Capítulo 1

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"- O que você fez depois? – perguntou ele, após um minuto.

- Pesquisei um pouco na Internet.

- E isso a convenceu? – sua voz não demonstrava interesse. Mas as mãos estavam agarradas ao volante.

- Não. Nada se encaixava. A maior parte era meio boba. E então... – eu parei.

- O quê?

- Concluí que não importava – sussurrei.

- Não importava? – Seu tom de voz me fez olhar – eu finalmente tinha rompido sua máscara cuidadosamente composta. A expressão dele era incrédula, com um toque de raiva que eu temia.

- Não. – eu disse suavemente – Não importa para mim o que você é.

Um tom ríspido de escárnio penetrou sua voz.

- Você não liga que eu seja um monstro? Que eu não seja humano?

- Não."

Aquela já devia ser a quarta ou quinta vez que eu lia aquelas mesmas linhas. Ainda assim, o arrepio e a eletricidade que percorreram a minha espinha, o riso que tomou conta do meu rosto, tudo era o mesmo. Eu não podia evitar que todas as vezes que eu relesse as discussões e diálogos complexos entre Bella e Edward eu me sentisse desse jeito.

Fui cortada quando a minha mãe se aproximou e se sentou ao meu lado no sofá da sala, me fazendo erguer os olhos do livro. Ela sorriu pra mim e ergueu a capa para ler o título: Crepúsculo. Apenas uma dentre as dezenas de obras do gênero que eu guardava com cuidado no meu quarto.

- Não acredito que você está lendo esse livro de novo. – ela me disse, perplexa. Minha mãe não tinha absolutamente nada a ver comigo: ela não era amante dos livros, era sempre muito aérea e impulsiva. Eu já fazia o tipo decidida, teimosa e pé no chão da família.

- Se você lesse, ia entender o porquê. – afirmei, mostrando a língua. Ela riu e me passou o livro de volta.

- Você devia parar de ler e cuidar da vida real. – apontou, me estendendo o telefone sem fio – O Pablo já ligou três vezes hoje. Se ele ligar a quarta vez, pare de fingir que saiu e atenda logo o menino.

- Eu não mereço isso! – bufei e peguei o telefone, olhando pra ele por alguns segundos, querendo mesmo é jogá-lo na parede com toda a minha força.

- Laura, o que é isso, filha? O garoto é seu namorado! Se as coisas estão desse jeito, por que você simplesmente não fala e termina com ele?

- Porque... porque...

Porque eu era uma covarde. Eu tinha essa resposta na ponta da língua fazia mais de um mês. Minha mãe não era a primeira e nem seria a última a me perguntar isso, mas Pablo era um caso delicado. O nosso namoro tinha demorado a ingressar, e depois de sete meses juntos eu simplesmente não estava mais no clima de continuar com ele.

O problema é que nem todo o meu jeito decidido de ser colaborava quando eu tentava terminar com ele. Pablo era gentil, meigo e me amava – até demais. Ele era tão grudento que eu acabei enjoando. Mas ele era tão sensível que toda vez que eu tentava terminar ele já ficava a ponto de chorar, e eu simplesmente desistia.

- Amanhã começam as aulas, mãe. – falei, com um ar derrotado – Eu vou vê-lo e falo com ele. Não posso fazer isso pelo telefone!

Mamãe simplesmente me lançou um olhar desconfiado e foi embora. Eu fiquei ali, na sala ampla e fria da nossa casa, encarando a parede com a lareira que era acesa somente nos dias mais absurdamente frios do ano e as fotos que traziam pequenos momentos da nossa vida.

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