Capítulo 3

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No dia seguinte acordou bem cedo para não se atrasar. Tomou café, arrumou o quarto e escolheu a roupa perfeita para seu primeiro dia oficial.

Chegando lá, encontrou uma fila de rapazes bonitos. Todos atores cantores disputando o papel do Príncipe Siegfried. Assim como na audição final para Odette/Odile, havia somente dez finalistas. Hoje, ela e a número seis, Aline Moretto, contracenariam com os rapazes, a fim de ajudar os diretores a escolherem o ator perfeito para o papel. A química deveria existir entre os três. Logo, Elena percebeu que isso não seria possível. Ela e Aline não se deram uma com a outra – como peças de quebra-cabeça iguais, não se encaixavam. Mas talvez fosse exatamente essa química de oposição que os diretores procurassem. Orgânica a ponto de ser real. "Que droga!", resmungou em pensamento. Mas parou de conjecturar teorias da conspiração quando os rapazes começaram a se apresentar.

Um era mais magnífico que o outro, entretanto, foi o número três que lhe chamou a atenção. Ele era muito mais alto que os demais, tinha barba tão castanha-clara quanto as ondas de seu cabelo. Usava apenas um jeans velho e uma camiseta branca de gola careca que permitia aos mortais terem um vislumbre de seu peitoral esculpido. A imagem dele sob as luzes dos holofotes o fez parecer um deus nórdico vindo diretamente dos céus para o palco. Caminhava com elegante tranquilidade, tal como um leão ciente de seu poder e fascínio.

– Números três, quatro e oito, vocês passaram para a última fase. Aos demais, agradecemos a participação – anunciou Manolo.

Em seguida, uma das assistentes de produção convocou ela e Aline para se juntarem ao palco com os três finalistas.

– Minhas meninas lindas! – começou Manolo, enquanto Ronald estava calado com cara de poucos amigos. – Espero que tenham tido uma boa noite de sono, pois hoje começa a maratona de ensaios. Eis nossos finalistas. Quero que cantem e encenem um dueto com cada um deles. – Dito isso, um papel com o roteiro da cena que deveriam improvisar foi-lhes entregue. – O que vocês têm em mãos é a cena que deverão interpretar com cada um dos atores. Como sabem, este espetáculo é uma releitura de um clássico do ballet. Vamos transformá-lo em uma ópera rock e, além de cantar, vocês precisarão atuar também. Quero emoção. Quero sofrimento. Quero sentimentos palpáveis de tão vivos. Vocês têm dez minutos para ensaiarem. Merda para vocês! – E piscou para todos, tanto para os candidatos, visivelmente preocupados, quanto para elas.

Aline encarou Elena e suspirou como se estivesse cansada demais para sequer dar oi e foi ensaiar em outro canto.

Elena não assumiria nunca, mas ficara chateada demais pela evidente rejeição de Aline. Queria uma companheira de palco que realmente fosse companheira. Mas já que não podia ter tudo que queria, se contentaria com a esperança de que o resto do elenco fosse mais amistoso. Respirou fundo. Daria tudo certo. Sempre dava. Lembrou-se de Lúcia e do que ela sempre dizia: "A sorte só acontece quando a preparação e a oportunidade se encontram". Tinha apenas sete minutos para se preparar agora. Três deles perdera pensando baboseiras.

"Vai, foco!"


O Canto do Cisne: Um conto de fadas modernoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora