Capítulo 2

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Ele estava sentado ao lado de fora do confessionário. A luz vermelha estava piscando. Talvez fosse mal contato, mas essa conclusão não fazia com que ele tirasse o olhos da lâmpada. Estava martelando algo na cabeça. O ar era pesado e quente e podia sentir o rosto aberto como uma cicatriz recém adquirida.

– Pode começar, meu jovem. – Disse uma voz tremula e velha.

– Não sei por onde. – Resmungou, ainda com os olhos fixos na luz.

– Você tem todo o tempo que quiser.

– Esse é o problema. Às vezes o tempo me sobra.

– Já começamos a conversar. Isso é um bom sinal, meu jovem. – Terminou limpando o pigarro na garganta.

Ele sabia que precisava se confessar. Não que ele quisesse ou tivesse algo para falar. Mas precisava fazer isso antes do grande dia. Antes de subir o altar como superior. Antes de tomar o corpo e o sangue ele sentia necessidade de desabafar. Conversar com alguém.

Sentiu frio e encolheu feito criança procurando um adulto para se esquentar. Talvez a luz quente o acalmasse. Visivelmente o local estava vermelho, mas o coração branco como gelo. Era como se uma rajada de vento frio tivesse escolhido aquele exato lugar para passar. Quis correr, mas começou a falar...

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Mateus agarrou a mãe e chorou. Mimo veio atrás como se soubesse o que tinha acontecido. Na verdade Mimo sabia. Sabia que a mãe estava com as outras mulheres. Mimo sentia o desespero de Mateus e começou a lamber o rosto pálido e sem sangue da criança. O coração dos três estavam parados. Foi este o momento que eles não ouviram mais o coração da mulher jogada no chão, como se fosse um velho trapo amassado de limpar os sapatos desses que a gente usa na porta da casa.

Mateus soluçava desesperadamente. Mimo miava sem um compasso. Colocou a cabeça entre os dois e se entregou.

Ninguém apareceu durante dois dias.

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