Sorte no azar

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Minhas mãos tremiam, meu corpo parecia estar entorpecido. "Precisamos conversar" se repetia como um grande eco em minha mente. Tentei listar coisas que eu tenha feito errado inconsequentemente nos últimos tempos. Com isso, não achei muitas coisas mas reverti a história. Por um lado, Rafael tem feito coisas que não condizem muito com o termo "namorado" ultimamente. E ai veio a grande dúvida: ainda somos namorados? E se somos, ainda continuaríamos com nosso relacionamento depois dessa "grande" conversa?

As dúvidas tomavam conta de meu pensamento, e as vezes, conseguiram até confundir alguns atos comuns do meu corpo. Não percebi isso até Lola perguntar porque eu estava botando o suco no armário.

- Lia, você está meio avoada. É por causa da mensagem? – revirei os olhos para sua lerdeza. O jeito que acordei, minha preocupação com sua segurança juntando com as lindas mensagens dignas de post no famoso Orkut enviadas pelo namorado, acabaram me deixando com um humor não muito favorável. E são tempos que eu não acordo assim.

- Claro que não Lola, não estou nem ligando para essa mensagem estranha e um pouco assombrosa enviada por Rafael. – nesse momento, sarcasmo e ironia eram meu escudo.

- Também não precisa ser grossa. – ela saiu da cozinha batendo o pé como uma criancinha, quem dera se eu batesse o pé tudo desse uma grande reviravolta e todos vivêssemos feliz para sempre.

Cansada de tudo aquilo, resolvi voltar para minha casa. A ameaça predominante dos ataques de minha mãe me faziam querer simplesmente deitar no sofá com uma aparência bem confortável e dormir pelos próximos 40 anos, talvez assim eu conseguisse fugir dos meus problemas e compromissos.

Porque é assim e sempre foi assim. Foi como se meus olhos se abrissem e eu enxergasse claramente um dos meus piores defeitos: fugir de todos meus problemas e compromissos, agir como se eles não existissem quando ao mesmo tempo, claramente eles existiam sim e tinham o prazer de ficar me cutucando durante dias e dias. Cutucando até eu me tocar que teria que enfrentar isso de um jeito ou outro.

Problemas e consequentemente compromissos que eu, Lia, não poderia deixar de lado. Os descartar como se fossem um grande nada não estava entre as possibilidades. "E quais eram as possibilidades?" me perguntei olhando para o reflexo acabado do espelho. Aquela era eu. Acabei fazendo toda minha higiene pensando sobre isso, era como se uma grande epifania caísse sobre mim.

Pegando meu celular e com a mesma roupa de ontem, saí do apartamento chique de Yuri. Senti um pequeno remorso ao passar pela porta sem me despedir de meus amigos, mas então me permitir pensar em que isso aconteceria só dessa vez. Estava a caminho de casa, passando por ruas e lugares diferentes, tentando me distrair o máximo possível. Mas minha cabeça insistia em repetir o nome dele: Rafael, Rafael, Rafael... Era como se mesmo que eu quisesse dois minutos longe de meus problemas o universo quisesse deixar claro que eu não poderia deixar esse assunto de lado.

Com a menção de nome, lembrei de responder sua mensagem. Com meus dedos trêmulos digitei uma resposta.

"Tudo bem, estou indo para casa agora. Que horas você quer conversar?"

Antes mesmo de eu suspirar recebi sua resposta:

"O quanto antes melhor. Não estou em São Paulo, então vai ter que ser via Skype"

"Me mande mensagem quando estiver livre"

Ótimo, belo jeito de terminar o namoro: pelo Skype.

Tentando ser o mais silenciosa possível ao abrir a porta, encontrei minha mãe descansando no sofá. Seus óculos de leitura jogados sobre a mesa de centro e a televisão ligada em alguma série "médica". Sua obsessão por hospitais, pacientes vivendo um constante drama com suas doenças curáveis e outras vezes até incuráveis e médicos gostosos me fizeram rir durante muito tempo. Até eu ficar completamente viciada em suas séries. É, um dia da caça, o outro do caçador.

