos pela esquizofrenia.

Eu sentia que cada poro de cada centímetro da pele que cobria meu corpo lançava ao ar a essência particular e bruta do medo. Eu sentia também que seja lá o que fosse que estivesse à nossa espreita, por de trás daquelas fileiras de galhos retorcidos e nodosos, podia detectá-lo.

Gostaria de ter avisado isso a Clementine, ainda que fosse uma informação inútil e que provavelmente mal me daria ouvidos. Entretanto, nosso momento de espera se esgotou antes que a anestesia aplicada pelo pavor nos músculos da minha língua chegasse ao fim.

Em algum lugar longe dali o ponteiro do relógio de pulso barato de um desconhecido andou um segundo e nossa série de desventuras prosseguiu.

O ruído de um sutil resvalar de folhas alcançou meus ouvidos e a sombra de amontoado de arbustos a alguns metros de onde estávamos se tornou sólida e se moveu. Comprovando a ideia de que a cena fora tão real quanto o grito não-humano que tínhamos ouvido, Clementine recuou dois passos com suas unhas ainda tentando perfurar a carne de suas mãos e seu corpo se estabelecendo na posição de um meio giro pondo-a quase na mesma direção que seguíamos até então.

Havia se dado conta do perigo eminente, descoberto por si só que seu cheiro também o atraía.

Naquele instante, a criatura saiu de seu esconderijo em um salto e a luz opaca da lua que atravessava a redoma produzida pelos braços trançados das árvores mais altas a atingiu e finalmente pude vê-la.

Era um gigantesco cão negro. Com sua bocarra aberta em um urro gutural deixando a mostra duas carreiras de dentes brancos perigosamente afiados. Antes que suas patas dianteiras chegassem a bater no chão Clementine e eu já iniciávamos a segunda fuga da noite.

Meus pés se puseram em movimento disparando atrás de Clementine – que sempre parecia estar mais bem preparada do que eu – e nos emprenhamos mais fundo naquela pequena floresta. Não havia porque continuar a seguir a estrada quando um perigo maior galgava atrás de nós.

Conforme nos afastávamos de Blakley o breu da mata nos envolvia em um abraço gélido e mortal. Pior que iniciar uma corrida sobre o cascalho molhado do estacionamento do Jerman's Bar, sem maiores reflexões, era se aventurar naquele terreno irregular.

O solo de terra mole engolia cada passada minha e a relva salpicada de orvalho escondia buracos no chão prontos a me derrubar. Ainda havia as árvores, com seus tenebrosos rostos de madeira e seiva me fitando com expressões tortas de escárnio enquanto seus galhos e ramos surgiam abruptamente em meu caminho.

Eles arranhavam meu rosto e braços e tentavam se agarrar a minha jaqueta, mas não havia tempo para se proteger ou desviar. Os latidos cheios de cólera do animal e o baque de suas patas avançando rápido soavam cada vez mais próximos de nós.

Ele nos alcançará, uma voz negativa sussurrava dentro de mim enquanto o fôlego era roubado mais uma vez dos meus pulmões. O desespero levava minha mente a maquinar contra mim mesma pintando em suas paredes uma cena brutal: uma fera muito maior do que um simples bandog feroz rasgando e despedaçando minha carne com seus dentes e garras pontiagudas.

A Garota Afogada do Lago GreeneLeia esta história GRATUITAMENTE!