- Isso são horas, Lilian? – em meio aos meus devaneios não percebi quando joguei as chaves na mesa de vidro fazendo um barulho estridente. Parabéns Lia, você sabe que o universo super coopera com você nessas situações, certo?

- Eu dormi na casa de Yuri. – a palavras saíram de minha boca sem que eu me desse conta das segundas intenções que vieram junto. A mulher que me colocou no mundo me encarava, suas sobrancelhas arqueadas e os braços cruzados me faziam pensar que estava mesmo em grandes apuros, mesmo que ela trajasse um roupão e o cabelo estivesse parecido com o Sol. – Não desse jeito que você está pensando, obviamente eu não trairia Rafael...

- Você está divagando, filha. – ela me analisou de cima a baixo. – E fedendo, vai tomar um banho logo. Tenho certeza que não tomou café.

Lhe lancei um sorriso e subi as escadas correndo ansiosa para a conversa que viria a seguir. Seguindo os conselhos de minha mãe, tomei um banho rápido. Não iria aparecer em uma conversa por vídeo com meu namorado (ou quase isso) vestida em uma roupa de "festa" e com o rosto bem abatido.

Já pronta, lhe enviei uma mensagem dizendo que estava pronta. Com o notebook ligado e o coração na mão, me ajeitei em uma possível posição confortável na cama. O problema: não era a cama que estava desconfortável, era eu.

Desconfortável com a situação, com os sentimentos ainda não identificados dentro de mim. A sensação de não saber o que estava acontecendo, de estar em um caixa pequena e escura era horrível. E eu me perguntava porque estava assim. Era só mais um conversa simples, certo?

Isso era o que eu tentava me conformar.

Em segundos havia uma solicitação para uma chamada em vídeo de Rafael, se antes eu estava em um pequeno pânico, pode-se dizer que agora ele se multiplicou 5 vezes.

Foi de tirar o fôlego ver sua imagem depois do que seriam semanas. Ele estava com a expressão de acabado, a aparência fazendo jus a isso. Antes de nos cumprimentarmos Rafael espirrou, foi ai que percebi seu nariz vermelho. As olheiras tímidas abaixo dos olhos, as marcas de antigas espinhas que agora não habitavam mais seus rosto, o nariz vermelho e o lábio seco e rachado me fizeram perder o fôlego. Porque aquele era Rafael Lange, o meu namorado que talvez só tenha feito essa chamada em vídeo para me dar um pé na bunda.

- Você está acabado. – foi a primeira coisa que consegui comentar depois de um silêncio agonizante.

- Obrigado, foi um belo de um elogio. – ele suspirou e o silencio se instalou mais uma vez, mexia minhas mão nervosa e sentia seus olhos azuis me analisando.

- Então... O que queria conversar comigo tão urgentemente? – apertei o lençol me preparando para a possível bomba que seria lançada sobre mim.

- Sobre isso... – ele foi interrompido pela minha mãe escancarando a porta do quarto.

- Lia, Yuri passou aqui para entregar suas coisas que ficaram no quarto dele na noite que você dormiu lá... – ela finalmente se deu conta de que não estávamos sozinhas. – Atrapalho?

- Não, não. Já estava desligando, acho que já entendi tudo. – murchei com o olhar que ele lançava sobre mim. Antes mesmo de eu abrir a boca, a ligação foi encerrada.

Merda, será que ele pensava que eu tinha dormido com Yuri? Não, em hipótese alguma ele deveria ter pensado isso. Porque caramba, eu sou a Lia! A pessoa mais virjona que existe nesse mundo, se possível.

O que eu pensava que seria uma conversa pacífica, não acabou tão pacifico assim.

Clouds → Rafael Lange | CellbitOnde as histórias ganham vida. Descobre agora